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Escritos

Crônicas, desabafos, contos. Espaço livre para nossos colaboradores.

Por que ocupar a universidade?

por Elaine Tavares A mídia comercial não diz, mas são mais de 180 universidades ocupadas no Brasil. Isso, por si só, já é uma notícia estarrecedora. Ainda assim, nem o Fantástico, nem os programas da Record ou da Band discutem o tema. Nenhuma novidade. A mídia corporativa é o braço ideológico armado do sistema. E ao sistema interessa que a opinião pública não seja informada das coisas que acontecem e que podem fazer estremecer o mundo tão organizado para a domesticação. Mas, como sempre, todos esses meios haverão de ser engolidos pela realidade. Pois, ainda que a mídia não mostre, a vida está acontecendo e as pessoas veem. Pois as universidades estão ocupadas e não é por professores ou técnicos em greve. Não. São os estudantes. Empurrados pelas demandas e lutas dos secundaristas, que decidiram ocupar escolas para salvá-las, os universitários perceberam que era também chegada sua hora. Então, começaram a ocupar também. Não para salvar, mas para transformar. Afinal, como bem diz Álvaro Vieira Pinto, é preciso fazer com que a universidade deixe de ser “um centro distribuidor de alienação cultural para convertê-la no mais eficaz instrumento de criação da nova consciência estudantil, direta e exclusivamente interessada em modificar a estrutura social antiga e injusta, substituindo-a por outra humana e livre”. Quando Álvaro escreveu seu texto seminal “A questão da universidade”, essa era mesmo a casa da elite brasileira, espaço praticamente vetado para a classe trabalhadora. E era, sem questionamentos internos, o instrumento mais eficaz da classe dominante para assegurar o comando ideológico. As ideias produzidas na universidade ali estavam para justificar o poderio do pequeno grupo que sempre mandou no país. De costas para a realidade brasileira, os jovens aprendiam profissões e de lá saíam incapazes de dar respostas às demandas concretas de um país dependente e subdesenvolvido.  Europeizados, elitizados, alienados. O tempo passou, veio a ditadura, a democratização e a universidade seguiu igual. Usina ideológica do sistema dominante. E tanto que os poucos jovens da classe trabalhadora que conseguiam entrar, através do injusto e excludente vestibular, no mais das vezes vão se “convertendo” e incorporando o mesmo modo de ser dos seus algozes, essa classe “ociosa e aproveitadora, cujo intuito é reprimir a ascensão das massas”. Com a vitória de um governo mais próximo dos trabalhadores em 2003, a esperança da construção de universidade popular, visceralmente ligada aos interesses da maioria, renasceu.  E vieram mudanças. Incompletas, inconclusas, insuficientes, mas vieram. Houve a vitória das cotas para negros, índios e alunos de escola pública, novas formas de ingresso na universidade, novas universidades. O número de pessoas da classe trabalhadora que conseguiu entrar para uma instituição de ensino superior cresceu bastante.  Em 2004, os mais ricos representavam 55% nas universidades públicas e 68% nas privadas. Em 2013, os mais ricos eram apenas 38% nas públicas e 43% nas privadas. Os negros saltaram de 16% em 2004 para 45% em 2013. São dados importantes, mas não redundaram em mudanças no perfil da universidade. Os currículos seguiram os mesmos, a lógica seguiu a mesma, e o perfil colonizado, de costas para a realidade, não sofreu alteração. A ideologia burguesa seguiu dominando, tanto no professorado quanto nos técnicos. Aos empobrecidos, coube gastar seu tempo lutando para permanecer, o que tirou bastante a capacidade de apontar mudanças. Muitos foram sendo cooptados e a universidade seguiu tão reacionária e conservadora como sempre. Agora a vida lá fora está ululando. Veio um golpe, “brando e de outro cariz”, mas, não se enganem. Golpe. Golpe contra a classe trabalhadora. E as primeiras ações de caráter reformista/neoliberal libertaram as forças da reação. E elas vieram de onde menos se esperava. Daqueles que sempre foram acusados de não “quererem nada com o peixe”, os estudantes secundaristas das escolas públicas, meninos e meninas da periferia. Quando todos os estudos se voltavam para a violência nas escolas, a impossibilidade de ensinar, a falta de disciplina dos alunos, eles se levantam, como uma vaga tsunâmica, com um único discurso: queremos estudar e nas nossas escolas. Mais uma prova de que a universidade estava de costas para a realidade. Como os “pesquisadores” não se deram conta da vontade de educação dessa gurizada? Como não viram seus olhos cheios de desejo de aprender? Como não compreenderam que a “violência” era um grito de protesto contra uma pedagogia rota e atrasada? Os secundaristas, sabendo que nada tinham a perder, ousaram a luta mais dura, contra o estado e contra todos os “papers” financiados pela Capes. Ocuparam as escolas, viraram a mesa, apontaram novos caminhos, enfrentaram a polícia. Mostraram na luta renhida que querem fazer parte da mesa principal do banquete educativo. Nada de educação bancária, de segunda categoria, para formar mão-de-obra. Querem educação amorosa, comprometida com a realidade. E foi essa lição ensinada pelos meninos e meninas das escolas públicas que chegou à universidade. De alguma maneira tocou algum espaço secreto no cérebro dos universitários formatados pela ideologia da classe dominante. E havia só um caminho. Parar tudo, repensar as práticas, discutir o ensino universitário que forma os professores dessa gurizada. Professores cegos. Assim, a vida urgente que se expressa fora dos muros universitários atingiu como um raio aqueles que ainda podem ver. Os que ainda se importam. Então, a disputa por outro modo de ser no mundo contaminou a universidade. Bem dizia Álvaro Vieira Pinto: estudante não é só pra estudar. Estudantes têm de estar afinados com a arena política, com as causas nacionais. A educação só tem sentido se for para mudar as coisas. Estudar também é um ato social.  A realidade brasileira exige de todas as pessoas o engajamento na luta pela mudança.  E os estudantes saem na frente. As ocupações nas universidades são esse movimento de transformação, de despertar. A esperança é que ultrapassem as demandas particularistas e consigam perceber o cerne do problema: a universidade precisa mudar na essência. Ele tem de ter uma finalidade política que é a de superar o colonialismo mental, compreender o processo de dependência, e construir caminhos de transformação. Ou isso, ou nada. Os estudantes já mudaram a temperatura do mundo

