O lirismo de Leonard Cohen em um mundo rude  

por Fernando do Valle

 O bardo canadense Leonard Cohen se foi na noite de quinta (10 de novembro) na cidade norte-americana de Los Angeles aos 82 anos. O lírico Cohen transformava dores de cotovelo, paixões desesperadas, despedidas que habitam nosso mundo rude em canções lapidadas com sua sensibilidade, foi alquimista da metamorfose do subjetivo em arte de alto quilate.

Confesso que sua voz rouca e meio cética me acompanhou em momentos difíceis, com algum álcool na cabeça, me irritava: “acorda para a vida, Cohen, ninguém dá a mínima para a sensibilidade, a vida é bruta, punk, ELES na verdade não estão nem aí”. Após alguns minutos, me arrependia, ouvia de novo, de novo, de novo e a vida seguia e eu tinha a certeza de que podia contar com suas canções.

Colocava para tocar Cohen para muitos e cheguei a ouvir que sua música é depressiva, triste, desesperançosa. Fazer o quê. Mas sensação boa era o momento de encontrar outro fã de Cohen, “impossível que esse cara ou essa mulher não seja gente boa”, isso lá não é bem verdade, mas mostra como ele tocava algum lugar profundo no coração, no id, no ego, no cérebro, sei lá.

leonard cohen morte

O cantor Leonard Cohen morreu em Los Angeles aos 82 anos

Em 1992, no álbum The Future, o Cohen político exaltava na música “Democracy”: “Democracy is coming to the U.S.A”. Cohen nos deixou poucos dias após a eleição de Donald Trump como presidente norte-americano, talvez nem o ceticismo de Cohen  aguentaria os tempos sombrios que nos aguardam.

“Democracy”:

Além de canções, Cohen escreveu poemas e literatura. Em 1956, publicou seu primeiro livro, Let Us Compare Mythologies, lançou a novela O Jogo Favorito em 1963, Poemas para Hitler em 1964 e Lindos Perdedores em 1966. Os livros não venderam. Era apaixonado por Yeats e Lorca e chegou a batizar uma de suas filhas com o sobrenome do poeta espanhol.

Leonard Cohen escreveu seus poemas em forma de flor para o psicopata Hitler na vila grega de Hydra, nas margens do mar Egeu. A energia do sol mediterrâneo e a boêmia atraiu Cohen no início dos anos 60 para a pequena cidade, onde circulava uma comunidade de artistas, muitos deles viviam em casas sem água encanada e eletricidade. Quando chegaram os primeiros cabos telefônicos em Hydra, Cohen celebrou com a canção Bird on the wire.

Foi ali que Cohen conheceu a norueguesa Marianne Ihlen, o relacionamento dos dois durou 7 anos e a despedida inspirou a música So long, Marianne. A norueguesa tinha um filho do casamento com o escritor também norueguês Axel Jensen. Há duas versões sobre o encontro entre Cohen e Marianne, na primeira, o poeta conheceu Marianne após uma briga com seu marido. As más línguas contam outra história: Axel teve um caso com a namorada de Cohen, Lena, e Marianne e Cohen uniram-se na dor de corno.

leonard cohen marianne

O jovem Cohen com Marianne em Hydra, na Grécia (fonte: Publico.pt)

O tempo transformou Marianne em musa como as dos antigos poetas líricos. Marianne morreu em 28 de julho deste ano de leucemia aos 81 anos e Cohen escreveu:

“Bem, Marianne, chegamos ao tempo em que somos tão velhos que nossos corpos caem aos pedaços; penso que te seguirei em breve. Saiba que estou tão perto de você que, se esticar sua mão, poderá tocar a minha. Já sabes que sempre te amei por sua beleza e sabedoria, mas não preciso me estender sobre isso já que você sabe de tudo. Só quero te desejar uma boa viagem. Adeus, velha amiga. Todo meu amor, te verei pelo caminho”.

“So long, Marianne”:

“Bird on the wire”:

Cohen cantava sempre com um olho no passado e outro no presente para nos munir de sensibilidade para enfrentar as incertezas do futuro. Foi assim que compôs sua música mais conhecida: Hallelujah, lançada no álbum Various Positions em 1984. Calcula-se que cerca de 200 artistas gravaram versões da música.

“Hallelujah”:

“Hallelujah” participou da trilha do filme alemão Edukators na voz de Jeff Buckley:

Leia texto sobre o filme Edukators neste blog.

Muitos identificam parentesco entre a obra de Bob Dylan, recém agraciado com o Nobel de Literatura, e Leonard Cohen, talvez pelo estilo de trovador solitário, pela melancolia, ambos de origem judia, mas deixando as comparações de lado, os dois mantiveram contato na época em que Cohen morava em quarto do quarto andar do Chelsea Hotel em Nova Iorque. Durante a noite, Cohen cantava em pequenos clubes em que conheceu Jimi Hendrix, Patti Smith, Lou Reed, entre outros. Durante o dia, Cohen escrevia poemas e suas canções.

“Hallellujah” por Bob Dylan:

Leonard Norman Cohen nasceu em Westmound, Quebec, no Canadá em 21 de setembro de 1934. Perdeu o pai muito cedo, aos nove anos, sua mãe Masha, ele e sua irmã Esther contaram com a ajuda dos tios. Leonard sempre foi apaixonado por blues e figuras como Robert Johnson e Bessie Smith, além de cantores franceses como Édith Piaf e Jacques Brel.

O primeiro álbum, Songs of Leonard Cohen, foi lançado em 1967, quando Cohen tinha 33 anos. Seguiram-se mais treze. O último, “You Want it darker”, foi lançado no mês passado. No lançamento, em entrevista à revista New Yorker, Cohen falou que “estava preparado para morrer”.

Leonard Cohen hydra

Leonard Cohen toca violão na cidade grega de Hydra em 1960 (fonte: New Yorker)

“You Want It Darker”:

“Dance Me to the End of Love”:

“In my secret life”:

“Everybody Knows”:

Nos anos 70, Cohen foi casado com Suzanne Elrod. A fotógrafa Lorca Cohen e o músico Adam Cohen são frutos do relacionamento como a música “Suzanne”:

Em 1995, Cohen foi ordenado monge no centro budista Monte Baldy e batizado como Jikan (silêncio).  O artista viveu por um período entre os budistas e serviu ao mestre Kyozan Joshu Sasaki Roshi, que morreu com 104 anos em 2014.

Livro tibetano dos mortos lido por Cohen:

Fonte usada: Revista New Yorker.

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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