O medo da falta de memória

A exibição do filme Hoje, da cineasta Tata Amaral, em evento da Clínica do Testemunho no Sedes Sapientiae, foi na noite anterior (dia 9 de maio) ao depoimento do coronel Carlos Brilhante Ustra na Comissão da Verdade, em Brasília. Em verdadeiro surto, Ustra negou qualquer responsabilidade nas torturas praticadas pelo famigerado DOI-CODI, que comandou nos anos 70.

O Zonacurva descreveu como o medo ainda assombra as vítimas do regime militar no texto sobre o lançamento da Clínica do Testemunho (leia em http://zonacurva.com.br/presos-politicos-no-diva/). O sentimento torna-se mais que justificável ao constatarmos que Ustra goza tranquilamente sua aposentadoria e tem a coragem de enfrentar a nossa memória (ou a falta dela) com arrogância.

Para colocar os pingos nos is, o jornalista Luiz Carlos Azenha filmou depoimento em que o ex-prisioneiro político Adriano Diogo contraria a pretensão de inocência de Ustra, que deve responder pelos seus atos na justiça. Confira:

A exibição do filme de Tata Amaral e posterior debate da cineasta com a documentarista e psicanalista Miriam Chnaiderman e a psicanalista Maria Cristina Ocariz lotou o auditório do Sedes. A Clínica do Testemunho é parceria do Instituto Sedes Sapientiae com a Comissão da Anistia do Ministério da Justiça. A clínica atenderá todos os anistiados políticos afetados direta ou indiretamente pela violência de Estado no regime militar.

O belo filme de Tata Amaral foi lançado nos cinemas no momento em que as discussões sobre as arbitrariedades do regime militar voltam à tona. Inexplicável é que, após poucas semanas de seu lançamento, Hoje ocupe poucas salas de cinema em horários ingratos.

Os fantasmas da memória em Hoje

Os fantasmas da memória em Hoje

O longa trata da história de Vera (Denise Fraga), que recebe indenização pelo desaparecimento do marido, Luiz (interpretado pelo ator uruguaio César Troncoso), e compra apartamento no centro da cidade de São Paulo. O filme coloca a protagonista em situação de estresse que beira à claustrofobia, cenário semelhante ao primeiro filme de Tata, Um céu de estrelas (1996). O clima favorece um verdadeiro acerto de contas de Vera com o passado.

O desinteresse do grande público pelo filme de Tata talvez tenha explicação em sua fala no debate após o filme: “somos uma sociedade que ainda aceita a tortura, nesse momento, muitos ainda são torturados no país”.

Sou blogueiro, jornalista e criador de conteúdo. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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2 Comentários

  1. Maria Teresa S Rocco diz:

    Prezado Fernando, Compartilhei sua matéria no grupo do “Formação em Psicanálise” e no Psicanáliise ETC” no Facebook. grata, M Teresa S Rocco

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