E as cinzas de Timothy Leary nos saúdam do espaço

por Fernando do Valle

“O homem mais perigoso da América”, foi assim que o ex-presidente dos Estados Unidos Richard Nixon chamou o professor, escritor e psicólogo Timothy Leary pela influência psicodélica de seu trabalho sobre o uso terapêutico do LSD na juventude americana dos anos 60 . Há 20 anos (31 de maio de 1996), Leary morreu aos 76 anos de câncer de próstata, seu corpo foi cremado e em outubro daquele ano suas cinzas foram atiradas no espaço pela nave espacial Pegasus junto com as de Gene Roddenberry, roteirista do seriado Guerra nas Estrelas.

“Todos nós ouvimos e lemos uma porção de histórias emocionantes de “viajantes”, mas essa descoberta é, mesmo assim, uma surpresa gloriosa. Místicos voltam com relatos delirantes sobre níveis superiores de percepção, por meio dos quais uma pessoa vê realidades cem vezes mais bonitas e significativas do que a tranquilizadora rotina familiar. Para a maioria das pessoas é um choque saber que o seu circuito de realidade cotidiana é apenas um entre as dezenas de circuitos que, quando acionados são igualmente reais, pulsando com formas estranhas e sinais biológicos misteriosos. Aceleradas ou amplificadas, algumas dessas realidades alternativas podem ser microscópicas, riquíssimas em detalhes; outras, telescópicas” (Timothy Leary, na página 42 de sua autobiografia Flashbacks).

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O psicólogo e escritor norte-americano Timothy Leary (fonte: site Existential wave)

O psicólogo Frank Barron acreditava que a psilocibina, retirada de cogumelos, ajudava no tratamento de alguns pacientes no consultório e a apresentou a Leary, que havia obtido seu PHD na Universidade de Berkeley em 1950 aos 30 anos. A partir daí, Leary começou a desenvolver pesquisas com a psilocibina. Mais tarde, passou a utilizar o LSD também em suas experiências, o LSD havia sido descoberto acidentalmente por Albert Hoffmann em 1943.

Em 1959, Leary começou a desenvolver pesquisas na Universidade Harvard. Três anos mais tarde, em 1962, Leary e o professor Richard Alpert criaram o The Harvard Psychedelic Project, que causou certo rebuliço na tradicional universidade. Se o professor Leary fazia sucesso entre os estudantes, o mesmo não podia se dizer da direção da universidade, que não aprovava os métodos do projeto. O professor Alpert, casado e com filhos chegou a ser acusado de fornecer LSD a um estudante em troca de favores sexuais, e o projeto foi cancelado em 1963.

O curioso é que a droga que marcou o movimento hippie, o LSD foi introduzido nos Estados Unidos pelos médicos e o governo federal. Os militares e a CIA desenvolviam estudos de seu uso como instrumento de controle mental e ela chegou a ser usada em interrogatórios para desvendar o inconsciente do investigado. O LSD também era ministrado durante o tratamento do alcoolismo, do vício em drogas e de bloqueios emocionais.

As experiências de Leary com drogas psicodélicas para a expansão da consciência começaram a ser conhecidas e atraíram a atenção de escritores beats como Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti e William Burroughs. O escritor e jornalista húngaro Arthur Koestler chegou a tomar LSD supervisionado por Leary e afirmou: “eu solucionei o segredo do universo ontem à noite, mas nesta manhã eu esqueci”. O autor de O Estranho no Ninho, Ken Kesey, fez sua viagem épica com sua turma no ônibus lisérgico da Califórnia à comunidade que Leary vivia em Millbrook, próximo a Nova Iorque, com a desculpa de se encontrar com ele.  O Zonacurva contou esta história, leia no link http://zonacurva.com.br/o-onibus-lisergico-de-ken-kesey/.

