Onde eles estavam quando tudo isso começou?

por Guilherme Scalzilli

Os grampos ilegais de Sérgio Moro e seus arapongas provocaram uma onda de moderação e zelo na mídia corporativa. Editoriais e artigos correram defender que as investigações da Lava Jato fossem pautadas pela prudência e pelo respeito à legalidade.

Na maioria dos casos, os autores desses textos não passam no teste da coerência: eles apoiaram alegremente a escalada arbitrária de Moro e da Polícia Federal. Foi sua longeva cumplicidade que alimentou o monstro da espionagem criminosa.

Isso fica evidente nas próprias reações aos abusos. Em vez de tratá-los como os crimes que são, os comentaristas usam eufemismos suaves do tipo “deslizes”, “polêmicos”, “trapalhadas”. E, pior, sugerem que não afetam a natureza republicana da Lava Jato.

Os neolegalistas deixaram as coisas chegarem a um ponto irremediável para fingir que o desaprovam. Diante do fato consumado, tratam de limpar suas reputações das manchas que denunciarão os artífices do futuro sombrio que se anuncia.

O último capítulo dessa reforma póstuma de imagem é lamentar que o golpe do impeachment favoreça conspiradores sujos e malvados. Oh, Eduardo Cunha será o vice-presidente! Oh, Temer negocia a própria impunidade! Oh, a Lava Jato vai acabar!

 temer e cunha foto 1

Claro, todos conheciam esses riscos há meses. Chegaram mesmo a dizer que eram criações do governismo aloprado. Agora aparecem repentinamente chocados com as trágicas consequências de uma farsa da qual eles mesmos foram ativos apologistas.

Publicado originalmente no Blog do Guilherme Scalzilli.

Historiador e escritor, mestre em Divulgação Científica e Cultural. Articulista da a revista Caros Amigos por dez anos (2001-2011). Colabora regularmente com o Le Monde Diplomatique, o Observatório da Imprensa e outros veículos.

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