Zona Curva

Política

Uma luz para você entender um pouco sobre o imbróglio político em que o país está metido.

Cálice

por Guilherme Scalzilli É enganoso tomar os esculachos públicos de gente famosa como episódios de alguma guerra entre facções ideológicas. A pantomima incivilizada parece resumir os eventos sob uma dramatização meio histérica de militância, mas a imagem do tal “Fla-Flu” esconde e mesmo edulcora o cerne do problema. Fosse apenas questão de confronto radicalizado, os bacanas imbecis que insultaram Chico Buarque diante das vitrines do Leblon teriam coragem de fazê-lo contra Aldir Blanc, outro gênio da raça, nalgum botequim da Tijuca. O gesto de fanatismo guerreiro até compensaria o belo cacete que tomariam da assistência. Mas não há choque de fato. Nos raros casos em que as vítimas engrossam os bate-bocas, seus provocadores recuam para balbucios insultuosos ou se refugiam nos apupos grupais. Claro que os ataques transcorrem, comodamente, em cenários pouco afeitos a quebradeiras. Pois essa contingência demonstra que as iniciativas já nascem limitadas por certa preocupação com a, digamos, integridade corporal. Não há embate pois é exatamente isso, o conflito, que os energúmenos tentam impedir: a presença do antípoda no mesmo ambiente seleto e visível. E assim o constrangimento de pessoas notórias, feito espetáculo de autopromoção, ganha força de exemplo. Serve para atemorizar o antagonista, afastando-o das arenas sociais, silenciando os debates provocativos com os quais ele atrapalha a fabricação de sofismas, sejam midiáticos ou partidários. Reproduzindo as bolhas assépticas da internet. As reações díspares da mídia e do público reforçam a coloração sectária do fenômeno. É necessário classificar os envolvidos para que os episódios despertem ora o conformismo por supostos merecimentos das vítimas (“petista hostilizado”), ora a indignação diante da violência do ato (“jornalista agredido”). Daí que não basta defender a tolerância, se ela significar uma passividade masoquista diante da estupidez. Porque os imbecis têm defensores, igualmente covardes, até nos porta-vozes do discurso apaziguador, com seu bom-mocismo cínico e vingativo que alega direitos quando a coisa aperta. O golpismo está cheio de democratas. É necessário ir mais fundo, expurgar as falsas dicotomias que alimentam e disfarçam o círculo vicioso do impulso autoritário. Em vez de uma batalha de interesses díspares, denunciar a normalização da mesma estratégia. Uma gradativa unanimidade pela recusa violenta do dissenso, que de muitas formas reverbera a demonização do regime político. Inclusive através da caricatura futebolística da ideologia. Mas parece impossível combater essa tendência no império da ambiguidade permissiva que embala repúdios e tolerâncias circunstanciais, na imprensa e nos círculos militantes. Publicado originalmente no Blog do Guilherme Scalzilli. O Tropicalismo na visão dos jovens na ditadura

Autocrítica da esquerda  

por Frei Betto A esquerda latino-americana não anda com boa saúde. Perdemos Fidel; o PT está encalacrado na Lava Jato; a Venezuela é, hoje, uma terra em transe. A Revolução Bolivariana não logrou criar raízes como a cubana. Em Cuba, a revolução foi obra de um povo. O que explica o fato de os EUA jamais agredirem belicamente a ilha, após o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Os ianques aprenderam, com a derrota no Vietnã, que governos (como Iraque, Líbia e Afeganistão) se derrubam; um povo, jamais. Os governos progressistas da América Latina estão ameaçados pelo avanço da ofensiva neoliberal. Sofreram golpes parlamentares Honduras (2009), Paraguai (2012) e Brasil (2016). Na Argentina, a direita elegeu Macri. No Equador, Rafael Correa fez Lenin Moreno seu sucessor por pequena margem de votos. Na Bolívia, Evo Morales se depara com o desgaste de sua base de apoio. No Chile, Bachelet tem baixíssimo índice de popularidade e a direita se assanha para retomar o poder nas próximas eleições. Na Nicarágua, a esquerda se divide entre os que apoiam e os que se opõem ao governo de Daniel Ortega. Salvam-se El Salvador e Uruguai, onde a esquerda moderada não enfrenta grandes dificuldades. Não existe hoje, na América Latina, uma correlação de forças que assegure, em curto prazo, a superação do modelo desenvolvimentista neoliberal por um novo modelo de sociedade centrado nos direitos dos trabalhadores, na inclusão social dos setores marginalizados e excluídos, e na preservação ambiental. Alguns governos progressistas adotaram verdadeira esquizofrenia ao proferir um discurso político de esquerda e, ao mesmo tempo, abraçar uma política econômica regida pelo capital internacional, dependente da exportação de commodities, sem criar bases de sustentabilidade para o desenvolvimento do país. No Brasil, no governo do PT adotou-se a emulação do crescimento (PAC – Política de Aceleração do Crescimento), visando a, em primeiro lugar, anabolizar o PIB. E a dependência da exportação de matérias-primas, hoje elegantemente denominadas commodities, agravou o processo de desindustrialização. Sobre a união das esquerdas A corrupção se entranhou nas estruturas governamentais, cooptou líderes políticos como agentes de interesses privados de grandes corporações e corroeu a credibilidade ética da esquerda. Abandonou-se o horizonte socialista e acreditou-se na política de inclusão assistencialista dos mais pobres, sem alterar minimamente as estruturas sociais e os direitos de propriedade. Cedeu-se à falácia de que o capitalismo é passível de humanização. Priorizou-se o acesso da população a bens pessoais (celular, computador, eletrodomésticos etc.) e não a bens sociais (alimentação, saúde, educação etc.). Não houve empenho em preparar as bases de uma democracia participativa. Movimentos populares foram alijados como interlocutores preferenciais ou cooptados para atuarem como correia de transmissão entre governo e bases sociais. É hora de fazer autocrítica e corrigir rotas, antes que seja demasiadamente tarde. Pena que, em seu congresso nacional, na primeira semana de junho, o PT tenha declinado desse dever político sob o pretexto de não dar munição aos adversários. Quem se cala, consente. Publicado originalmente no Correio da Cidadania. Meu fio de esperança  