Agonia e queda de Eduardo Cunha

por Urariano Mota Em que ponto da vida Eduardo Cunha se perdeu? Para o gozo da altura que desfrutou, quando era o substituto, e mais adiante seria o presidente da república, devemos perguntar: em que ponto do poder ele saiu da curva? Se olharmos para a sua biografia, que se tornou uma ficha criminal, no começo vemos só indícios do grande furto que seria: em 1989, o economista e empresário Paulo César Farias, maneira de se referir ao caixa de Collor, o filiou ao Partido da Reconstrução Nacional (que nome, mas tudo é a ironia da realidade) e o misturou ao núcleo da campanha presidencial de Fernando Collor. Com pouco menos de trinta anos, o gênio Eduardo Cunha trabalhou como tesoureiro do comitê eleitoral no Rio de Janeiro. Em 1991, Collor o nomeou para o comando da Telerj. No papel de presidente da companhia, criou uma comissão de licitação vinculada diretamente a seu gabinete. (A raposa cuidava das galinhas.) Elegeu-se deputado federal pela primeira vez em 2002, pelo PPB, foi reeleito pelo PMDB nas eleições de 2006, 2010 e 2014. O mais é público por fortes laudos criminais. Nas recuperações históricas de suas entrevistas na televisão, mostra-se num cinismo cavalar desde o tempo das fraudes na Telerj. Ele sorri com escárnio por um canto dos lábios, olha de lado, interrompe a pergunta, argumenta com preciosismos de conceitos. Ele parece se dizer:  são uns babacas, sabem de nada. Sequer conhecem o significado de usufrutuário e dono de contas na Suíça. No Congresso, a sua prática foi comprar, corromper, ameaçar e intimidar, nem sempre nessa ordem. Mas onde, em que ponto Eduardo Cunha se perdeu?  Se olharmos as datas, vemos que em 17/04/2016 apresentou o impeachment de Dilma Rousseff. Seis meses depois, em 19/10/2016, é preso. Mas como é que foi tão depressa de salvador da pátria a ladrão favorito? É que na sua intensa ficha criminal, o chantagista acrescentou o crime de sequestro, na medida em que procurou fazer da então presidenta Dilma uma refém. O poderoso presidente do Congresso Eduardo Cunha já havia sequestrado o Congresso e, como bom criminoso, aumentava o preço do resgate a cada votação. Ele chegou a sacrificar o Brasil para exercer o próprio arbítrio e delinquência. Na sua decisão afirmou que abriu o impeachment contra a presidenta por estas razões: “o governo Dilma não é uma crise exclusivamente econômica, mas também política e, sobretudo, moral…”.  E mais: “tenho defendido que, a despeito da crise moral, política e econômica que assola o Brasil…”. E entregou a vítima às feras do congresso, grande mídia e judiciário. É simples e elementar, a experiência humana sustenta: o sequestrador não pode perder a sua vítima. Quando Eduardo Cunha entregou a presidenta ao  impeachment, ele perdeu o valor de troca. E fez sumir o interesse em ser mantido como antes, quando o saudavam como o “malvado favorito”, apesar dos notórios e provados crimes. Agora, ele se torna agora um homem-bomba, em mais de um sentido. No de causar a morte política em quem estiver a seu redor e no sentido próprio, que fere fundo a si mesmo. Enquanto escrevo, as notícias precipitam o seu abismo e ladeira.  O chão é o limite, porque gritam os títulos: “Para Lava Jato, filhos de Cunha participaram de ‘série de fatos criminosos’”. Para os procuradores da Força Tarefa da Operação Lava Jato, há evidências de que três filhos do ex-deputado federal Eduardo Cunha participaram de uma ‘série de fatos criminosos graves’ como o recebimento de propinas e lavagem de dinheiro. Ele está morto? Ainda não. Eduardo Cunha guarda como última moeda os crimes dos amigos corruptos com quem se relacionou. Ele possui muitos dados para a chantagem. Difícil, no seu próximo lance, é saber como usar, como lançar os dados que não o projetem de vez para muito longe da curva. Que não o empurrem para fora da vida.  Eduardo Cunha acredita em Deus, mas não quer dar o próximo passo até o paraíso.

