Comissões da verdade preparam relatório sobre a relação entre empresas e ditadura

A Comissão Nacional da Verdade e a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” realizaram o seminário “Como as empresas se beneficiaram e apoiaram a ditadura militar” no dia 15 de março na Assembleia Legislativa de São Paulo. O evento foi uma iniciativa do grupo de trabalho “Ditadura e Repressão aos Trabalhadores e ao Movimento Sindical” e reuniu pesquisadores, jornalistas e sindicalistas que apresentaram publicamente estudos que apontam diversos nomes de empresas que contribuíram com o Golpe de 1964.

A advogada Rosa Cardoso, membro da CNV que coordena o GT Trabalhadores, disse que é importante conhecer esse capítulo da história para entender a participação civil e empresarial na ditadura. “Vamos esclarecer no nosso relatório um conjunto de questões que fazem parte do pedigree da ditadura. A responsabilização tem que ser discutida com aprofundamento”.

Para Adriano Diogo, presidente da Comissão “Rubens Paiva”, o detalhamento das ações das empresas em apoio à ditadura e a repressão é importante. “Defendemos punição aos torturadores e podemos fazer uma analogia com as empresas que induziram ou fizeram crimes similares aos que os militares perpetram contra o povo brasileiro”, destacou.

A jornalista Denise Assis, que trabalha na Comissão Estadual da Verdade do Rio, identificou em suas pesquisas fundamentos ideológicos usados pelos golpistas para convencer empresários a apoiar a Ditadura que estava sendo planejada. Os mesmos fundamentos foram aplicados em escolas para convencer os jovens. Enquanto isso estava sendo feito, às vésperas do Golpe, uma pesquisa de opinião pública sobre as reformas de base do governo de João Goulart apontava aprovação de mais de 70% da opinião publica, mostrando que os conspiradores não tinham apoio popular, lembrou Ivan Seixas, coordenador da Comissão “Rubens Paiva”.

A jornalista encontrou no Arquivo Nacional 14 vídeos de propagandas que deram origem ao seu livro intitulado “Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe (1962-1964)”. Os filmes eram exibidos na televisão e nos cinemas. Segundo Denise Assis, as empresas Listas Telefônicas Brasileiras, Light, Cruzeiro do Sul, Refinaria e Exploração de Petróleo União e a Indústria de Comércio e Minerais (Icomi) arcavam com mais de 70% das contribuições.

“Os filmes foram utilizados para convencer os principais empresários do país a financiar os golpistas. Um conjunto de 125 empresas contribuiu. Na época, o valor arrecadado foi de quatro milhões de cruzeiros que fora utilizado na compra de espaço na mídia, para plantar o sentimento de insatisfação na população. Conseguiram, em 1964, com domínio da opinião publica, incutir que o país estava um caos. Com o desdobramento do Golpe, o Ipês, que tinha equipe de quase 500 espiões, ajudou a formar o Serviço Nacional de Informação (SNI) que foi denunciado pelo deputado federal Rubens Paiva. E este pagou com a vida [e está desaparecido até hoje]”, destacou Denise.

O jornalista Jorge José de Melo analisou o financiamento da Operação Bandeirantes (OBAN), que antecedeu o DOI-Codi paulista, responsável pela tortura, morte e desaparecimentos durante a Ditadura. Melo participou da realização do documentário “Cidadão Boilesen”, sobre Henning Albert Boilesen, executivo do Grupo Ultragás que fazia a arrecadação de financiamento ilegal da ditadura, principalmente equipando os centros de tortura e extermínio. Entre os entrevistados do filme, está o ex-governador paulista Paulo Egydio Martins, que detalhou abertamente sobre doações feitas ao II Exército com dinheiro e equipamentos.

28 de março ditadura militar e empresários

O empresário Henning Albert Boilesen (centro) com Delfim Netto (direita), que foi ministro da Fazenda entre 1967 e 1974

Pedro Henrique Pedreira Campos, mestre em história, estudou sobre empresas nacionais de construção civil, principalmente no setor de obras públicas. Segundo Pedro Campos, as principais empresas do setor foram formadas no período anterior à ditadura e entre 1964-1985 tiveram grande crescimento do seu capital. “Hoje essas empresas são conglomerados. Se multiplicaram com outros nomes, de porte internacional, como a Odebrecht e a Camargo Correa. Os grupos que se fortaleceram naquele momento hoje possuem amplo poder econômico e político no Brasil atual”, contou o pesquisador.

Marlon Weichert, procurador regional da República, disse que a responsabilidade de empresas é um tema até o momento negligenciado. “O Direito Internacional já se dedicou bastante sobre a responsabilidade das empresas e dos empresários. Após o Tribunal de Nuremberg, a ONU aprovou diversos princípios de direito internacional em relação a crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A partir daí, houve a discussão sobre a responsabilização das empresas”, explicou o procurador.

“Um caso bastante famoso é relativo ao produto Zyklon B, um inseticida que proporcionava morte rápida de pessoas e que os nazistas utilizaram nas câmaras de gás de Auschwitz contra judeus. O fornecedor foi condenado. Segundo a Comissão Internacional de Juristas, sem o auxilio das empresas não seria possível realizar os crimes de guerra. Quando as empresas delatam seus funcionários ou apoiam com fornecimento de armas, veículos, combustível, transporte, compra de bens, a iniciativa privada assume a posição de cúmplice”, explicou Weichert. O sindicalista Sebastião Neto, articulador do GT dos Trabalhadores, afirmou que é de grande importância mostrar como foi formado o forte esquema de repressão aos trabalhadores, cujo mecanismo foi aperfeiçoado ao longo dos anos.

Jornalista e assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”

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