A dívida de FHC e Lula

por Carlos Fico FHC e Lula têm dívida com o Brasil. Ambos adotaram a repartição dos cargos ministeriais entre base partidária ampla para garantir a aprovação de iniciativas governamentais pelo Congresso Nacional. FHC associou-se ao PFL (os dissidentes do PDS, sucedâneo da ARENA) e a partidos fisiológicos. Lula se associou ao PMDB e a partidos fisiológicos. Para governar, ambos ficaram prisioneiros das demandas por cargos e outros benefícios feitas por parlamentares em troca de seus votos. Há indicadores muito consistentes de que ao menos fizeram vista grossa para as diversas modalidades de crimes que esse procedimento gerou (caixa dois, propina travestida como financiamento de campanha e corrupção stricto sensu). Fernando Henrique e Lula também se sujeitaram aos malefícios administrativos da prática, pois até mesmo ministérios e empresas estatais foram entregues a partidos que indicaram pessoas desqualificadas e/ou envolvidas em esquemas criminosos para geri-los. Ambos fundamentaram a prática em razões supostamente pragmáticas e realistas, pois não teria sido possível governar de outro modo.  Esse modelo foi aceito por boa parte da chamada opinião pública como inevitável, malgrado algum desconforto ou críticas pontuais. Essa forma de governar expressa visão de fundo autoritário pois supõe que o projeto de governo em questão possui qualidades tais e tão definitivas que justificam a associação com os setores corrompidos da política. Delação da Odebrecht e a agonia final da Nova República Ela também é antipopular – e nesse sentido, antidemocrática – porque não acredita na possibilidade de convencimento da maioria do eleitorado sobre a necessidade de medidas de estabilidade da economia ou de justiça social. Como consequência, colabora para a instauração de cenário de antagonismo político que não tem correspondência com suficiente diferenciação de programas de governo. Isto é, a ferocidade da oposição entre eleitores do PSDB e do PT não equivale à distinção entre os governos respectivos (política econômica assemelhada, manutenção/ampliação de programas sociais etc.). A persistência do modelo de repartição das franjas do poder e sua eficácia operacional deu grande impulso à mudança histórica no padrão de corrupção que muitos empresários brasileiros praticam desde a época das grandes obras da ditadura militar: antes, buscava-se corromper instâncias do Poder Executivo; nos últimos vinte anos, o foco passou a ser a aprovação de legislação favorável no Congresso Nacional. Assim, a governabilidade associou-se a interesses empresariais e partidários escusos. Houve uma mudança de escala evidente nos governos do PT e os escândalos avolumaram-se. As investigações revelaram cifras e envolvimentos que surpreenderam até mesmo os que já tinham notícia das práticas de compra de votos, de caixa 2 etc. A maneira como as investigações são conduzidas, com alto grau de politização e inevitável moralismo, tem gerado grande expectativa na população segundo a qual a punição judicial terminará com os descalabros. Essa expectativa será inevitavelmente frustrada, como se viu recentemente: empresários continuaram corrompendo mesmo no auge da Operação Lava Jato, assim como políticos que vendiam imagem de probos são desmascarados como gângsters. A frustração não favorece a proposição de novas medidas incrementais, como foram o controle da inflação e da dívida externa, a adoção de políticas sociais compensatórias, o fortalecimento do Ministério Público, além de muitas outras medidas benéficas que tornaram o Brasil melhor, embora muito lentamente, de diversos pontos de vista. Muito ao contrário, a frustração das expectativas criadas pela Lava Jato tende a estimular o surgimento de propostas salvacionistas e/ou demandas por soluções que supostamente comecem do zero, como eleições diretas. Se o atual presidente renunciar ou for afastado pelo TSE, haverá que se escolher novo presidente. Contra o que estabelece a Constituição, o eleitorado tende a clamar por eleição direta, dada a tremenda fragilidade do atual Congresso Nacional que tem muitos parlamentares investigados: não haveria legitimidade na eleição indireta. Cientistas políticos com posição liberal extremada sustentam que o mandamento constitucional deve prevalecer a qualquer custo, independentemente do clamor popular, que seria simples resultante do “populismo” ou da demagogia conduzida pela esquerda. Essa visão é estreita e deve ser denunciada. Mas a Constituição deve ser obedecida, sobretudo em momentos de crise como o atual. Esse impasse demanda soluções elevadas, que passam por algum tipo de transigência em torno de programa mínimo: (a) a mudança das regras que permitem a proliferação de partidos de aluguel, sem representação popular, bem como do próprio sistema de eleição proporcional, que poucos eleitores conhecem; (b) a óbvia necessidade de estabilização da economia. Esses dois pontos poderiam servir de base. FHC e Lula têm dívida com o Brasil. Se tivermos um governo, por eleição indireta, para cumprir mandato tampão, o tempo seria bem aproveitado se algo nesse sentido fosse feito. Lula e FHC deveriam conduzir conversações para chegarmos a candidato comum – não eles – de pacificação nacional em torno de programa mínimo viável. Até porque o mandato tampão será muito curto. Somente um gesto tão surpreendente como esse seria capaz de conferir alguma legitimidade à eleição indireta.