Eu cresci na 28, em meio às putas

por Elaine Tavares A rua 28, em Uruguaiana, na Banda Oriental, hoje parte do Rio Grande, é mítica. Ali, eu passei a minha meninice. Morávamos então na casa do meu avô Dionísio. Ele tinha um bar, bem na esquina em frente ao bebedouro, e do lado do Instituto Rio-grandense do Arroz. No entroncamento das ruas passava o trilho do trem e nossa diversão era ver a Maria Fumaça passar, deixando aquele rastro de rolos brancos no céu, no barulho característico tlac-tlac-tlac. Meu vô era um italiano alto, forte e bom. E naqueles dias abrigava nossa família por conta dos reveses da falta de dinheiro. O bar, não só funcionava como um armazém, mas era também abrigo dos que vinham visitar o bordel da cafetina mais famosa da região. Ali, eles faziam o esquenta, antes de entrar para o palácio das delícias. Os produtos que mais saíam era a pinga e o salame. Eu tinha uns três ou quatro anos, e uma das minhas tarefas era justamente a de picotar o salaminho, em pequenas rodelas, que eram servidas como aperitivo no longo balcão de pedra, onde se debruçavam os que caçavam amores fortuitos. A “casa das putas” como chamavam, ficava colada à casa do vô, separada apenas por um portão. Durante o dia, era comum eu e a minha irmã passarmos para o lado de lá, circulando entre as mulheres que tomavam sol, penteavam a cabeleira ou raspavam as pernas. Havia cheiro de rosas, de lavanda, de pó de arroz e elas gostavam de brincar com a gente. Eu imagino que nem a mãe, nem a vó tivessem qualquer preconceito porque essas visitas eram comuns e as mulheres também estavam sempre cruzando o portão, para alguma coisa ou outra. Eram as mulheres do bordel as responsáveis também pelo passeio mais lindo que fazíamos: os passeios de carruagem. Elas tinham duas delas, bonitas, de madeira reluzente, puxadas por cavalos, e forradas com cetim vermelho. Um cenário de sonho que nunca se descolou das minhas retinas. Vez em quando elas nos levavam para percorrer a cidade e eu ainda sinto o cheiro adocicado dos perfumes e ouço os risos de cristal. Aquelas mulheres me apareciam como fadas, princesas, rainhas. Eram bem vestidas, cheirosas e tinham aquelas incríveis carruagens. Até hoje a lembrança daqueles dias me provoca ternura. Vez em quando, nos cálidos finais de tarde de verão, elas saiam para passear na calçada, ao redor do bebedouro, onde os homens amarravam os cavalos. Era outra visão de sonho, aquelas mulheres vestidas de tafetá, com sombrinhas de pano tão chiques, e longas piteiras nas mãos. Como nós a conhecíamos, corríamos para elas, circulando de mãos dadas, cheias de orgulho das amigas tão lindas. Meu avô ficou apenas alguns anos no bar. Homem da terra, não tinha lá muito tino para negócios. Tanto que nos verões modorrentos de Uruguaiana, bastava que chegássemos com os amiguinhos na calçada e ele já chamava, mandando o Beto – que era meu tio – distribuir picolés de abacate para toda a reca de gurizada. Tudo graça. Também saia, de graça, farinha, pão, arroz, feijão, batata, cebola e qualquer outra coisa que algum necessitado sem dinheiro pedisse. Um belo dia, já sem capital, fechou o bar e voltou para a roça. Daquelas vivências no bar da 28, penso que muitas foram formadoras da pessoa que sou. Essa curiosa vontade de horizontes, fruto das caminhadas nos trilhos que pareciam não ter fim. O amor pelas viagens, despertado pelo apito do trem que evocava lugares e caminhos distantes. Seguir o trilho, o tlac-tlac da Maria Fumaça era como um chamado xamânico que me toma até hoje. Essa capacidade de estar com o distinto, o diferente, e não temê-lo. Nesses tempos em que o ódio parece ser a regra e tudo que não é igual ao que somos provoca violências, eu agradeço aos meus avós e aos meus pais que nunca trancaram o portão que nos separava da casa das putas. Que nos permitiram conhecer um mundo diferente, sem medo, e fazer com que cada uma daquelas mulheres fosse respeitada como uma amiga querida. Naqueles dias, eu não entendia porque as mulheres que nos viam passar na carruagem olhavam para o carro com tanto nojo. Para mim, a vida, ali dentro daquela maravilha de cetim, era espaço de amor, carinho e cuidado. Lembro-me da minha carinha, de olhos graúdos e curiosos, assomada na janela de madeira, enquanto pensava que eu mesmo era uma princesa, ainda que usasse casaquinhos rotos. A rua 28 vive segue viva em mim. E vez em quando, nas noites, escuto o toque da gaita, o cheiro da pinga com salame, as risadas e o tropel dos cavalos. E aquelas mulheres, cheias de universos conversam comigo ao pé do bebedouro. Ainda somos irmãs.

Enquanto isso, na realidade paralela do planalto central

por Fernando do Valle No mundo paralelo projetado por conhecido arquiteto comunista, a presidenta eleita há cerca de dois anos está sendo defenestrada pelas vossas excelências. Entre elas difícil encontrar qualidades que se aproximem de excelentes ou ilustres, com certa benevolência talvez encontremos algumas boas intenções, mas não nos esqueçamos do popular ditado. Crime ainda não foi provado contra tal presidenta, mas a maioria das excelências não se importa tamanho o apuro demonstrado em assegurar a continuidade do governo plutocrático do vice eleito na chapa da presidenta. O partido político do vice é péssimo de votos, sempre recebe poucos nos pleitos bienais, mas estranhamente sempre esteve no poder, escudado por mirabolantes negociatas, acordos e ouso dizer jogo de cintura parecido com o de dançarinas adeptas de diminutos shorts. Esse partido, o mais bem adaptado aos corredores de certos prédios que se foram construídos de concreto hoje são o habitat do mais puro abstracionismo, pelo jeito chegará ao poder pela terceira vez sem voto. Na primeira ocasião, péssimo escritor e presidente governou por cinco longos anos após a morte de um velho político depois de mais de duas décadas de um regime militar que torturou e matou centenas de opositores. No segundo momento, a presidência caiu no colo de mineiro topetudo meio atrapalhado após a queda do alto comando do país de político de imensa sordidez e olhem que a concorrência nesse quesito é considerável por lá. O sórdido político carioca que fez carreira nas Alagoas foi construído nos gabinetes do principal meio de comunicação do país, comandado por conhecido apoiador dos militares. No ano passado, esse mesmo veículo de comunicação fez cobertura incensando os festivos selfies de boa parte da classe média em suas camisetas amarelas com policiais da tropa de choque que matam milhares de pretos e/ou pobres nas periferias das grandes e médias cidades. Tanto os defensores da tal presidenta como seus opositores são alimentados com sua ração de ódio diário e depois gritam e esperneiam. Alguns tem muita razão, outros muito mais. A maioria que não tem tanta razão assim assiste boquiaberta ao teatro de quinta categoria, mas as otoridades continuam protegidas na bolha dessa realidade paralela.

