O mundo despertou do pesadelo neoliberal em Seattle

Em 30 de novembro de 1999, ministros e políticos de 135 países foram convidados para a chamada Rodada do Milênio, terceiro encontro mundial da OMC (Organização Mundial do Comércio) em Seattle (EUA). Só não contavam com a presença de 50 mil manifestantes, que não precisaram de convite, para clamar por uma economia mais solidária durante os quatro dias do encontro, que pretendia estabelecer as regras comerciais do século 21.

Os protestos em Seattle, cidade até então mais conhecida como o berço do novo rock dos anos 90, entraram para a história como a primeira grande manifestação contra o capitalismo neoliberal globalizado. A devoção pelo mercado, que dominou o cenário mundial nos anos 80 e 90, gerou mais concentração de poder nas mãos de algumas corporações e ainda mais empobrecimento em países da periferia do capitalismo.

A pluralidade da pauta dos manifestantes iam da luta contra o trabalho infantil e semi-escravo particularmente em países pobres, os alimentos transgênicos e a destruição do meio ambiente. Formada por trabalhadores, anarquistas e estudantes, o movimento foi batizado a grosso modo de movimento antiglobalização.

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O confronto entre manifestantes e a polícia em Seattle em 1999 (fonte: The Seattle Times)

 “Se o século 20 terminou com a queda do muro de Berlim, o século 21 começou com Seattle” (sociólogo francês Edgar Morin)

Na manhã do dia 30 de novembro, o movimento colocou em ação sua estratégia conhecida como Rede de Ação Direta que visava impedir a chegada dos participantes nas reuniões no centro da cidade. Para isso, os manifestantes congestionaram os principais entroncamentos viários do downtown de Seattle. Também foi adotada a tática do sit-in, grupos que sentavam no meio da rua impedindo a circulação de veículos.

A polícia de Seattle reagiu com gás lacrimogêneo, spray de pimenta e balas de borracha na tentativa de garantir a chegada dos delegados da OMC ao encontro, alguns manifestantes mais radicais reagiram com depredações de lojas, o que criou um clima de confronto nas ruas da cidade. Nesse momento, houve um racha entre anarquistas black blocs e os partidários da não-violência do movimento, com a união dos participantes em torno do espírito pacifista.

No frigir dos ovos, a manifestação recebeu solidariedade de movimentos semelhantes em várias outras cidades do mundo. A reunião da OMC foi um fracasso e vários representantes de países periféricos do capitalismo praticamente abandonaram o encontro.

Foi ali também que um novo modelo de mídia independente começou a tomar forma. O Indymedia, recém criado em um encontro de imprensa alternativa na cidade de São Francisco, na Califórnia, cobriu os protestos e cravou a incrível marca de um milhão de acessos diários. O Indymedia nasceu como um banco de dados em que jornalistas (ou não) de veículos alternativos poderiam publicar vídeos, imagens e textos em cooperação mútua e depois espalhou-se com sites em vários países.

As manifestações em Seattle foram o pontapé inicial para outras manifestações em reuniões de líderes do poder global. O tempo estendeu a luta contra a austeridade proposta pelo FMI e o Banco Mundial na reunião do G8 (oito nações mais poderosas do mundo) em Gênova, na Itália, e aos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre e Mumbai, na Índia.

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Policial joga gás lacrimogênio nos manifestantes (fonte: wikipedia)

Líderes e delegados de diversos países vieram para Seattle para “discutir questões como subsídios agrícolas, vendas de produtos no exterior (conhecidas como “dumping”) e outras questões comerciais. Nos dias que se seguiram, contudo, os dramáticos protestos conseguiram não apenas impedir que os delegados da OMC levassem a bom termo seu encontro, produzindo uma declaração final para a reunião de cúpula, como ainda roubaram as manchetes dos presidentes, primeiros-ministros e delegados oficiais. Sob os holofotes do palco montado pela mídia global, as ruas de Seattle foram tomadas por uma batalha em torno da nova ordem global. Seattle foi o primeiro protesto global” (extraído de “Multidão – Guerra e Democracia na era do Império de Michael Hardt e Antonio Negri).

Em 2000, o documentário “Essa é a cara da democracia” (This is What Democracy Looks Like), da produtora de mídia radical Big Noise Films, organizou imagens captadas por mais de 100 ativistas, e contou como foram os protestos in loco. Assista:

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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