O escritor Aldous Huxley também foi amigo de Leary, em 1954, o autor do romance distópico Admirável Mundo Novo havia lançado As Portas da Percepção que relatava suas experiências com a mescalina. Do livro, Jim Morrison tirou o nome de sua banda. Huxley morreu em 22 de novembro de 1963, dia do assassinato do presidente norte-americano John Kennedy, e pediu para Leary que coordenasse a aplicação de LSD, Huxley desejava chegar ao céu ou onde seja turbinado de LSD. Leary conta em sua autobiografia que sugeriu “que seria muito melhor que Laura (esposa de Huxley) dirigisse a sessão e lesse para ele as instruções para se atingir a Luz Branca”. No final foi o que aconteceu.

timothy leary ken kesey

Timothy Leary

Leia texto com os detalhes da viagem de Huxley com duas doses de

100 microgramas de LSD na veia em seu leito de morte. 

Boa parte de sua vida, Timothy Leary foi perseguido pelas autoridades. Sua primeira prisão foi em dezembro de 1965 por posse de maconha, a Justiça o condenou a 30 anos. Ele conseguiu ser libertado em alguns meses e foi novamente preso em 1969, novamente por posse de maconha. As palestras de Leary sobre LSD incomodavam o governo norte-americano, mas o LSD só foi proibido em 1970.

Após a expulsão de Harvard, Leary e Alpert abriram uma loja no balneário mexicano de Acapulco que pretendia ‘vender’ drogas que potencializavam as experiências espirituais. Ambos foram deportados e retornaram aos Estados Unidos.

Billy Hitchcock, ricaço dono de enorme propriedade em Millbrook, a duas horas de Nova Iorque, o convidou para criar uma comunidade no local que se tornou um centro contracultural com dezenas de moradores. Experimentações com drogas psicodélicas, sexo livre e meditação eram o cardápio básico em Millbrook. Neste período, Leary era casado com Nena von Schelbrugge, sua terceira esposa que anos mais tarde deu à luz a atriz Uma Thurman.

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Timothy Leary foi preso algumas vezes

“O LSD coloca o usuário em contato com seu passado ancestral e com nossa memória genética de todas as formas de vida, codificada nos genes de cada pessoa. No futuro psicodélico, cada um de nós será seu próprio Buda, seu próprio Einstein, seu próprio Galileu. Além disso, o LSD é o maior afrodisíaco já descoberto” (Leary em entrevista à revista Playboy).

 

Come Together e a amizade com John Lennon

Quando ouviu pela primeira vez Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, disco dos Beatles de 1967 e produzido no auge da atmosfera psicodélica, Leary teria dito: “meu trabalho deu certo”.

Dois anos mais tarde, em 1969, Timothy Leary anunciou que iria concorrer ao cargo de governador da Califórnia, seu adversário: Ronald Reagan. O lema de sua campanha era “Come Together, Join the Party”. Leary e sua esposa Rosemary foram convidados por John Lennon a participar em Montreal do “Bed In” (atos pela paz em que John Lennon e sua esposa Yoko Ono deitados na cama acompanhados por figuras conhecidas e anônimos cantavam e protestavam) no 19° andar do Queen Elizabeth Hotel.

Na ocasião, Lennon perguntou a Leary se havia alguma coisa que pudesse fazer para ajudar em sua campanha, e o candidato psicodélico respondeu que precisava de uma música para os comerciais e comícios da campanha. Infelizmente, Leary só ouviu a música “Come Together”, composta por John Lennon, na cadeia.

Em janeiro de 1970, Leary recebeu sentença de dez anos de cadeia. Escapou, foi para a Argélia e ainda viajou para a Suíça, Viena, Beirute e Afeganistão, onde foi preso pela CIA. Só conseguiu sair da cadeia em abril de 1976, libertado pelo governador da Califórnia Jerry Brown.

Hoje em dia, vários estudos seguem na trilha aberta por Timothy Leary. Em abril deste ano, a revista científica americana Pnas (“Proceedings of the National Academy of Sciences”) publicou estudo que aponta o LSD como aliado no tratamento de doenças psíquicas. Leia matéria no site Nexo com mais detalhes. 

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Rosemary Leary, Timothy Leary, Yoko Ono e John Lennon no “Bed In” em Montreal (fonte: Beatlepedia)

Fontes usadas: The New Yorker e Beatlepedia.

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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Um Comentário

  1. Giba de Oliveira diz:

    Parabéns pela belíssima matéria!

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