Diretas já?

por Guilherme Scalzilli Desconfio ser inviável qualquer caminho para a eventual substituição de Michel Temer que fuja ao voto indireto. Sim, há medidas jurídicas e legislativas que poderiam dar substância constitucional à ideia. O problema é que ela não interessa às únicas esferas capazes de viabilizá-la. O Legislativo jamais abriria mão do controle da agenda sucessória, em véspera eleitoral, amargando o descrédito generalizado perante a classe política. E o Judiciário dificilmente aceitará tamanha responsabilidade, comprando uma briga intervencionista, sob o desgaste do seu endosso ao próprio golpe parlamentar que originou todo o imbróglio. Mas, acima de qualquer prurido de legalismo tardio, a ideia de eleições imediatas parece natimorta porque embute chances imensas de tornar Lula presidente. Ainda mais numa campanha curta, fustigada pelo radicalismo e pela insatisfação, com os demais candidatos disputando a tapa o eleitorado antipetista. Não nos iludamos. O apoio superficial e retórico da imprensa corporativa ao impeachment de Temer visa a inelegibilidade exemplar de Dilma Rousseff no TSE e o acirramento da pressão sobre os tribunais que julgarão Lula. Criando a fábula da isenção judicial para que as redações entretenham os espectadores durante o sacrifício. O afastamento de Temer possuirá também função apaziguadora. O plano do golpismo institucional é manter a aparência de normalidade, sob um fantoche conciliador, até que a festa democrática esteja a salvo de Lula. Temer passou a representar enorme obstáculo a essa higienização, inclusive fomentando os protestos de quem a defende. Todo o condomínio golpista unirá forças para evitar o colapso do último projeto que ainda o harmoniza. Juristas, lideranças partidárias e religiosas, imprensa, empresários, será um verdadeiro rolo compressor. “Diretas já é golpe”, repetirão os sabujos, provando mais uma vez que o endosso da direita à vontade popular tem limites pragmáticos. Ao primeiro sinal de que as coisas pudessem fugir ao controle, por exemplo uma reedição do “queremismo” varguista centrada em Lula, as cortes atropelariam os ritos processuais e o colocariam na cadeia. Com as polícias e talvez o Exército garantindo a subserviência das ruas e os editoriais vociferando contra o caos vermelho. Isso não anula a importância dos protestos pelas “Diretas já”. Porque ajudam a impedir as reformas de Temer. Porque talvez ganhem um volume capaz de reinserir a sociedade no âmbito das decisões políticas de gabinete. E porque sepultam a narrativa legitimadora do golpe, que foi uma eleição indireta semelhante à de 1964. Mas certa consciência das verdadeiras questões em jogo daria aos manifestantes um antídoto contra o cinismo das autoridades. Fingir que o fator Lula não influencia o destino das exigências predispõe o público a acreditar que sua previsível rejeição se deve apenas a questões de cronograma, orçamento ou segurança jurídica. Publicado originalmente no Blog do Guilherme Scalzilli. Henfil e as Diretas JÁ! 1984 é agora, ou o real invadiu a ficção?