Emoções olímpicas

por Guilherme Scalzilli A simultaneidade abrangente da televisão diminui o fascínio grandioso da experiência nos Jogos Olímpicos, mas a presença nas competições impossibilita apreender algo além delas próprias. Paradoxalmente, a impressão de amplitude e diversidade fica mais nítida à medida que essas características se fazem menos apreensíveis. O clima geral é festivo, deslumbrado e ordeiro. A sensação de segurança predomina, inclusive nas regiões sensíveis. Chega a soar surpreendente o baixíssimo número de ocorrências negativas registradas pela mídia. São inúmeras disputas simultâneas, multidões imensas circulando por centenas de quilômetros sem parar, pessoas de todas as nacionalidades, faixas etárias e motivações. Sim, ocorrem problemas. No BRT, principalmente, que não se preparou para as responsabilidades assumidas pelo transporte rodoviário nos Jogos. Não existem mapas das linhas especiais no site da empresa, nem nas estações. Muitos funcionários dão informações desencontradas. Ninguém organiza as aglomerações nos horários de pico. Também houve e há falhas logísticas. No primeiro dia, a rodoviária Novo Mundo só tinha dois caixas eletrônicos para compra do cartão de transporte, ambos quebrados. As estações de metrô fecham antes de algumas disputas terminarem. Vencida a fase de aprendizado, porém, os deslocamentos pelo circuito olímpico transcorrem de forma satisfatória e evidenciam o acerto na escolha dos pontos de competição. Todas as regiões da cidade foram envolvidas, dispersando o afluxo gigantesco de pessoas e revelando a contraditória beleza desse lugar único É necessário louvar o grau superior da organização interna dos Jogos, e criticar suas falhas pontuais, mas eles fazem parte de uma estrutura mastodôntica e bilionária que tem pouco a ver com a cidade-sede ou seus moradores. Mesmo as evidentes melhorias no transporte e nas instalações públicas cariocas precisam passar pelo teste do uso cotidiano, fora da excepcionalidade de um momento que parece a salvo de intempéries. A tola confusão entre a nacionalidade dos anfitriões e o cosmopolitismo de um evento quase impecável serve apenas para revirar estômagos provincianos. E para nos lembrar de suas previsões catastróficas  e de sua infame torcida pelo fracasso dos Jogos. Agora estão por aí, feitos zumbis ranzinzas, falando em déficits na Previdência. Por outro lado, a mídia que lucra com o evento silencia sobre o papel fundamental que Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff tiveram na viabilização da inesquecível festa olímpica. Cada imagem do triunfo evidencia o oportunismo do golpe e explica por que os golpistas se esforçam tanto para consumá-lo agora, em meio ao deslumbramento do país. Publicado originalmente no Blog do Guilherme Scalzilli. O Brasil em tempos de Olimpíadas e chantagens

