A crônica desigualdade social brasileira

por Fernando do Valle

O Brasil ainda figura entre os países mais desiguais do mundo. Pessoas jogadas nas praças com seus cobertores, pedintes e crianças nos sinais de trânsito fazem parte do cotidiano das grandes cidades. Muitos preferem não enxergar o abandono de 16 milhões de brasileiros que ainda vivem abaixo da linha de pobreza. E o quadro tende a piorar: segundo projeções do Banco Mundial, o país produzirá mais 3,6 milhões de pobres até o final de 2017.

Sem dúvida, nas últimas décadas, a desigualdade diminuiu, mas continua como um problema crônico no país, essa é a principal conclusão do relatório “A distância que nos une” divulgado ontem pela Oxfam, organização que trabalha na área da justiça social há mais de 60 anos.

O Bolsa Família, ganhos educacionais (que impactaram na redução das diferenças salariais), ampliação da cobertura de serviços essenciais para os mais pobres e a política de valorização real do salário mínimo melhoraram o quadro de completo abandono social do período da ditadura militar e dos anos 80.

Segundo a Oxfam, “entre 1988 – ano da promulgação de nossa Constituição – e 2015, reduzimos de 37% para menos de 10% a parcela de população brasileira abaixo da linha da pobreza. Considerando os últimos 15 anos, o Brasil retirou da pobreza mais de 28 milhões de pessoas, ao mesmo tempo em que a grande concentração de renda no topo se manteve estável”.

Entre 1976 e 2015, o índice de Gini (parâmetro internacional usado para medir a desigualdade de distribuição de renda entre os países) variou de 0,623 a 0,51527, ou seja, a pobreza encolheu de 35% para menos de 10%, menos de um terço do que era há 40 anos.

Depois de alguns dados positivos, vamos aos números que apontam o persistente problema social do Brasil. Para exemplificar, o nível de concentração de renda continua absurdo, apenas seis pessoas possuem riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões de brasileiros mais pobres. Segundo o ranking de bilionários da revista Forbes deste ano, são esses os seis brasileiros: Jorge Paulo Lemann (investidor), Joseph Safra (banqueiro), Marcel Herrmann Telles (investidor), Carlos Alberto Sicupira (investidor), Eduardo Saverin (co-fundador do Facebook) e Ermirio de Moraes (do Grupo Votorantim). Juntos, eles possuem uma fortuna estimada em mais de R$ 280 bilhões.

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Favela do Paraisópolis com prédios de alto padrão ao fundo no bairro do Morumbi, em São Paulo

E tem mais: os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de renda que os demais 95%. Por aqui, um trabalhador que ganha o salário mínimo de R$ 937 por mês (cerca de 23% da população) levará 19 anos para receber o equivalente aos rendimentos da fortuna de um bilionário em um único mês.

No mundo, a situação também é extremamente desigual, ainda segundo a Oxfam, que estudou todos os indivíduos com um patrimônio líquido de pelo menos 1 bilhão de dólares, concluiu que 1.810 bilionários (em dólares) incluídos na lista da Forbes de 2016, dos quais 89% são homens, possuem um patrimônio de US$ 6,5 trilhões – a mesma riqueza detida pelos 70% mais pobres da humanidade.

Neste momento, o 1% mais rico da população mundial possui a mesma riqueza que os outros 99%, e apenas oito bilionários possuem o mesmo que a metade mais pobre da população no planeta. Por outro lado, a pobreza é realidade de mais de 700 milhões de pessoas no mundo.

Fonte: OXFAM

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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