Independência ou golpe!

por Marceu Vieira

 Como muitos amigos que se posicionaram no Twitter ou no Facebook, ou nas conversas da vida real no botequim, eu também não comemorei nem achei engraçada a cena do Garotinho se debatendo numa maca de hospital público, resistindo a entrar na ambulância rumo ao presídio Bangu 8, enquanto a filha Clarissa, desesperada, gritava: “Meu pai não é bandido! Meu pai não é bandido!”

O que eu senti foi tristeza. Senti também, confesso, um certo temor pela normalidade institucional destes trópicos, que andam tão tristes, com o desemprego deixando sem renda e sem sustento quase 13 milhões de famílias.

Esta terra adorada, pátria amada, idolatrada, salve, salve, onde ainda me sinto responsável pelo futuro de três filhos e de uma “linda Rosa juvenil”, cujo nascimento está previsto pra 2017. O que será 2017?

Garotinho, ao contrário do Cabral Filho, não enriqueceu na política e teve emprego formal antes do seu primeiro mandato como vereador de Campos. Foi preso agora porque distribuiu cheque-cidadão a miseráveis em troca de voto. Mas já poderia ter ido pra cadeia antes.

garotinho preso

O ex-governador do Rio Anthony Garotinho foi preso na última quarta, dia 16 de novembro

Porque, desde a primeira eleição pra vereador de Campos, quando era radialista, é assim que ele opera. Dava dentaduras e cadeiras de rodas em troca de voto. Quem não sabe disso? Talvez só a Rosa, que ainda não nasceu.

Se desde Cabral, não o político, mas o navegante, os valores universais de Justiça fossem tomados à risca no Brasil, é possível que não houvesse cadeia suficiente pra prender tanto político desonesto. Aliás, Cabral nem eleito teria sido – agora não o navegante, mas o político mesmo.

Em Brasília, talvez não houvesse tantos camburões pra conduzir do Congresso Nacional até a prisão todos os deputados e senadores com contenciosos na Justiça. Nem vaga de estacionamento bastante haveria no entorno da Câmara e do Senado pra tanta viatura da Polícia Federal.

Por que não se prendeu o Garotinho já na sua primeira campanha, se trocar voto por esmola sempre foi a prática de políticos miúdos como ele?

Por que não se prendeu antes o graúdo Cabral, se até a vendedora da joalheria onde o empreiteiro Cavendish comprou o anel de R$ 800 mil pra primeira-dama e até os operários que demoliram e reconstruíram o Maracanã, o nosso Maracanã, já sabiam das suas “tenebrosas transações” (com a licença do Chico Buarque)?

cabral preso

O ex-governador do Rio Sérgio Cabral foi preso na quinta (dia 17 de novembro)

Por que se demorou tanto pra prender o Eduardo Cunha?

Talvez a Dilma não caísse, e o Brasil só estaria ruim, como já estava, e não insondável como agora.

Movido por sua pequenez vingativa, e pra satisfazer a histeria de uma elite apodrecida e de uma classe média ressentida e egoísta, um deputado que hoje está preso pelos mais bárbaros crimes de corrupção jogou o Brasil nesta crise – ajudado, claro, pelas fanfarronices de alguns petistas.

Ele, o deputado, comandou um processo quase sumário de impeachment e pôs no lugar de uma presidente legitimamente eleita por 54,5 milhões de brasileiros, e até prova em contrário honesta, um vice sem recheio e sem voto e também com muitas explicações a dar à Justiça.

Este vice é do partido do deputado preso. É do partido do Cabral. Do partido que, até outro dia, era também o do Garotinho – que, aliás, não faz muito, era amigo de todos eles. Sobretudo, do deputado preso.

Este partido, se ainda não é possível ligar o nome à pessoa, é o PMDB – e é nele que, segundo a papelada do próprio juiz Moro, está o ninho principal dos cupins demolidores do Brasil.

E, assim, desde Cabral (mais uma vez o navegante, não o político), o país do Garotinho, do Eduardo Cunha, do Temer e do outro Cabral (agora de novo o político, não o descobridor), o país do PMDB, enfim, este país segue movido a golpes – o golpe genocida na identidade indígena, dizimada pelos colonizadores; o golpe na índole africana com a escravidão de sua gente, trazida pra cá acorrentada pra ser olhada até hoje de modo diferente pelos descendentes do branco europeu; o golpe de Pedro I ao dissolver a Assembleia Constituinte em 1824 e outorgar uma Constituição preparada por dez servos das vontades dele; o golpe civil da maioridade incauta de Pedro II, aos 14 de idade, em 1840; o golpe militar do marechal Deodoro, que derrubou o mesmo Pedro II, ali já idoso e democrata, ele, um carioca de nascimento arremessado ao exílio aos 64 anos, em 1889, quando se instalaram no Brasil as ditas e as desditas da república em vigor até hoje.

Os golpes contemporâneos, de lá pra cá, estão mais fixados na memória coletiva – e o último, aquele que pra uma metade do Brasil não foi, enquanto pra outra foi, este ainda está em curso e vai nos levar aonde já não sabemos.

O surto do Garotinho na ambulância e os gritos desesperados da filha dele não dão a resposta. Os milhões tungados e a falta de reação do Cabral, não o descobridor do Brasil, mas o quebrador do Rio, empanam a vista pro futuro.

Dá saudade, se é este mesmo o nome do sentimento, do que teria sido o Brasil sem o golpe original da República contra Pedro II. Dá saudade de sei lá. Dos discursos do Brizola, quem sabe. Da vitória do Lula em 2002. Da esperança que venceria o medo. Dos comícios de antigamente com o velho Prestes na Cinelândia – e antigamente foi outro dia.

Faz lembrar um quadro do programa “Tá no ar”, do Marcelo Adnet e do Marcius Melhem, em que o primeiro, caracterizado como Pedro I, cavalgando num descampado, para com seu cavalo ao encontrar o segundo, no papel daquele personagem do comercial dos Postos Ipiranga, e pergunta:

– Ô, amigo! Sabe onde eu posso declarar a Independência do Brasil por aqui?!

E o personagem do Melhem, depois de uma pausa, responde:

– Sei não… Mió cê perguntar ali nas margens do Ipiranga.

Publicado originalmente no Blog do Marceu Vieira.

Jornalista, compositor, ficcionista e cronista do cotidiano. Iniciou-se no jornalismo na extinta “Tribuna da Imprensa” e seguiu na profissão, sempre repórter em tempo integral, nas redações de “O Nacional”, “Veja”, “O Dia”, “Jornal do Brasil”, “Época” e “O Globo”. Hoje, é jornalista independente.

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