Era uma vez o país que eu sonhava

por Marceu Vieira

No país que eu sonhava, vigorava o sistema monarquista parlamentar. O rei era Dom Pedro II, sujeito bom e digno, carioca de nascimento, homem público maior, um cara justo, monarca que, na vida real, alheia ao meu sonho, havia sido uma das maiores vítimas dos seres abjetos da política no Brasil.

brasil que sonhamos

D. Pedro II

Eles, os seres abjetos da política no Brasil, sempre foram muitos. Menos no país dos meus sonhos – e, nele, Pedro II reinava redimido.

O primeiro-ministro do país que eu sonhava era Darcy Ribeiro, que acumulava ainda o posto de ministro da Felicidade Coletiva, criado por ele mesmo, com a concordância de Pedro II, pra assegurar a justiça social e o equilíbrio entre os poderes e, sobretudo, entre as classes.

Não havia classes no meu país sonhado. Darcy só garantia que assim prosseguíssemos. E prosseguíamos.

Darcy, aliás, nesse meu mundo ideal, havia sido escolhido pro Nobel da Paz, mas havia se recusado a receber o prêmio. Com o sorriso de quem se amava muito, mas muito mesmo, tinha dito, ao ser informado da escolha, que não precisava, não cabia, não carecia. “Podem ficar, obrigado, de coração, não precisa, não é desfeita.”

No país dos meus sonhos, só se chorava de alegria. Uma certa sensação de euforia, sem a necessidade de drogas pra isso, dominava todo o povo – e assim meu país seguia, seguia e seguia.

Leonel Brizola desempenhava, nesse meu país, o papel de ministro das Importâncias, pasta que reunia Educação, Saúde, Reforma Agrária e, pro desconforto de alguns, Comunicações. Seus principais assessores eram Joaquim Nabuco e Guimarães Rosa. Brizola os ouvia, parecia incrível, mas os ouvia.

Lula, melhor companheiro do Brizola nesse meu país, era o ministro do Trabalho, da Previdência, da Agricultura, da Segurança Alimentar e da Distribuição Justa das Riquezas. Tudo dava certo nessa minha nação.

Havia poucos ministérios no país dos meus sonhos. Eduardo Suplicy era o ministro da Justiça. Suplicy obedecia a um grande conselho presidido por Tiradentes e integrado por homens tão justos quanto Gilberto Freire e Luís Carlos Prestes.

Minhas amigas Débora Tomé e Flávia Oliveira ocupavam, respectivamente, os ministérios da Mulher e da Igualdade Racial. Zumbi dos Palmares e Teresa de Benguela, consultados na composição do governo, referendavam seus nomes.

Leonardo Boff era o ministro da Ecologia. Grande ministro, assessorado por Dom João VI. Que dupla faziam.

Havia ainda um ministério só pra cuidar da causa gay e dos transgêneros, e era ocupado pela cidadã trans Indianara Alves Siqueira, comandante da ONG carioca TransRevolução. Transrevolucionária, a Indianara era a ministra das Garantias Fundamentais dos Gays e de Todxs Transgêneros.

Chiquinha Gonzaga era a ministra da Cultura. Seu principal conselheiro era o maestro Villa-Lobos. Sua secretária era a Maria Teresa Madeira, indicada pelo Ernesto Nazareth. Sob o guarda-chuva do ministério da dona Chiquinha, havia uma importante Secretaria, a do Samba, e à frente dela estava o Donga.

No Ministério do Esporte estava o Tostão. Seus secretários-executivos eram o Sócrates e o querido José Trajano.

O ministro da Fazenda e do Planejamento era o meu pai-filho-irmão-amigo Alfredo Melo, dono do Bip Bip, o boteco de Copacabana. Alfredinho havia inaugurado a gestão do livre arbítrio nas finanças públicas – aquele colega ministro que precisasse de mais verbas tinha liberdade pra pegar, ele mesmo, dinheiro do cofre público, e ninguém ludibriava ninguém, e esse modelo de gerência dos recursos coletivos tinha se consagrado como o ideal nesse meu mundo infenso às maldades humanas.