Agronegócio avança sobre a Amazônia

por Elaine Tavares O Brasil vive uma grave crise política, mas para os deputados no Congresso Nacional, nada está acontecendo. Surdos a toda mobilização popular que questiona a legitimidade do governo Temer e acusa mais de 300 parlamentares de corrupção, os legisladores seguem com a farra de benesses para os seus financiadores. A conhecida “bancada do boi”, na qual estão os representantes do agronegócio é a que mais avança, garantindo cada vez mais a concentração de terra e privilégios para os latifundiários. Não bastasse essa goleada no poder legislativo, os ruralistas ainda seguem matando pessoas nos fundões do Brasil sem que ninguém seja tocado. A chamada acumulação primitiva, tão bem explicada por Marx, segue a passos largos no Brasil. O objetivo é garantir terras ricas para os ricos, eliminando qualquer entrave, sejam os indígenas ou os agricultores sem-terra. Para isso, vale tudo. Nessa quarta-feira, quando mais de 150 mil pessoas tomavam Brasília para pedir o “Fora Temer” e lutar contra as contrarreformas trabalhista e previdenciária, os deputados, encastelados no Congresso, e aproveitando que os colegas de oposição se retiraram em protesto contra o massacre aos trabalhadores que acontecia lá fora, votaram na maior cara de pau Medida Provisória do governo ilegítimo (a MP 759), que regulariza as terras da União ocupadas na Amazônia Legal e estabelece  novos procedimentos para regularização fundiária urbana no Brasil. Entre esses procedimentos está a possibilidade de empresas estrangeiras tomarem conta do território, sem limites de tamanho. A MP passou na forma de um Projeto de Lei  rearranjado pelo senador Romero Jucá (PMDB/RR), o mesmo que o Brasil todo conhece como aquele que apontou como deveria ser o golpe no Brasil, e que está também mergulhado em denúncias de corrupção. Na proposta aprovada agora será possível regularizar áreas maiores que um módulo fiscal e até 2.500 hectares, uma exigência dos latifundiários e dos grandes grileiros de terra. Também permite que ocupantes até 2008 possam fazer a regularização. Antes isso só era possível para os que estavam na área até 2004. Ou seja, a nova lei legaliza a última expansão realizada pelos ladrões de terra, que na sua maioria são grandes fazendeiros que a ferro e fogo, garantiram o aumento da fronteira agrícola para dentro da floresta que é o pulmão do mundo. E com a possibilidade de compra por parte das empresas estrangeiras, a Amazônia poderá ser apropriada pelas transnacionais que usarão a seu bel prazer toda a riqueza da região, inclusive uma infinidade de plantas que servem a indústria farmacêutica. Ou seja, o país perde soberania sobre sua própria riqueza. É o corolário do entreguismo.   O que está em jogo A Amazônia Legal não é um descampado vazio de gente que os fazendeiros podem ir ocupando a seu bel prazer. Ela é um espaço de riquezas infindáveis, equilíbrio do clima mundial e também morada de uma infinidade de povos originários. E é justamente sua riqueza que é sua desgraça, pois os capitalistas, no processo incontrolável de acumulação de capital, querem tomar cada pedaço, não medindo esforços para isso. Tanto que no mesmo dia em que conseguiam aprovar a MP, jagunços a mando de fazendeiros no Pará, assassinavam 10 trabalhadores sem terra. A região amazônica é um laboratório de vida natural com mais de 50 mil quilômetros de rios navegáveis. Só o Amazonas tem mais de mil afluentes. Ali vivem cerca de 80% das variedades de vida do planeta, sendo a maior floresta tropical do mundo. A Amazônia brasileira se apresenta em nove estados do país e desde o processo de invasão tem sido objeto de rapinagem e destruição.  Primeiro com a mineração de ouro no século 18 e depois com o extrativismo da borracha. Não sem razão, a região foi o palco de grandes batalhas, como a Revolta dos Cabanos, entre 1823 e 1839, na qual índios, negros e trabalhadores empobrecidos se levantaram em armas contra o Estado.  Mais de 30 mil pessoas foram mortas pelas forças estatais, na mais sangrenta guerra civil do Brasil. Na investida sobre a Amazônia durante o ciclo da borracha a região foi tomada por levas gigantescas de trabalhadores nordestinos que, sem condições de vida no nordeste, por conta da seca, iam para o norte em busca de vida melhor. Entre 1870 e 1910 mais de 500 mil nordestinos migraram para a região servindo de força de trabalho. A estrada de ferro Madeira-Mamoré construída na primeira década do século 20 deixou um saldo de 30 mil mortos, tamanha era a precariedade das condições de vida. E foi na década de 30 que a entrega das terras para os estrangeiros também começou, com  o empresário estadunidense Henry Ford se apropriando de terras junto às margens do rio Tapajós para a extração da borracha. O governo militar, que assumiu depois do golpe de 64, foi quem promoveu mais um forte processo de acumulação capitalista na região com uma estratégica política de colonização da região, chegando a criar uma agência de fomento para financiar aqueles que queriam investir na Amazônia, a famosa SUDAM, espaço de grandes processos de corrupção e desvio de dinheiro, envolvendo figuras conhecidas como Jader Barbalho e Roseana Sarney, mas que seguem suas vidas sem punição alguma. Foi justamente nesse período que se abriram as fronteiras da floresta ao capital. Conforme estudos de Fiorelo Picoli, no livro “O Capital e a devastação da Amazônia”, entre 1960 e 1970 apenas 35,3% das terras pertenciam a estabelecimentos com menos de 100 hectares. Já a partir de 1975 a concentração tinha dado um salto, com 99,8 das áreas sendo propriedades de mais de 100 hectares, com 75% tendo mais de mil hectares. Ou seja, foi o período em que os fazendeiros mais amealharam terra na região. Esse foi também um tempo em que centenas de milhares de indígenas foram assassinados ou desalojados de seus territórios. Tudo era válido para que o Brasil “progredisse”. O estado chegou a criar uma base militar no sul do Pará, justamente para apoiar a grilagem de terra pelos grandes fazendeiros, atuando contra os posseiros empobrecidos e contra

