Oswald de Andrade telefona para cinco brasileiros

por Fernando do Valle

O primeiro texto da coluna Telefonema de Oswald de Andrade foi publicado no jornal Correio da Manhã em 1º de fevereiro de 1944 em plena ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas. Oswald demonstra desprezo pelo “anão Vargas” em alguns Telefonemas, o apelido vale-se da baixa estatura do mandatário para reforçar as duras críticas ao governo. Em junho do ano da estreia da colaboração do escritor no Correio, Oswald denunciou a proliferação de grupos fascistas organizados pelo integralista Plínio Salgado e seus seguidores em São Paulo e a coluna foi barrada pela censura, só voltando em 1945.

Desiludido com o Partido Comunista, onde militou por alguns anos, o escritor exerce o jornalismo de forma bem pessoal e Telefonema funciona como um diário carregado de sátira e por vezes mau humor em sua escrita sempre afiada. Oswald demonstra sua aflição com os destinos políticos do país, sua resistência cultural e ainda escreve alguma ficção até o ano de sua morte em 1954.

Separamos cinco trechos da verve oswaldiana:

Juscelino Kubitschek

No início dos anos 40, o prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek desponta com nova liderança política. Em maio de 1944, ele recebeu intelectuais e artistas para a Exposição de Arte Moderna na capital mineira, entre eles, Oswald.

“Menino rápido como um azogue, moreno e risonho como um espanhol, que disseram que também era médico…. Apesar do nome, o prefeito de Juscelino Kubitschek é um autêntico brasileiro de Minas. A fama que dele nos chega é de ser oriundo de terras pioneiras. Uns dizem que é de Diamantina, outros de Montes Claros. Seja como for, venha donde vier, esse moço aparece na vida pública brasileira como um desempenado realizador de coisas interessantes e úteis” (1944).

oswald de andrade telefonema

O escritor Oswald de Andrade (fonte: livro Telefonema)

Monteiro Lobato

Lobato e Oswald de Andrade ficaram amigos na lendária garçonniere da rua Libero Badaró (centro da cidade de SP) em 1917, que reunia estudantes, escritores e advogados na efervescente cena intelectual da época que desembocou na Semana de Arte Moderna de 1922. Certa vez Lobato esqueceu as provas de seu livro de contos Urupês no sofá da sala. Em 6 de julho de 1948, dois dias após a morte do amigo, Oswald escreveu:

“A Lobato deve muito o Brasil. Em primeiro lugar o exemplo magnífico e raro do intelectual que não se vende e não se aluga, não se coloca a serviço dos poderosos ou dos sabidos. Antes, seus últimos dias se coloriram de sectarismo esquerdista, purga que talvez julgasse necessária para redimir seus primeiros anos, ligados a certas rodas regaladas e boçais de reacionarismo paulista

Vi Lobato pela última vez na rua. Estava num velho sobretudo. Parecia asmático e profundamente abatido. Levou-me para um café, onde se regalou com uma média… Lobato morreu esquivo como viveu. Na madrugada de um domingo, sem publicidade e sem barulho. Enterrou-se no mesmo dia”.

 

Nelson Rodrigues

“Uma das maiores provas do nosso baixo nível intelectual é a importância que assumiu no teatro destes últimos tempos o sr. Nelson Rodrigues… O caso Nelson Rodrigues demonstra simplesmente os abismos de nossa incultura. Num país medianamente civilizado, a polícia literária impediria que a sua melhor obra passasse de um folhetim de jornalão de 5ª classe. Mas não temos crítica e nem críticos” (1949 e 1952).

 

Di Cavalcanti

O carioca Emiliano Di Cavalcanti mudou-se para São Paulo para estudar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco em 1916 com apenas 19 anos e no ateliê do professor e pintor alemão George Fischer Elpons conheceu Mário e Oswald de Andrade, que escreveu sobre o pintor em 1951:

“Hoje, comemorando o cinquentenário do Correio da Manhã vou fixar um episódio que teve como cenário a Paris daquela época. Foi por ocasião de uma das minhas brigas tremendas com Di Cavalcanti. Já tive diversas. Considero esse enorme brasileiro, talvez o maior pintor de sua época entre nós, mestre de Cândido Portinari”.

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Da esquerda para a direita: Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Menotti del Picchia, Oswald de Andrade e Hélio Seelinger (fonte: Revista da Faculdade de Comunicação da FAAP)

 

Cecília Meirelles

“Com sua celebridade madura, continua a fazer o mesmo verso arrumadinho, neutro e bem cantado, com fitinhas, ou melhor, com fitilhos e bordados. Sem dizer nada, sem transmitir nada. Mesmo sem sentir nada. À consagrada poetisa devia dirigir-se aquela apóstrofe nietzschiana do grande Ungaretti, feita a um jovem pintor que pretendia conseguir carreira sem arriscar o dedinho do pé esquerdo. — Você precisa de um acontecimento em sua vida, de uma catástrofe! Você quer um conselho? Mate o seu pai! Depois venha fazer arte!” (1952).

 Fonte: Telefonema, Oswald de Andrade, Editora Globo.

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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3 Comentários

  1. Nada mais Oswaldiano do que a dramaturgia do Nelson Rodrigues…

  2. Maria do Carmo Copelli diz:

    Oi Fernando, não tenho tido o tempo suficiente para mergulhar na internet e encontrar textos com qualidade como esse que acabei de ler e que nos conta alguns aspectos interessantes e por nós desconhecidos desses escritores grandiosos e inesquecíveis. Parabéns Fe, pelo seu belo trabalho. Bjs

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