Uma Olimpíada na minha vida

É essencial torcer também pela luta do dia-a-dia que impulsiona a maioria da população brasileira em uma corrida por casa, saúde e educação de qualidade  por Jorge Luiz Souto Maior – publicado originalmente na Agência Carta Maior Até onde minha memória alcança sempre fui um esportista. Jogo bola “desde sempre” e até os 21 anos me arrisquei em diversas modalidades. Mesmo sem a mínima condição técnica e física, claro que sonhava em participar de uma Olimpíada e assistia a cada evento dos jogos como se fosse o último. Fiquei verdadeiramente fascinado com inúmeras performances e situações. Para citar apenas alguns poucos exemplos que me marcaram: João do Pulo (1976-1980), Nadia Comaneci (1976), Carl Lewis (1984), Joaquim Cruz (1984-1988), Gabrielle Anderson (última colocada na maratona – 1984), Ben Johnson (1988, que tempos depois foi pego no antidoping), Dream Team (1992), seleção brasileira masculina de Vôlei (1992-2004), Javier Sotomayor (1992), Gustavo Borges (1992-1996), Jacqueline Silva e Sandra Pires (1996), Fernando Meligeni (1996), 4×100 no atletismo masculino (2000), Adriana Behar e Shelda (2000 e 2004), Vanderlei Cordeiro de Lima (2004), Michael Phelps (2004), César Cielo (2008), seleção brasileira feminina de Vôlei (2008-2012); Usain Bolt (2008) etc. Mais recentemente acompanhei a trajetória de alguns atletas e treinadores brasileiros, que hoje estão compondo a equipe de natação, e bem sei da seriedade e da intensa dedicação dessas pessoas, como dos demais atletas e profissionais envolvidos, o que me obriga a torcer pelo seu bom desempenho. Queria, então, falar apenas desse sentimento romântico que as Olimpíadas proporcionam. Mas quando o evento se colocou mais próximo, o imaginário cedeu lugar à realidade concreta, pois um dos maiores efeitos dos megaeventos é o de nos mostrar, de forma mais evidenciada, a realidade que nos cerca lentamente. E, no real, o evento está carregado de situações que exigem a contenção dos nossos delírios. Lembrem-se, por exemplo, das remoções ilegais e absurdas ocorridas na Vila Autódromo; dos 11 trabalhadores mortos nas obras; das péssimas condições de trabalho, muitas análogas às de escravo, a que foram submetidos milhares de trabalhadores; das relações promíscuas que geram desvio indevido de verbas públicas; do superfaturamento e das obras inacabadas. Queria, também, só falar bem da festa de abertura das Olimpíadas no Rio, porque, afinal, foi mesmo lindíssima de se ver, abalando, inclusive, o nosso dito “complexo de vira-lata”, conforme expressão atribuída a Nelson Rodrigues. A festa se amoldou ao denominado “espírito olímpico” e efetivamente comoveu. É que, bem ao contrário do que se dá em uma Copa do Mundo de futebol, que serve unicamente aos interesses particulares da Fifa e seus aliados, as Olimpíadas possuem a força estranha de arrancar a fórceps o que há de melhor nas pessoas e instituições. O aspecto verdadeiramente fulminante do esporte olímpico é que ele nos faz perceber como seres humanos, cuja existência só tem sentido na correlação saudável e honesta com outros seres humanos. É por isso que o “mundo olímpico” precisa estimular a igualdade de condições, até para que as vitórias tenham sabor. Vitórias que, ademais, não representam um aniquilamento do outro, mas uma superação dos próprios limites estimulada exatamente pelas “ameaças” do “adversário”. As Olimpíadas, ademais, não são só magia, pois apesar de se juntarem países com diversos problemas em um mesmo local, onde problemas não faltam, ainda se consegue realizar um grandioso evento em que as coisas dão certo e chegam a emocionar. Uma Olimpíada, além disso, nos faz pensar para além das fronteiras que foram criadas para a satisfação de interesses econômicos e nos força a estabelecer senso crítico de uma realidade hostil à condição humana, marcada por guerras, ganância, concorrência, individualismo, intolerância e xenofobia. Isso explica, aliás, o desconforto daquele cujo nome não pode ser dito (e não foi) na festa de abertura, na medida em que sua presença representava exatamente tudo aquilo que quebra o espírito olímpico, afinal sua “vitória” (momentânea) foi fruto do desrespeito às regras do jogo. Presidente interino Michel Temer é vaiado na abertura das Olimpíadas: Na linha do bom astral, sobre a festa de abertura queria apenas destacar que o evento, tendo sido obrigado a retratar uma pequena parte (devido a limitação de tempo) do que a cultura brasileira produziu de melhor, especialmente na música, não foi apenas um espetáculo muito bonito, como também se prestou a ser revelador da inconsistência de, na política, se ter dado voz e vez a um sentimento que reverbera o que de pior o sentimento humano pode produzir, conforme se verifica nas falas dos reacionários de direita que, diante do cenário político favorável, hoje se põem de plantão e encontram lugar na grande mídia. Para verificar o despropósito dessa ameaça de retrocesso, aproveitemos do espírito olímpico e imaginemos como seria uma festa de apresentação realizada por essas pessoas. Fariam um “espetáculo” passando a versão histórica machista, branca, homofóbica e xenófoba dos senhores de escravos, dos oligarcas, dos reacionários de cada período e dos opressores e ditadores, repercutindo, inclusive, o interesse das grandes corporações. Pregariam o fim da diversidade, a expulsão dos estrangeiros, a supressão da liberdade de expressão e buscariam as razões para justificar a escravidão, a desigualdade, as diversas formas de opressão, a eliminação de direitos trabalhistas e a violência policial contra os movimentos sociais, fazendo loas, inclusive, às teorias raciais. Seria grotesco, mas, enfim, é isso que muita gente, muitos sem perceber, tem defendido, e um megaevento exaltando tais “valores” seria uma “bela” oportunidade para se perceber o absurdo da pregação reacionária. Um tal evento evidenciaria, ainda, a contradição entre o reacionarismo e os desafios que se impõem à elevação da condição humana, afinal, o esporte olímpico, buscando extrair o que há de melhor nos seres humanos, exige uma postura que, embora não seja assumidamente de esquerda, é, ao menos, de tolerância, de estímulo à diversidade, de unidade, de solidariedade e da soma de esforços em atuação coletiva para a construção de um mundo melhor. Vide, a propósito, o comovente acolhimento dado aos refugiados pelos organizadores e pelo público na abertura do evento. O espetáculo da abertura talvez por esse aspecto tenha

Em busca da catástrofe olímpica

por Guilherme Scalzilli Olimpíadas Brasil –  Tenho visão em geral positiva sobre megaeventos esportivos realizados no Brasil. Gosto da experiência e do transe civilizatório que ela provoca. E dou enorme importância aos ganhos educativos, culturais e econômicos do turismo que essas efemérides incentivam. Não acho que faltem problemas, muitíssimo pelo contrário. Refuto certas críticas por causa dos seus argumentos frágeis, omissos e distorcidos. Aconteceu na Copa e, de maneira previsível e patética, se repete agora, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. As comparações seletivas são ridículas. Deixando de mencionar, por exemplo, que em Londres houve conflitos de rua, instalações improvisadas, desorganização e falhas de segurança. Por que buscar paralelos na Rússia e na Grécia, mas ignorar os britânicos? Outra besteira é o viés generalizante dado ao “desastre” dos Jogos brasileiros. Esse tom negativo engloba de maneira homogênea um empreendimento complexo, que possui múltiplos aspectos e possibilidades de abordagem. Inclusive o ufanismo hipócrita que serve de contraponto para justificar o extremo catastrofista, igualmente superficial. A obsessão com “legados” chega a soar divertida. É como se os Jogos, num passe de mágica, devessem corrigir décadas de incompetência e descaso administrativo. Eventos privados não existem para substituir governos. As promessas irreais fazem parte da própria engrenagem que as tornou necessárias (e possíveis) em primeiro lugar. A paranoia coletiva com o “dinheiro público” despreza o fato de as carências brasileiras se deverem à má gestão das verbas estatais, e não ao aporte investido. E aqui a relação custo-benefício é ardilosa, pois envolve os ditos “legados imateriais”, de difícil aferição. Duvido que qualquer evento patrocinado por governos, independente da área, sobreviva à contabilidade simplista que se costuma aplicar aos Jogos Olímpicos. Nem vale a pena começar um debate sobre se “o Brasil merece” os Jogos. Esse tipo de viralatice pacóvia serve apenas para evitar que empresas e pessoas sejam denunciadas individual e nominalmente por suas trapalhadas. É mais cômodo e lucrativo demonizar a população do que mexer com anunciantes, amigos de chefes e aliados de golpistas. Os países considerados “merecedores” dos Jogos não toleram análises depreciativas como as que seus veículos espalham sobre o Brasil, menos ainda se cometidas por estrangeiros. Os analistas brasileiros jamais ousariam manchar a imagem de uma cidade europeia ou norte-americana, alertando os viajantes sobre o risco de atentados, racismo, xenofobia, etc. E não sairia no New York Times. Tudo se resume ao provincianismo tolo, essa vergonha de ser brasileiro que virou uma espécie de prerrogativa moral do ressentimento conservador. O mal dissimulado gozo com a desventura de cariocas, turistas e atletas revela o que há de pior na cultura atrasada que ameaça tornar-se hegemônica na mídia e na política do país. Publicado originalmente no Blog do Guilherme Scalzilli.