Temer, o presidente-fantasma

por Urariano Mota Entre os significados da palavra fantasma, podemos ver no Dicionário Aulete: “Suposta aparição de pessoa que já morreu; alma penada; ASSOMBRAÇÃO; ESPECTRO”. Ou então, a seguir: “Imagem sobrenatural que alguém julga ver”. E mais adiante: “Pessoa que apenas aparenta ou representa um papel que deveria ter” E mais nos ajuda o bom dicionário: “Seguindo um substantivo, ao qual se liga por hífen, tem valor de adjetivo e significa ‘não existente, fictício, criado para iludir, especialmente com fins fraudulentos’”. É em todos os significados do fantasma acima que devemos ver a criatura, ente monstruoso, Michel Temer. E não estamos forçando a prosa. Temos um presidente que para tão alta honra não foi eleito, primeiro. Temos um fantasma que se tornou a estrela-guia do inferno para os trabalhadores no Brasil, segundo. Temos uma aparição que aliena o petróleo brasileiro para as multinacionais. Temos o beneficiário número 1 da corrupção no congresso, com quem tramou a queda de uma presidenta íntegra. Temos, enfim, com tal alma o recuo do Brasil até as trevas dos direitos humanos. Em qual significado poderíamos enquadrar um presidente sem presidência, uma presidência sem presidente, um governo sem governo, uma autoridade cuja ilusão é o cargo vazio? Se pensam que é retórica ou palavras mal-ajeitadas, passem um olho no noticiário mais recente, nos protestos de rua, no desencanto e desalento que invadem o coração brasileiro dos últimos dias. Observem a raiva que une todas as gerações, numa verdadeira mistura de cabelos brancos e pretíssimos nos protestos e passeatas. Olhem a base parlamentar de apoio do vagante que começa a se desintegrar. Os ratos começaram o abandono do navio que afunda. Os que ainda resistem – em nome da solidariedade, ah, bufões, destroem até a dignidade dos conceitos – fazem uma aposta na base do “vamos aproveitar as últimas horas do Titanic”, enquanto reservam um barco salva-vidas. No minuto final, vão pular fora com a frase mais cínica “em nome do Brasil, pelo povo brasileiro, deixo de apoiar esse desonesto”. O poder político, moral e de honra está vazio em Brasília. E finge que ocupa a presidência. Então, como enxotá-lo? Xô, fantasma? Mas xô se dirige às galinhas, aos animais de pequeno porte. Como reagir diante das notícias dos últimos dias do fantasma? No interior do palácio, perto da meia-noite, olhem que maravilhoso diálogo foi travado, não previsto na imaginação de Molière ou de Shakespeare: “Batista – Eu tô de bem com o Eduardo… Temer – Tem que manter isso, viu? Batista – Sou investigado. Eu não tenho ainda a denúncia. Aqui, eu dei conta de um lado do juiz, dar uma segurada. Do outro lado, um juiz substituto. Temer – Que tá segurando os dois. Batista – Segurando os dois… Ó, eu consegui um procurador dentro da força-tarefa. Temer – Que tá lá… Batista – Que também tá me dando informação”. Nessa clara prevaricação, nessa conversa íntima entre criminosos, o senhor alma no poder declara: “Ainda bem que eu tenho apoio do Congresso. Se eu não tenho apoio do Congresso, eu tô ferrado”. E agora não tem mais. O presidente não tem base real, mas aparece como se vivo estivesse na presidência. Virou alma penada que discursa e grita “Eu não renuncio”. No entanto, à vida ele já renunciou. E quer arreganhar os dentes para ferir, e quer se anunciar como algo a que se deve temer. Mas ele se tornou um fantasma a quem não mais se teme. O próprio nome, Temer, virou piada, caiu no escracho, no deboche. A um presidente assim, só lhe resta renunciar, para sua maior dignidade. Mas como pedir a um fantasma que seja digno? Então que o levemos a assumir a própria nulidade. O fantasma do Hamlet fala no teatro: “Estou condenado, por um certo prazo, a vagar à noite, e durante o dia confinado, a jejuar no fogo, até que os torpes crimes cometidos em meus dias de vida sejam queimados e expurgados”. Piedade, amigos. Não deixemos mais essa alma penada a sofrer. O povo brasileiro precisa abreviar o prazo do fantasma que ocupa a presidência. O governo tucano de Michel Temer Ligado no dois de agosto Elis, o meu coração e a PEC do Temer

