Anonymous foi o nó que desatou os protestos em 2013

por Fernando do Valle

As manifestações que ocuparam as ruas no mês de junho de 2013 no Rio e em SP marcaram época. Ainda pouco conhecida pelo grande público, a rede de ativismo hacker Anonymous informou pelas redes o turbilhão in loco e dominou os nós de relevância no Facebook nos dias 13, 17, 18 e 20 de junho de 2013, segundo estudo capitaneado pelo cientista social Sérgio Amadeu, doutor em ciência política pela USP.

A pesquisa baseou-se em 500 mil comentários e mensagens postadas na rede social com 50 palavras-chave relacionados aos protestos e mostrou o poder influenciador do coletivo hacker nesses dias. Da Praça Tahir egípcia, passando pelo Occupy em Nova Iorque ao Acampamento do Sol espanhol, 2013 no Brasil está inserido no novo fazer político do século XXI, fortemente influenciado pelas redes digitais.

anonymous protestos 2013

Ativistas do Anonymous em protesto na Colômbia

Via 3G e wi-fi, vídeos ao vivo, textos e informações produzidas pelos Anonymous e outras fontes como Mídia Ninja e o Movimento Passe Livre circularam pela web em junho de 2013. Enquanto isso, a mídia corporativa vendia a tese de que as ruas das principais capitais brasileiras eram invadidas por “vândalos” ou “revoltosos de classe média que não valem nem 20 centavos”, como afirmou o comentarista Arnaldo Jabor na Rede Globo.

Os professores Fábio Malini e Henrique Antoun dissecam no livraço @Internet e #Rua  o surgimento do Anonymous. Segundo eles, da reação contra o monitoramento de “mensagens suspeitas” por parte do governo do presidente George W. Bush após os ataques às torres gêmeas em 11 de Setembro de 2001, que passava por cima da liberdade e da privacidade, surgiu o sítio do 4chan para comunicação anônima e rápida. No início, eram trocadas mangás e fotos pornográficas. Com o tempo, passou a trafegar pelo sítio informação de todo tipo.

Em um canal do site, /b/ do 4chan, se concentrou uma vasta atividade envolvendo fotos pornográficas e exibicionistas de adolescentes mescladas a uma conversa sem começo nem fim entre perfis que não se identificam, preferindo permanecer anônimos.

Daí se originou um grupo que vai se autodenominar Anonymous, usando a máscara do anarquista do século XVII, Guy Fawkes, transformado em herói da história em quadrinho “V de Vingança”, em manifestações de rua. O fato é que este canal tornou-se um poderoso instrumento de defesa anônima da liberdade na Internet e de contrapoder ao discurso da mídia corporativa.

Os Anônimos formam um coletivo entre várias outras iniciativas que mostram a força da mídia livre e como o jogo mudou para a grande mídia: esconder a verdade factual está mais difícil, o que não é pouca coisa. Como o velho Luther Blissett  já mostrava nos anos 90, os ventríloquos engravatados podem continuar entorpecendo sentidos pelas telas na sala de jantar, mas agora há espaço nas redes para o contra discurso e esse papel cabe aos midialivristas que são “os hackers das narrativas”, conforme escreve a professora Ivana Bentes no prefácio do livro de Malini e Antoun.

Fontes usadas:

MALINI, Fábio e ANTOUN, Henrique. @ Internet e # rua – ciberativismo e mobilização nas redes sociais. Porto Alegre: Editora Sulina, 2013.

VALENTE, Rubens e Magalhães, João Carlos, ‘Anonymous’ lidera ativismo digital nos protestos, diz estudo, Folha de S Paulo, 14/7/2013 Cotidiano, página 8.

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

Facebook Twitter 

Deixe uma resposta