E as cinzas de Timothy Leary nos saúdam do espaço

por Fernando do Valle Leary – “O homem mais perigoso da América”, foi assim que o ex-presidente dos Estados Unidos Richard Nixon chamou o professor, escritor e psicólogo Timothy Leary pela influência psicodélica de seu trabalho sobre o uso terapêutico do LSD na juventude americana dos anos 60 . Há 20 anos (31 de maio de 1996), Leary morreu aos 76 anos de câncer de próstata, seu corpo foi cremado e em outubro daquele ano suas cinzas foram atiradas no espaço pela nave espacial Pegasus junto com as de Gene Roddenberry, roteirista do seriado Guerra nas Estrelas. “Todos nós ouvimos e lemos uma porção de histórias emocionantes de “viajantes”, mas essa descoberta é, mesmo assim, uma surpresa gloriosa. Místicos voltam com relatos delirantes sobre níveis superiores de percepção, por meio dos quais uma pessoa vê realidades cem vezes mais bonitas e significativas do que a tranquilizadora rotina familiar. Para a maioria das pessoas é um choque saber que o seu circuito de realidade cotidiana é apenas um entre as dezenas de circuitos que, quando acionados são igualmente reais, pulsando com formas estranhas e sinais biológicos misteriosos. Aceleradas ou amplificadas, algumas dessas realidades alternativas podem ser microscópicas, riquíssimas em detalhes; outras, telescópicas” (Timothy Leary, na página 42 de sua autobiografia Flashbacks). O psicólogo Frank Barron acreditava que a psilocibina, retirada de cogumelos, ajudava no tratamento de alguns pacientes no consultório e a apresentou a Leary, que havia obtido seu PHD na Universidade de Berkeley em 1950 aos 30 anos. A partir daí, Leary começou a desenvolver pesquisas com a psilocibina. Mais tarde, passou a utilizar o LSD também em suas experiências, o LSD havia sido descoberto acidentalmente por Albert Hoffmann em 1943. Em 1959, Leary começou a desenvolver pesquisas na Universidade Harvard. Três anos mais tarde, em 1962, Leary e o professor Richard Alpert criaram o The Harvard Psychedelic Project, que causou certo rebuliço na tradicional universidade. Se o professor Leary fazia sucesso entre os estudantes, o mesmo não podia se dizer da direção da universidade, que não aprovava os métodos do projeto. O professor Alpert, casado e com filhos chegou a ser acusado de fornecer LSD a um estudante em troca de favores sexuais, e o projeto foi cancelado em 1963. O curioso é que a droga que marcou o movimento hippie, o LSD foi introduzido nos Estados Unidos pelos médicos e o governo federal. Os militares e a CIA desenvolviam estudos de seu uso como instrumento de controle mental e ela chegou a ser usada em interrogatórios para desvendar o inconsciente do investigado. O LSD também era ministrado durante o tratamento do alcoolismo, do vício em drogas e de bloqueios emocionais. As experiências de Leary com drogas psicodélicas para a expansão da consciência começaram a ser conhecidas e atraíram a atenção de escritores beats como Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti e William Burroughs. O escritor e jornalista húngaro Arthur Koestler chegou a tomar LSD supervisionado por Leary e afirmou: “eu solucionei o segredo do universo ontem à noite, mas nesta manhã eu esqueci”. O autor de O Estranho no Ninho, Ken Kesey, fez sua viagem épica com sua turma no ônibus lisérgico da Califórnia à comunidade que Leary vivia em Millbrook, próximo a Nova Iorque, com a desculpa de se encontrar com ele.  O Zonacurva contou esta história, leia no link http://zonacurva.com.br/o-onibus-lisergico-de-ken-kesey/. O escritor Aldous Huxley também foi amigo de Leary, em 1954, o autor do romance distópico Admirável Mundo Novo havia lançado As Portas da Percepção que relatava suas experiências com a mescalina. Do livro, Jim Morrison tirou o nome de sua banda. Huxley morreu em 22 de novembro de 1963, dia do assassinato do presidente norte-americano John Kennedy, e pediu para Leary que coordenasse a aplicação de LSD, Huxley desejava chegar ao céu ou onde seja turbinado de LSD. Leary conta em sua autobiografia que sugeriu “que seria muito melhor que Laura (esposa de Huxley) dirigisse a sessão e lesse para ele as instruções para se atingir a Luz Branca”. No final foi o que aconteceu. Leia texto com os detalhes da viagem de Huxley com duas doses de 100 microgramas de LSD na veia em seu leito de morte.  Boa parte de sua vida, Timothy Leary foi perseguido pelas autoridades. Sua primeira prisão foi em dezembro de 1965 por posse de maconha, a Justiça o condenou a 30 anos. Ele conseguiu ser libertado em alguns meses e foi novamente preso em 1969, novamente por posse de maconha. As palestras de Leary sobre LSD incomodavam o governo norte-americano, mas o LSD só foi proibido em 1970. Após a expulsão de Harvard, Leary e Alpert abriram uma loja no balneário mexicano de Acapulco que pretendia ‘vender’ drogas que potencializavam as experiências espirituais. Ambos foram deportados e retornaram aos Estados Unidos. Billy Hitchcock, ricaço dono de enorme propriedade em Millbrook, a duas horas de Nova Iorque, o convidou para criar uma comunidade no local que se tornou um centro contracultural com dezenas de moradores. Experimentações com drogas psicodélicas, sexo livre e meditação eram o cardápio básico em Millbrook. Neste período, Leary era casado com Nena von Schelbrugge, sua terceira esposa que anos mais tarde deu à luz a atriz Uma Thurman. “O LSD coloca o usuário em contato com seu passado ancestral e com nossa memória genética de todas as formas de vida, codificada nos genes de cada pessoa. No futuro psicodélico, cada um de nós será seu próprio Buda, seu próprio Einstein, seu próprio Galileu. Além disso, o LSD é o maior afrodisíaco já descoberto” (Leary em entrevista à revista Playboy).   Come Together e a amizade com John Lennon Quando ouviu pela primeira vez Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, disco dos Beatles de 1967 e produzido no auge da atmosfera psicodélica, Leary teria dito: “meu trabalho deu certo”. Dois anos mais tarde, em 1969, Timothy Leary anunciou que iria concorrer ao cargo de governador da Califórnia, seu adversário: Ronald Reagan. O lema de sua campanha era “Come Together, Join the Party”. Leary e sua esposa Rosemary foram convidados por John