O deboche do latifúndio tem que parar

por Elaine Tavares Índios da tribo Gamela foram brutalmente atacados nesse último domingo, dia 30 de abril, no Povoado de Bahias, município de Viana no Maranhão. Cerca de 10 índios ficaram feridos. Os indígenas decidiram se retirar de uma área tradicional retomada e, enquanto saíam, sofreram uma investida de dezenas de homens armados de facões, paus e armas de fogo O ataque de jagunços e fazendeiros a uma comunidade indígena do Maranhão, com requintes de crueldade, não é uma coisa isolada nesse país. A violência dos grandes fazendeiros contra as populações originárias cresce a cada dia, em número e grau, na medida em que esse grupo – incensado como “agronegócio” – vai ficando mais poderoso. Liderando uma bancada considerável no Congresso Nacional, os representantes do latifúndio têm como objetivo principal acabar com as demarcações de terras, tornando os indígenas “trabalhadores assalariados”, como – sem qualquer prurido – observou o deputado catarinense Valdir Colatto. Os fazendeiros, que seguem expandido as fronteiras agrícolas, no melhor estilo da acumulação primitiva – ou seja, à custa da expulsão dos pequenos agricultores e também dos indígenas – não querem saber de terras protegidas, florestas resguardadas, águas abrigadas da poluição, e muito menos de gente disposta a cuidar de tudo isso. Seu negócio é esgotar o solo com a monocultura ou com a exploração de minérios. Para essa gente, os povos originários são um atrapalho que precisa ser eliminado, de vez. Não é sem razão que as comunidades indígenas vêm enfrentando toda essa violência. Desde que o movimento dos originários decidiu assomar em rebeldia, realizando as retomadas, a guerra está declarada. E o que são as retomadas? É a ocupação das terras originárias pelas comunidades que são as verdadeiras donas do lugar. Espaços como o Mato Grosso do Sul, por exemplo, onde os povos indígenas estão acampados em estradas, passaram a ser focos de intensa luta. As etnias originárias decidiram dar um basta aos ladrões de terra e foram tomar o que é seu. Nesse processo, enfrentam toda a fúria da jagunçagem, essa forma de banditismo tão comum no Brasil rural. Na verdade, povo pobre explorado duplamente pelos fazendeiros, que além de expulsá-los das terras, tornando-os sem terra os transformam em criminosos. Outros estados como o Pará, a Bahia, o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, enfim, cada lugar onde tem povo indígena, vive seu drama. E, como não poderia deixar de ser, os fazendeiros tem o apoio da mídia comercial que os mostra como os “produtivos”, os que geram a riqueza do Brasil: “o agro é tech, o agro é pop”. Mentiras e mais mentiras. O agronegócio não é pop, ele é assassino. O agro não é produtivo, ele aposta na monocultura, no geral para fornecer matéria prima de forragem animal. Quem produz a comida que nos chega à mesa é o pequeno produtor. O agronegócio quer as terras indígenas. Essa é a realidade. Os fazendeiros querem se apossar de todos os territórios que já estão demarcados e os que estão para serem entregues aos povos originários. Eles não querem que os indígenas protejam seus espaços sagrados, suas terras ancestrais. Não querem que os indígenas mostrem que é possível viver sua cultura e também avançar rumo a uma sociedade justa, equitativa, solidária e distributiva. Os fazendeiros querem as terras indígenas e estão dispostos a eliminar cada um e cada uma, se preciso for. Por isso instauram o terror nos espaços conflagrados. E o que é pior, fazem isso sem que o poder público tome qualquer atitude. Eles correm soltos pelos pastos, arma na mão, boca babando. Muitas vezes atacam os indígenas acompanhados pelos soldados da força pública, protegidos pelo estado. E os indígenas que nada mais tem de seu a não ser o corpo em luta, não se entregam. Enfrentam no peito aberto os jagunços, os bandidos, a polícia. Não abrem mão de seus territórios. Porque para um povo indígena a terra não é coisa que existe para vender ou para especular. Não. Terra é lugar dos deuses, da vida, da construção coletiva da vida. O território é o cenário vivo da sua cultura, o coração pulsante de sua realidade. Sem ele não há razão para viver. Faz tempo demais que os ladrões de terra querem acabar com os indígenas. Começaram a agir em 1500 quando aportaram na Bahia. Tentaram de toda forma exterminar as culturas, o modo de vida, as pessoas mesmo. Não deu certo. Nos anos 60 do século passado, os ladrões de terra conseguiram fazer com que existissem apenas 180 mil almas indígenas nesse chão de tantos milhões de hectares. Quase colocaram fim em tudo. Mas, com a força de Tupã, Ñanderu, Kuaray, as gentes originárias renasceram das cinzas. Saíram da tutela, do torpor, do medo. Já não havia mais nada a perder. Então foram se organizando e se levantando. Muitas etnias já conquistaram seus territórios, mas estão em vias de perder, com a proposta da PEC 215, a menina dos olhos dos fazendeiros. Eles querem poder para desfazer as demarcações. Mas, enquanto eles tramam nas salas acarpetadas, os povos indígenas se organizam e lutam. Fazem retomadas, resistem. Na semana do 17 a 21, os povos indígenas estiveram em Brasília, no acampamento anual. Momento em que procuram estabelecer diálogo com os congressistas e com a população. E ocuparam a frente do Congresso com suas cores, suas danças, suas vozes, suas demandas. Mas, em vez do respeito e do encontro fraterno o que receberam? Balas, gás, paulada, desfeita. Na mídia, de novo a distorção. Um indígena com um arco diante do prédio aparecendo mais perigoso do que toda a tropa de choque da polícia militar. O mundo inteiro gritou diante disso. E no Brasil, quase ninguém. A população já domesticada pela ideia de que os índios são bárbaros e não merecem viver. Tão 1500. Agora, com esse horror no Maranhão, quando uma pessoa teve suas mãos decepadas, observa-se certo choque. Como se a barbárie tivesse acontecido apenas no Maranhão com esse ato cruel. Mas, o que aconteceu no Maranhão acontece todos os

