Monumentos degradados viram objetos não identificados

por Albenísio Fonseca
Monumentos são ‘tatuagens’ históricas no corpo das cidades. No caso de Salvador, primeira capital do Brasil, a homenagem perene a personalidades marcantes na memória da nossa urbanidade, seja em estátuas, bustos ou peças sob livre criação de artistas, tem sido alvo de degradação ou perda da sinalização identificadora, dada a falta de manutenção por parte do poder público; roubo, inclusive das placas de identificação, por viciados em crack para venda do bronze das esculturas em troca da droga e de pichadores, como se diria de um gesto de equivocado vandalismo ou estúpida rebeldia.
Caravela”, homenagem a Vasco da Gama, de Chico Liberato

Caravela”, homenagem a Vasco da Gama, de Chico Liberato

O certo é que se poderia traçar um verdadeiro ‘tour anti-cultural’ da cidade, seguindo o roteiro de constatação do abandono da cultura visual que caracteriza a expressão dessas peças e seu extraordinário valor icônico e simbólico, que sinalizam nosso decurso histórico, convertidas em objetos não identificados. Mas, de acordo com Cássio Ribeiro, sub-gerente de Espaços Públicos e Monumentos da FGM-Fundação Gregório de Mattos, a Prefeitura lançará nova licitação, em dezembro, para o resgate de sete peças, após a licitação que privilegiou as restaurações do Relógio de São Pedro e do Barão de Rio Branco, já reentregues à paisagem urbana, no Centro da cidade, faltando a de Dom Pedro II, na Praça Conselheiro Almeida Couto, em Nazaré.
monumento salvador

Ludwik Zamenhof, filólogo polonês criador do Esperanto, sem autoria

Segundo Ribeiro, as restaurações envolverão monumentos como os bustos de Ludwik Lejzer Zamenhof, filólogo polonês criador do Esperanto, instalado na Praça de São Bento e retirado para restauração; do cineasta Glauber Rocha (roubado recentemente), nos Dois Leões; o Cetro da Ancestralidade, de Mestre Didi (que teve as pombas roubadas), no Rio Vermelho; a de Mestre Bimba (também roubada), em frente ao quartel de Amaralina; da yalorixá Mãe Runhó no fim de linha da Federação e retirada para restauração, e o do padre Manoel da Nóbrega, em frente à Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, no Centro, também sendo restaurado. Há, ainda, o busto de Almeida Couto (roubado já por duas vezes), na praça que leva seu nome, em Nazaré.

Cássio Ribeiro revelou que as novas peças e suas placas identificadoras passarão a ser confeccionadas em fibra de vidro como uma forma de evitar a ação dos “sacizeiros” (viciados em crack) que visam o alto valor do bronze. Segundo Ribeiro, “eles roubam as peças e derretem o bronze para levantar dinheiro visando a compra da droga”. Adiantou que “o lançamento da licitação depende, ainda, da elaboração do Termo de Referência”. Ele não soube informar o valor a ser despendido na restauração do patrimônio. Quanto à proteção dos monumentos históricos pela Guarda municipal, considerou “complicado, seja pela falta de contingente ou por envolver trabalho noturno”.
busto glauber rocha salvador

Busto de Glauber Rocha foi supostamente roubado por viciados em crack

A propósito de ícones de Itapuã, como o busto de Dorival Caymmi (criação de Márcia Magno), que ganhará novo pedestal e da Sereia (arte de Mário Cravo Jr), a ser mantida sobre a mesma pedra, garantiu que “permanecem em fase de restauração, mas retornarão aos locais de origem quando da inauguração das obras de intervenção na Orla do bairro”. O local será contemplado por uma nova homenagem a Caymmi, em tamanho natural, elaborada pelo artista Tati Moreno. Em Piatã, foi inserido um “pórtico” de autoria de Ray Vianna, autor de outra nova escultura, a que reverencia os mortos pela ditadura militar na Bahia, instalada no Campo da Pólvora – do total de 180 peças do mobiliário urbano da capital.
A propósito da escultura que homenageia os navegadores portugueses, notadamente Vasco da Gama, na Praça Wilson Lins, área do antigo Clube Português, na Pituba, da autoria de Chico Liberato, completamente abandonada e também merecedora de uma restauração, o sub-gerente da FGM, admitiu que “a instalação da peça, em ferro, naquele local em frente ao mar, foi um erro, por estar vulnerável à ação do salitre”, mas ressaltou que “o artista foi avisado de que não era um material adequado”.
A emblemática obra – doada à cidade por Liberato – estiliza uma caravela, sincretizando uma Cruz de Cristo, a ressaltar o predomínio ou hegemonia católica e o Opaxorô de Oxalá, a representar a diáspora africana. A escultura traz um importante texto – já quase ilegível – que remonta ao final da Idade Média, “quando os oceanos se apresentavam como rota comercial alternativa à rota da seda, comprometida pela tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453”. Cita a saga de seis dos mais importantes navegadores envolvidos com a descoberta do Novo Mundo e promove paradigma com o “desbravamento do espaço sideral”.
escultura kennedy salvador

Sem identificação, a escultura de Kennedy dá asas à imaginação popular

Outra escultura de importante simbolismo é a “Duas Palmas”, que ganhou denominação popular a renomear como “Praça da Mãozinha” à Praça Marechal Deodoro da Fonseca, na Cidade Baixa, próxima ao Mercado do Ouro. Da autoria do artista Kennedy Salles, trata-se de uma homenagem prestada no ano 2000 à AICO-Associação Ibero Americana de Câmaras de Comércio. Foi confeccionado em fibra de vidro, em forma de duas mãos entrelaçadas, com mapas da América do Sul e Central em uma mão, em baixo relevo, e da Península Ibérica, na outra mão. Moldada em placas de granito e medindo 3,90m, carece de restauração e ser identificada.
Para o comerciante Antonio dos Santos, a “Duas Palmas” seria uma “homenagem aos escravos”. Segundo o vendedor Fernando Nascimento, “entendo apenas que serve para dar o nome à Praça da Mãozinha” e, conforme Robson Nascimento da Silva, camelô no local, “sei que a praça se chama Marechal Deodoro, não entendo a razão da arte ali, mas reconheço tratar-se de um patrimônio histórico da cidade que deve ser bem cuidado”.

Jornalista com trajetória marcante nos principais jornais baianos como repórter e editor nas áreas de Cultura, Política, Economia e Internacional. Como assessor de Comunicação atuou nas duas primeiras campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República, na Bahia, entre outros políticos e junto à iniciativa privada, em shopping centers e indústrias do Pólo Petroquímico. Como empresário, lançou diversos títulos e ganhou o prêmio Colunistas Brasil, em 1992, pelo ineditismo da “Revista do Carnaval”. Atualmente é repórter de Cidade, na Tribuna da Bahia e sócio-editor do jornal “Itapuã na Frente”.

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Um Comentário

  1. Um prazer ler, reler Albenísio… Nos conhecemos em outras eras, quando trabalhei e morei em Salvador, sempre nos encontrando em coletivas, nas redações, até mesmo numa das assessorias em que ele – e eu – trabalhamos. O começo da matéria é um achado ao gosto do Albenísio sensível, poeta, visionário…Como repórter enriquece o texto de informações e mais uma vez revela aquele fascínio pela busca de alguma pauta que tenha um viés de originalidade.

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