Pro Ministério da Juventude, o primeiro-ministro Darcy, sabido, havia escalado a menina Ana Júlia, estudante do Paraná. A pasta da Transigência, considerada fundamental pelo rei Pedro II, e cuja criação fora acatada por Darcy na montagem do governo, tinha no comando Beatriz Carneiro da Cunha.

No Ministério dos Transportes, do Futuro e da Internet estava Juscelino Kubitscheck, que recebera a missão, também a pedido de Pedro II, depois de uma consulta a João Goulart.

A Petrobras, no país que eu sonhava, era presidida pelo Getúlio Vargas. Getúlio, na verdade, estava no Ministério das Riquezas Energéticas, e acumulava a presidência da estatal. Era também um dos principais interlocutores de Pedro II e Darcy. Os três consumiam madrugadas e madrugadas e madrugadas, conversando, conversando, conversando, conversando.

O chanceler do meu país ideal era o Ítalo Zappa – e o seu Ítalo (que saudade dele) ouvia alguns conselhos do Osvaldo Aranha e do Rui Barbosa. Não todos, vá lá. Alguns. Somente alguns.

No país que eu sonhava, não havia ameaça às garantias fundamentais dos trabalhadores. Os velhos eram muito respeitados também. Nenhuma criança estava fora da escola, e havia vagas pra todos os doentes nos hospitais, todos públicos – que, por sinal, estavam sempre vazios, ao contrário das escolas, sempre cheias e também todas públicas e aplaudidas mundo afora por seu ensino considerado de excelência.

No país que eu sonhava, não havia Michel Temer nem Rodrigo Maia no poder. Tampouco Renan Calheiros. Não tinha também a versão do Sérgio Cabral que se vê hoje, de cabeça raspada, humilhado, olhos avexados, metido em roupa de presidiário comum. Ele, o Cabral Filho, era só um vascaíno apaixonado, que não envergonhava o pai, o jornalista Sérgio Cabralzão.

Eduardo Cunha já era passado antes mesmo de existir nesse meu país imaginado. Nem se falava dele. De quem se trata mesmo?

O presidente do Supremo Tribunal Federal era o professor Geraldo Prado. Todas as instituições funcionavam, e éramos todos felizes. Muito felizes.

Mas aí eu acordei com o barulho das manifestações deste 15 de março contra tudo que não havia no país dos meus sonhos – e Dom Pedro II e Darcy Ribeiro e Chiquinha Gonzaga e Getúlio Vargas e Leonel Brizola e João Goulart e Donga e Dom João VI e Zumbi dos Palmares e Teresa de Benguela e Tiradentes e Sócrates e Joaquim Nabuco e Guimarães Rosa e Villa-Lobos e Ernesto Nazareth e tantos outros e tantos outros e tantos outros estavam todos mortos, e o legado deles, quase isso.

E a Indianara estava sofrendo preconceitos por aí, e minhas amigas Débora Tomé e Flávia Oliveira não podiam descansar um só segundo em suas grandes lutas pelas igualdades de raças e de gêneros.

E o Suplicy enfrentava mais um enxovalho da polícia de São Paulo, e o amado Alfredinho do Bip Bip chorava mais um pouco pelas desigualdades expostas nas calçadas de Copacabana.

E o Eduardo Cunha, embora preso, existia, e o Temer, também – e o Cabral Filho vestia roupa de presidiário comum, e não havia nenhum desses ministérios sonhados, nem escolas boas suficientes pra todas as crianças, e os hospitais públicos eram ruins e apinhados de enfermos, e o país dos meus sonhos não existia.

O meu país quimérico era só isso aí mesmo, uma quimera, igualzinho ao elefante do poema do Carlos Drummond de Andrade, outro brasileiro eterno naquela minha nação imaginada.

Pro alívio dos abjetos, era só um sonho. Um sonho tosco.

Como no poema do Drummond, amanhã recomeço.

Texto publicado originalmente no Blog do Marceu Vieira.

Jornalista, compositor, ficcionista e cronista do cotidiano. Iniciou-se no jornalismo na extinta “Tribuna da Imprensa” e seguiu na profissão, sempre repórter em tempo integral, nas redações de “O Nacional”, “Veja”, “O Dia”, “Jornal do Brasil”, “Época” e “O Globo”. Hoje, é jornalista independente.

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