O país da Política

por Almandrade À medida que o mundo envelhece, o homem deveria aprender a resolver, de forma mais confortável, sua relação com a natureza e com os valores éticos e estéticos. Ao contrário, chegamos ao século XXI, sujando as cidades, adulterando o meio ambiente enquanto a política comercializa votos e apoios como se a vida fosse uma ficção pobre de imaginação. Mas o pior é que a política é uma realidade cara à nação, com pouca contribuição para resolver os nossos problemas. Passamos o tempo falando de partidos políticos, corrupção, correndo atrás de bola, pesquisas eleitorais. Quando não estamos de olho nas imagens da televisão e lendo manchetes que não enriquecem a paisagem cultural. Um tempo perdido. E assim vamos vivendo uma vida de eleitor/voyeur de irregularidades e mordomias de uma república que não nos pertence. O problema não está na direita ou na esquerda, mas na prática política que vem desqualificando a saúde, a educação, a ciência e a cultura, consequentemente a cidadania. Quanto custa uma eleição e a manutenção de um parlamentar para os cofres públicos? Quando faltam recursos para a saúde pública, a educação, as pesquisas científicas, a proteção do meio ambiente e a habitação popular, sobram para as campanhas políticas. A primeira impressão que temos da política, no atual contexto, é que ela, além de ser um gasto desnecessário, é uma forma de controle do pensamento, pois confina o discurso do cotidiano aos limites dos interesses partidários. Será a democracia uma opção que não deu certo? Um país para crescer e garantir o direito de liberdade a todos os cidadãos precisa de mais ciência e cultura do que partidos políticos, de mais competência e menos militância na administração e nas decisões. Somente assim vamos pensar em solucionar os nossos problemas e garantir para a maioria a possibilidade de viver com o mínimo de dignidade. No interior de um país existem vários países, no Brasil, o país da política dominou e silenciou todos os outros. Há uma supervalorização da “fala política” que invade todos os espaços: o domicílio, o trabalho, a universidade, o espaço urbano. Também pudera, quem não gostaria de se tornar um parlamentar? Ter um belo salário e um trabalho que não exige uma qualificação profissional? Além do mais um político tem poder até para legislar sobre assuntos que escapam a sua competência. São os senhores da nação e nós, pobres eleitores, somos os seus servos. Mas tudo isso é tema para romance de analista político, não é da minha conta. “Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. Talvez não seja agora o momento para citar Wittgenstein. Acredito que o discurso político para ser democrático é imprescindível o circuito de outros discursos, como forma de desenvolver o conhecimento de nossos próprios problemas e aprofundar nossa relação com o mundo.

Delação da Odebrecht e a agonia final da Nova República

por Fernando Silva do Correio da Cidadania “Hecatombe”. “Terremoto”. “Bomba nuclear”. “Lista do fim do mundo”. Estas são algumas das expressões usadas nos últimos dias para se referir à divulgação da lista do ministro do STF Edson Fachin, em 11 de abril, em que pediu abertura de inquérito para três governadores (além de remeter 9 outros para o STJ, comprometendo 12 dos 27 governadores), 24 dos 81 senadores, 8 ministros do governo Temer e 39 deputados federais, além de dezenas de políticos dos mais altos escalões dos partidos dominantes na cena nacional nas últimas três décadas. O segundo tempo da “hecatombe” está sendo jogado na liberação dos vídeos das delações dos executivos da Odebrecht, que aumenta ainda mais o impacto e amplitude das denúncias. Está ruindo, ao que tudo indica de forma definitiva, o modus operandi do regime político “democrático” da Nova República, estabelecido pela Constituição de 1988. São trazidos a público os detalhes da corrupção aberta e escancarada nas relações empresarias com o Estado, do financiamento de campanhas eleitorais bilionárias com dinheiro desviado de obras públicas e do enriquecimento de políticos dos principais partidos e coalizões de poder – produto da relação promíscua entre partidos e políticos da ordem com as grandes empreiteiras, via pagamento de propina e favorecimento às empresas nos negócios com o Estado. O que nos diz a lista da Odebrecht Não é necessário aqui estender-se nos números, embora os valores envolvidos na casa de R$ 470 milhões em pagamento de propina, somente neste lote de denúncias da lista de Fachin, impressione. Mas o mais impressionante mesmo é a debacle do atual sistema político. Quatro ex-presidentes envolvidos, de Collor a Dilma, passando pelos mais significativos destas duas últimas décadas: FHC e Lula. Cúpulas e vários dos principais expoentes do PT, PMDB e PSDB encabeçando a lista de partidos com maior número de denunciados; 65% da base de sustentação do ilegítimo governo Temer, seu núcleo dirigente diretamente envolvido, as presidências das duas casas, ex-presidentes das casas, governadores e ex-governadores, prefeitos e ex-prefeitos. A lamentar a preservação de Temer entre os investigados, acusado de sacramentar uma doação de US$ 40 milhões da Odebrecht para o PMDB. Dada sua condição de presidente, ele não pode ser legalmente acusado até o final do mandato, condição estranha, diretamente questionada pelo PSOL, que corretamente entrou com pedido no STF para que o presidente também entre no rol dos investigados, pois as delações dos executivos da Odebrecht são muito contundentes sobre o lugar ocupado por Temer nesse banquete em que o PMDB foi dos mais esfomeados participantes. Algumas primeiras considerações Independentemente do desfecho jurídico, do ritmo das investigações e suas conveniências políticas, precisamos debater um primeiro leque de conclusões ou hipóteses (para sermos mais cauteloso) e iniciativas políticas. A primeira delas, em termos muito práticos desta sequência de tsunamis, é que se abre uma brecha enorme para tentar derrotar as reformas liberais e o governo Temer. A combinação desta turbulência com a greve geral marcada para 28 de abril coloca em questão o cenário de mudança de conjuntura, onde o protagonismo das ações massivas dos trabalhadores e trabalhadoras, sem-teto, juventude, sem-terra, indígenas pode derrotar o governo Temer e impor uma nova dinâmica, a tornar inviável a aprovação das suas reformas. Evidentemente, é uma hipótese de cenário, mas é fato que a fenda e confusão do lado de lá estão abertas e talvez não tenhamos oportunidade tão nítida para barrar as reformas. Até os analistas de mercado, segundo a própria Globo News, avaliam que a “classe política” não tem credibilidade para aprovar reformas como a da Previdência. Agrava-se também a crise de representação política tradicional, chegando ao seu ponto máximo até aqui, o que produz incertezas maiores sobre como se reorganizarão os partidos da ordem e sua institucionalidade. Vale registar que este processo teve sua primeira demonstração nas jornadas de junho de 2013. Portanto, a rejeição a partidos, instituições e à política corrupta do regime produziu um grande golpe na sua popularidade e credibilidade pela via da ação de milhões nas ruas, especialmente as camadas mais jovens da população. De lá cá para cá, em que pese a direita ter ganhado a disputa das ruas e no campo das ideias (muito ajudada pela inestimável contribuição dos rumos políticos, econômicos e éticos dos governos petistas), a degradação do regime político da Nova República foi contínua e segura, chegando agora à revelação explícita de esquemas de corrupção articulados por suas principais lideranças. Acaba qualquer vestígio de legitimidade política do governo Temer para fazer o que quer que seja de relevante em termos de medidas e votações. O que já era ilegítimo agora é inaceitável. Temer assume quando o grande Capital e suas representações políticas e judiciais chegam à conclusão de que o governo Dilma não era mais capaz de aplicar as severas reformas liberais exigidas pelo mercado e nem tirar a economia da recessão. Em que pese os governos petistas não terem sido governos de enfrentamento ao Capital, muito pelo contrário, apelou-se a um golpe parlamentar, em 17 de abril de 2016. Daquele show de horrores da votação do impeachment em rede nacional resultou um governo ilegítimo, impopular, reacionário e nos trending topics de envolvimento na corrupção. Após a divulgação da Lista Fachin, será um golpe ainda mais desavergonhado se este governo quiser impor à sociedade qualquer tipo de reforma, previdenciária, trabalhista, política ou qualquer outra. Mas se parece certo que o funcionamento do atual regime não tem como ficar mais do jeito que está, é preciso estar atento ao tipo de mudanças que podem vir no horizonte e quais seus vetores. O crescimento do ódio aos políticos e a negação da política podem favorecer saídas autoritárias, populistas de direita ou de figuras “apolíticas” por dentro dos partidos tradicionais. Como mínimo, o crescimento de candidaturas com estes perfis nas eleições de 2018 é bem previsível. Assim como devemos rechaçar saídas conservadoras, como o acordão FHC-Lula-Temer para salvar a pele de todos ou reformas desta mesma Nova República, que vai tentar se aproveitar para atacar direitos

