Fonseca romântico

Garoto idiossincrático esse José. Do mundo dos livros tira o alimento para sua realidade. A Paris de vielas estreitas transforma-se no mundo ‘real’ em que vive seus primeiros oito anos de vida, a lembrança da rotina na pequena e ‘irreal’ cidade mineira é nebulosa e episódica.

Em tenra idade, lá pelos 9, já no Rio de Janeiro, José começa a deliciar-se com o footing das elegantes ladies da confeitaria Colombo e das mulheres de vida fácil da Lapa. Sem UPPs e capitão Nascimento, José delicia-se com a atmosfera dos cafés, os encantos das ruas de João do Rio e seus carnavais ingênuos. Mesmo assim, vaticina, ao contrário de muitos escritores inspirados na observação cotidiana: “a melhor inspiração do escritor é sempre encontrada nos livros.”

O escritor Rubem Fonseca, em foto de 1987

O escritor Rubem Fonseca, em foto de 1987

Cafetões munidos de navalhas e o assustador Madame Satã, que peitava a polícia em míticas brigas, compunham o lado B da cidade. Talvez aí o único momento em que Fonseca visita a fauna de desajustados que povoa seus outros livros. Em José, o livro, não há espaço para violência e revolta, nele encontramos um Fonseca romântico e passadista do alto de seus 86 anos. Já em Axilas e outras histórias indecorosas, livro lançado em 2011 junto com José, personagens característicos de Fonseca dão vida a contos curtos e diretos.

Em um misto de autobiografia velada (“todo relato autobiográfico é um amontoado de mentiras”) e Bildungsroman, Fonseca amolece e canta o Rio de Janeiro como um Tom Jobim. Outras épocas em que as drogas praticamente inexistiam. O único cocainômano era uma lenda apontada nas ruas. Mais, a cocaína e a maconha não eram proibidas.

Sem luxos, José trabalhou a partir dos 12 anos, refrigerante era água com pasta de dente diluída. A imaginação do menino o leva a ser escritor quando adulto. Apesar que José prefere ser entregador, “entre as muitas ocupações que José teve em sua vida essa de entregador foi a mais agradável de todas, certamente mais prazerosa que a de escritor”.

Tons autobiográficos no livro José

Tons autobiográficos no livro José

Vizinho da Biblioteca Nacional, José lia e lia e os pockets books policiais que a tia Natália comprava nos sebos podem ter levado o José escritor a escrever seus contos repletos de crimes e figuras detetivescas como Mandrake.

Se é Rubem Fonseca inteiro ou em partes o que lemos nas páginas de José, não saberemos já que o autor recluso não tolera entrevistas. O que surpreende é o autor de contos crus e perversos como O Cobrador desnudar-se em sua porção leve e poética.

Sou blogueiro, jornalista e criador de conteúdo. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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