A invasão holandesa de Salvador em 1624

por Albenísio Fonseca Brasil Colônia, Salvador, 9 de maio de 1624. A cidade amanhece sob o domínio e os efeitos do bombardeio de uma esquadra holandesa composta por 26 navios, sob o comando de Jacob Willekens. Na véspera, mesmo sob fogo cruzado do Forte de Santo Antônio, eles conseguem alvejar os canhões da Ponta do Padrão e desembarcam no Porto da Barra. Grupamentos de vanguarda seguem pela Ladeira da Barra e despenhadeiros até alcançarem a Porta de São Bento. Passam a madrugada no Mosteiro “ao sabor de vinhos e confeitos” que encontram no local. Ali, esperam o dia amanhecer e tomam o centro da cidade. Conforme Ricardo Behrens, no livro ‘Salvador e a invasão holandesa de 1624-1625’, “relatos portugueses e holandeses contam que o confronto teve início no dia anterior quando os da cidade receberam com disparos um batel com bandeira de paz enviado pela frota, antes mesmo de ouvirem a embaixada. Em resposta, os invasores descarregaram seus canhões no costado da cidade, nos fortes e nos navios que estavam no porto”. A visão da armada, por si só, provoca pânico e correria na maioria dos habitantes. Por mais que soubessem da probabilidade dos ataques, a cidade não dispunha de nenhuma estratégia especial. D’El Rey não estabelecera nenhum recurso para armamentos. Já os holandeses – cuja armada partiu do porto de Texel em dezembro e a viagem durara, portanto, quase seis meses – estavam imbuídos do propósito de invadir a capital do Reino do Brasil e com bastante munição. Os arrasadores disparos de canhões e, depois, o vandalismo dos invasores, acarretam inúmeros prejuízos à cidade, inclusive ao prédio da Câmara onde estava instalado o Arquivo Histórico, cujos documentos são completamente destruídos pelo fogo. De acordo com o historiador Affonso Rui, no livro ‘História política e administrativa da cidade de Salvador’ “os oficiais encarregados da documentação, como boa parte da população, fogem para Abrantes”, relata. Os 3.400 homens, entre aventureiros e mercenários que compunham a esquadra invasora, não encontram maiores resistências para render o governador-geral da colônia, D. Diogo Mendonça Furtado, e aprisioná-lo na chamada Casa dos Governadores (no que viria a ser o Palácio Rio Branco, na atual Praça Tomé de Souza), em pleno coração da urbe, uma das mais importantes cidades da América, então capital do Brasil. O governante português já houvera se mostrado preocupado com o despreparo bélico do Brasil e chegou a entrar em choque com a Igreja, que não via necessidade de preocupações militares. Assim, os holandeses não tiveram muitos problemas para tomar a cidade e Mendonça Furtado assina sua rendição um dia depois. É levado prisioneiro para Amsterdam, com outras 12 pessoas, entre auxiliares e jesuítas, de onde somente são libertados em 1626. Segundo Behrens em sua dissertação de Mestrado já convertida em livro, “há uma série de conferências publicadas na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, nº 66, de 1940. Trata-se de uma publicação em comemoração à derrota de Maurício de Nassau ao tentar invadir a Bahia em 1638. Além das conferências, foram publicadas as sugestões feitas pelos membros do Instituto para comemorar a data, dentre as quais se destaca a ideia de confecção de uma série de placas comemorativas, a exemplo da que existe ainda na entrada do Mosteiro de São Bento”. A permanência dos holandeses em terras baianas duraria praticamente um ano. Cabe ao bispo Dom Marcos Teixeira, posteriormente denominado Bispo Guerreiro, promover a resistência. Através da tática de emboscadas impede os invasores de sair da cidade. Em 27 de março de 1625, a esquadra de reforço portuguesa-espanhola, comandada pelo espanhol D. Fradique de Toledo Osório, chega a terras baianas. Foram mais de 40 dias de batalha e, em 1º de maio, obtém a primeira rendição.   Colônia era controlada pelos espanhóis durante a União Ibérica A colônia era controlada, então, por espanhóis, durante a denominada União Ibérica (1580-1640) que junta as duas coroas após o desaparecimento de Dom Sebastião de Avis, na Batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos, na guerra contra os mouros, em 1578, quando ambicionava a vitória sobre os muçulmanos para a glória do cristianismo. Vale entender mais: A “morte” de Dom Sebastião provoca uma crise sucessória em Portugal, tendo em vista que o rei não deixara herdeiros. Seu desaparecimento gera o “sebastianismo”, espécie de crença messiânica que estipulava seu retorno ao reino e que se estenderia por três séculos como símbolo do nacionalismo português. A solução encontrada para o trono é seu tio-avô, o cardeal D. Henrique (Henrique I, de Portugal), que, já bastante idoso, falece em 1580, marcando o fim da dinastia de Avis. Com isso, o trono português passa a ser disputado por outras dinastias europeias, que reivindicavam ligação de parentesco com Dom Sebastião. O então rei da Espanha, Felipe II, um dos mais poderosos monarcas da época, era neto de Dom Manuel, O Venturoso, que, por sua vez, era tio de Dom Sebastião. Essa ligação parental é reivindicada por Felipe II e usada como legitimação para a invasão de Portugal pelos espanhóis em 1580, instaurando a monarquia dualista: duas coroas sob um mesmo monarca. Portugal só readquire a independência 60 anos depois quando tem início o reinado de D. João IV, fundador da dinastia de Bragança. É no período da União Ibérica que ocorrem também as invasões francesas. Holanda e França, que antes mantinham relação amistosa com Portugal, confrontam-se diretamente com a Espanha. A supremacia ibérica passa a ser questionada por aquelas nações europeias que desejavam também lucrar com o processo de colonização. E isso envolvia tanto razões de caráter econômico, no que pese o controle do comércio de açúcar e da extração de metais, quanto de ordem religiosa, na medida em que a Espanha era católica enquanto a Holanda e parte dos franceses haviam aderido ao protestantismo. O período conhecido como “Brasil Holandês”, em que vigorou uma sofisticada administração holandesa em parte da costa nordeste brasileira, ocorre exatamente nesse contexto. Não há registros de legados holandeses na Bahia, ao contrário dos verificados em Pernambuco, como os franceses no Rio de Janeiro