Sobre a união das esquerdas

por Guilherme Scalzilli No cenário eleitoral de 2018, há dois setores relevantes do campo progressista: os grupos que orbitam ao redor de Lula e aqueles antipáticos à sua proeminência. Ambos os flancos são inconciliáveis, pois têm como diferencial privilegiado a figura do ex-presidente e as posturas antagônicas que ele provoca. Essas divergências espelham narrativas opostas sobre fenômenos decisivos da política brasileira recente. Uma delas envolve a natureza golpista do impeachment e o papel do PT no processo. Outra, a ideologização do Judiciário e as “excepcionalidades” da Lava Jato, incluindo o justiciamento ideológico de Lula. Autocrítica da esquerda   O conflito de versões é inevitável, assim como a cizânia resultante. A esquerda antipetista vê tantas dificuldades em se afastar dos seus apoios velados ao golpe e aos inquisidores judiciais quanto o PT em coadunar com as forças que tentam destruí-lo. Especialmente porque a discórdia está inserida numa dinâmica de responsabilização mútua pela tragédia administrativa e moral que acomete o Poder Executivo. Mas o problema tem seu lado estratégico. Depois das derrotas municipais e diante da absurda falta de quadros, o PT jamais poderia abrir mão de uma candidatura que as estatísticas apontam como a mais forte da esquerda, senão de todo o espectro partidário. Mesmo não encabeçando a chapa, Lula desfruta de uma popularidade que lhe confere status natural de liderança articuladora no seu círculo de influência. Já os demais partidos do espectro usam esse antagonista simbólico para resguardar a sua identidade programática, mergulhada em profunda crise representativa. A Rede teve quase o mesmo número de votos, no país todo, que Fernando Haddad na capital paulista. O PSOL nacional perdeu para João Doria. Marcelo Freixo para si mesmo, em 2012. Pouco resta às legendas senão evitar um confronto direto com o antipetismo que dominou os programas conservadores vitoriosos. Ou até adotá-lo. As pesquisas sobre 2018 sugerem que esse afastamento será fundamental para levar a dissidência progressista ao segundo turno. O desafio exige o enfraquecimento da candidatura associada ao lulismo e a sedução de fatias descontentes do seu eleitorado. O embate interessa também ao PT, que prefere mil vezes polarizar com um adversário abertamente conservador na fase derradeira. É inútil, portanto, esperar uma aproximação que não agrada a nenhuma das partes envolvidas. E que, sejamos honestos, apenas manteria a esquerda isolada, internamente dispersa em altercações ressentidas e centralizando ataques de todos os outros flancos. A divisão aumentará a diversidade dos questionamentos ao governo Temer, talvez resultando mais danosa à direita do que um bloco frágil e estigmatizado. Se quiserem mesmo posar de pragmáticas e expeditas, as alas progressistas podem selar um acordo pluripartidário informal, para coordenar estratégias que levem os seus membros ao máximo de cadeiras no Congresso, sem confrontos inúteis, tendo como inimigo comum o pemedebismo fisiológico. Já seria um grande avanço, e talvez o mais urgente na atual conjuntura.  Publicado originalmente no Blog do Guilherme Scalzilli.

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