Do país dos “direitos humanos”

por Elaine Tavares

Foram 43 anos numa solitária, na prisão de Angola, estado de Louisiana, Estados Unidos. Alguém pode imaginar maior violação dos direitos humanos? Ainda mais quando o “crime” cometido foi ser negro, e militante, num tempo em que os Estados Unidos viviam o auge da luta contra o racismo. Albert Woodfox, que foi liberado no último dia 20 de fevereiro torna-se assim, a pessoa que mais tempo passou isolada numa cela nos Estados Unidos. Ele é também o último dos “três de angola”, conhecidos pela luta dentro da prisão que leva esse nome e que ficaram confinados em solitária poucos anos depois da prisão por roubo, em 1972, acusados de terem matado um agente prisional.

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Albert Woodfox (à direita) permaneceu por 43 anos confinado na solitária da prisão Angola, no estado da Louisiania, nos Estados Unidos

Albert Woodfox e Herman Wallace foram condenados pela morte de Brent Miller e colocados em isolamento, bem como também ficou na solitária um terceiro homem, Robert King, acusado de outro crime. King foi libertado em 2001, depois de passar 29 anos na cela solitária. Herman Wallace morreu em 2013, poucos dias depois de sair da prisão,  sem, portanto, desfrutar da liberdade e Albert Woodfox saiu no dia 20, completando 43 anos em completa solidão, por um crime que ele nega.

Angola

A prisão Angola é a maior dos Estados Unidos e é conhecida como “a plantação”. Nela, 85% dos presos estão com pena de prisão perpétua e três quartos dos detentos são negros. O complexo tem 18 mil acres e foi transformado em prisão no final do século XIX. Levou esse nome “angola” porque no período da escravidão a maioria dos negros escravizados vinha desse país africano. Desde aqueles dias e até hoje os presos cultivam a cana de açúcar e o algodão. Todos trabalham na terra, menos os que estão na solitária.

No começo dos anos 70, quando Albert foi preso, essa penitenciária era o sinônimo do inferno, considerada a mais violenta dos EUA, na qual morrer esfaqueado era comum. Até hoje corre a lenda de que centenas de corpos estão enterrados no pântano que cerca Angola.

Pego sob a acusação de roubo, tão logo chegou ao complexo, Albert decidiu fundar uma célula do partido Panteras Negras, naqueles dias em ascensão nos EUA. Foi o que bastou para que os dirigentes da prisão – todos brancos – tramassem o seu fim. Assim, para evitar que o rastro de pólvora dos Panteras corresse pelos corredores de Angola forjaram uma acusação de homicídio contra Woodfox, Wallace e King e os confinaram em solitárias. O julgamento dos três negros foi uma fraude. Júri exclusivo de brancos, testemunhas falsas, todos os ingredientes de uma conspiração.

A militância de Woodfox e Wallace no grupo dos Panteras Negras já era anterior à prisão em Angola, por isso foi natural ele buscar a organização dos companheiros. Dentre as tarefas dos panteras estava a formação dos prisioneiros, a defesa dos mais jovens, evitando a violação, a prostituição e a escravatura sexual, práticas bastante comuns no complexo e qual participavam ou eram coniventes todos os guardas. Eles buscavam ainda trabalhar a divisão entre brancos e negros, que a direção da prisão manipulava para fomentar ainda mais violência. Essas atividades obviamente eram vistas como um risco à “ordem” há tanto tempo imposta. Por isso, bastava que algum negro se mostrasse mais reivindicativo e lá estava a solitária para isolar e causar terror.

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Panteras Negras protestam em frente à Corte Suprema da cidade de Nova Iorque em 1969 (fonte: revista New Yorker)

Quando em abril de 1972 o guarda Brent Miller foi assassinado, num contexto de rebelião que estava em andamento contra algumas punições que vinham sendo impostas indiscriminadamente, apresentou-se a oportunidade para quebrar as pernas dos mais fortes. Brent é morto com 32 punhaladas num dos dormitórios.

Poucos presos estavam no local que tinha sido evacuado. Interrogatórios sob tortura foram realizados e todos os presos que tinham cabelo afro, à moda dos panteras, foram obrigados a raspar a cabeça, sofrendo ainda todo o tipo de abuso físico e psicológico.

Uma única pessoa alegou ter visto o assassinato, mas a “confissão”, hoje se sabe, foi conseguida através de todo esse barbarismo. Com medo de levar ele mesmo a culpa pelo assassinato, o preso de nome Hezekiah Brown, apontou Woodfox e Wallace como os responsáveis, “reconhecendo-os” a partir de fotografias.

O julgamento dos dois também foi uma farsa e os dois acabam condenados. A partir daí começou uma grande luta para provar a inocência dos dois, bem como todas as ilegalidades ocorridas durante o processo. Mas, quem se importa com dois negros, ativistas políticos, e num estado racista como Louisiana? A batalha seguiu inglória, como tem sido a que busca a libertação de Mumia Abu Jamal . Toda a história desses 45 anos de prisão de Wallace é um enredo sinistro de filme de terror e ódio.

Woodfox saiu da prisão nesse dia 20. Está velho, trêmulo e um pouco confuso. Foram 43 anos sozinho, numa cela, com raros contatos humanos. Sua história é eivada de horrores e violências. E tudo isso num país que realiza cruzadas pela democracia e pelos direitos humanos, mas que não olha para suas entranhas.

Wallace, que foi libertado em 2013, morreu poucos dias depois de sair do “buraco” onde viveu confinado por décadas. Albert quer viver. E deu sua primeira entrevista à jornalista Amy Goodman, contando como manteve a sanidade esses anos todos.

Veja a entrevista com Woodfox realizada pelo site Democracy Now:

Publicado originalmente no Instituto de Estudos Latino-Americanos.

Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos, inaugurando o esperado pachakuti.

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