Os negócios do deputado

 por Fernando do Valle Paris, 2013 – Com andar trôpego, o deputado e sua mulher de olhar esbugalhado entram no restaurante já frequentado pela aristocracia francesa. Acomodados à mesa recebem a carta de vinhos e ela pede ao garçom vinho conhecido de boa safra. Ele fala ao celular com a mão esquerda próxima à boca, a mulher pede ao marido que desligue o aparelho “pelo menos agora”. O deputado nunca larga seu celular. Orgulhoso de suas conquistas, costuma sussurrar entre lençóis de linho em hotéis de até 7 estrelas nessas rotineiras viagens que “muitos invejam onde cheguei, tenho culpa se sou um homem de negócios bem-sucedido” e lembra do início da carreira como presidente da Telerj, da CEHAB e como tesoureiro carioca da campanha de Collor à presidência. Para lidar com tais negócios, se ele vacilar, a fila de concorrentes à vaga é longa. Uma mão maneja o cartão de crédito que paga a conta de 9 mil reais, na outra ainda o celular. Após observar a pompa dos convivas do restaurante, sua mulher retoca o rímel em um pequeno espelho retirado da bolsa de grife. Outro dia, tarde da noite, ao ouvir lenga-lenga de certa vossa excelência de Santa Catarina, evangélico como ele, sentiu saudades do restaurante parisiense, certa discrição é necessária desde que abriu processo de impedimento da presidenta em dezembro último depois que parlamentares do partido da mandatária votaram contra seus interesses no Conselho de Ética. Se 342 deputados seguirem o deputado, ele confia que pode reconquistar certa tranquilidade depois da rotina atribulada dos últimos meses. Miami, 2012 – Giorgio Armani é a loja preferida da mulher de olhos sempre abertos. Na volta das compras, o deputado, que prefere Ermenegildo Zegna, fez troça: “neste mês, já gastamos um apartamento com tantas compras, vá com calma”. O deputado adora saborear um caranguejo em Miami no Joes Stone Crab com sua filha que presta consultoria de marketing para colegas deputados do pai, para isso, a filha cursou MBA em universidade espanhola. Lista ecumênica de empreiteiro com dezenas de milhões em doações/propinas apelidou o deputado de caranguejo, seria pelas preferências culinárias do deputado ou por suas múltiplas habilidades para gerir negócios em várias frentes, não se sabe. Brasília, 2016 – O celular sempre indica um empresário, doleiro ou colega de plenário na fila de espera das chamadas, o deputado está com a orelha vermelha após horas do telefone no ouvido, ele tem receio do viva-voz, afinal não se pode confiar em ninguém em Brasília, ele repete. Risadas estridentes dos dois lados da linha na última ligação, “você trucou com 9, 9 pedidos, não há nada a temer”, fala do outro lado milionário com 3 offshores, o Panamá é logo ali (atenção: este grampo é fictício, nenhum juiz autorizou a quebra de sigilo telefônico do deputado). Na semana passada, ele fez um alerta aos outros deputados que haverá “suspeição e dúvidas sobre o caráter” dos que não comparecerem na votação que poderá iniciar a queda da presidenta da República. No próximo domingo, para provar que tem caráter, o deputado estará em sua cadeira de presidente na Câmara dos Deputados, que ocupa desde fevereiro do ano passado, eleito com 267 votos.

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