O samba de resistência de Candeia

por Fernando do Valle

Como um manifestante, o sambista Antonio Candeia Filho, o Candeia, liderava as rodas com os bambas do samba de megafone na mão sobre a cadeira de rodas, resultado de um tiro que atingiu sua medula óssea na época em que trabalhava como policial civil. O incidente aconteceu em dezembro de 1965, na abordagem de um caminhão que não parou, Candeia esvaziou o revólver nas rodas do veículo, o carona do motorista do caminhão o surpreendeu com cinco tiros. Oito anos após a troca de tiros, Candeia abandonou a polícia e dedicou-se exclusivamente ao samba.

Com quase dois metros de altura, Candeia era um policial severo e certa vez em um salão de sinuca pediu os documentos de Paulinho da Viola. Seu contato com a música começou cedo, seu pai, Antônio Candeia, tipógrafo, era também flautista e integrante de comissões de frente de escolas de samba. Nos aniversários do pequeno Candeia, o pai organizava rodas de samba para os amigos adultos, regadas à cachaça e feijoada, essa convivência levou Candeia a esboçar seus primeiros sambas com 13 anos.

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O microfone de Candeia também era o megafone

Antônio Candeia Filho nasceu em 17 de agosto de 1935 na cidade do Rio de Janeiro, morreu também no Rio em 16 de novembro de 1978 aos 43 anos.

No samba Dia de Graça, Candeia utiliza a música popular para expor as entranhas da injustiça social em que vive o negro brasileiro, que mostra “a imponência de um rei” na passarela no carnaval, mas que “depois da ilusão … volta ao humilde barracão”. A letra clama a mudança daquela triste situação: “negro, acorda, que é hora de acordar”:

A mãe beata tinha orgulho do filho coroinha na Igreja de São Luiz em Madureira, só mais tarde Candeia se encontrou com suas origens africanas no candomblé e na capoeira e orgulhava-se de ser filho de Oxóssi e Oxum.  Ainda adolescente, aprendeu a tocar violão e cavaquinho e passou a participar das reuniões de sambistas na casa de Dona Ester, em Oswaldo Cruz.

Aos 17 anos, compôs o primeiro samba-enredo para a Portela, “Seis datas magnas”, em parceria com Altair Marinho. O samba consagrou a escola campeã com nota máxima em todos os quesitos no carnaval de 1953.

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O sambista Candeia ao violão

Um dos grandes sambistas da história da Portela, Candeia fundou o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo no subúrbio de Acari, mais de duas décadas após sua composição nota 10 com apenas 17 anos. O sambista achava que os sambas sofriam um processo de descaracterização e se afastavam de suas raízes afro-brasileiras.

Na época, o músico dirigia a ala de compositores da Portela e escreveu um manifesto contra o desvirtuamento das tradições e foi ignorado pelos outros dirigentes da escola. Hoje sua filha Selma preside a escola de samba Quilombo, que também é um centro de cultura negra.

“Preciso me encontrar” de Candeia na interpretação de Cartola:

“Minha gente do morro”, de Candeia, por Clara Nunes:

 

O disco “Samba de Roda” (1975) completo:

Documentário Partido Alto, de Leon Hirszman:

“Cabocla Jurema” (Candeia):

 

“O mar serenou” de Candeia por Clara Nunes:

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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