Zona Curva

Política

Uma luz para você entender um pouco sobre o imbróglio político em que o país está metido.

Sobre o “caos” no Espírito Santo

por Elaine Tavares A mídia comercial tem mostrado o “caos” no Espirito Santo por conta da greve dos policiais militares. Algumas coisas precisam bem esclarecidas sobre esse movimento. Em conversa com o cabo Noé, vice-presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiros Militares do Espírito Santo, colhemos as seguintes informações. 1 – Não é uma greve de policiais. O que acontece é que as esposas e familiares dos policiais estão trancando as portas do batalhões e não estão permitindo que eles saiam. 2- Os familiares decidiram fazer isso porque é vedado aos policiais fazer greve. 3 – Os familiares reivindicam um salário melhor aos policiais e também condições de trabalho. Hoje o salário médio é de 2.750 bruto, e é o pior salário do Brasil. No Espírito Santo eles estão sem ganho real há sete anos, e desde há três anos sequer têm reajuste da inflação. A situação é de penúria. 4 – Não bastasse a falta de salário, os policiais são obrigados a trabalhar enfrentando riscos cotidianos sem as condições para sua proteção. Os coletes a prova de bala estão vencidos, e os que estão na validade precisam ser usados em sistema de rodízio. Um veste a proteção e outro não. A sorte define quem vive. 5 – As perdas salarias chegam a 45%, mas a Associação dos Praças alega que um reajuste de 10% já poderia abrir uma negociação. Ainda assim o governador Paulo Hartung, que é do PMDB, se nega a negociar. 6 – A postura do governador é descrita como “imperial”. Segundo os policiais eles preferem morrer a ceder. 7 – Por outro lado, os policiais e suas famílias já estão morrendo e tampouco estão dispostos a seguir assim. 8 – Se hoje o estado vive um caos, com criminosos nas ruas, tiroteios, sequestros, roubos de carro, saques, a responsabilidade deve ser dada a quem de direito: o governador e sua política de arrochar os trabalhadores em vez de cobrar as dívidas do empresariado local. Como sempre, o argumento para manter o salário baixo e não garantir a segurança dos soldados é a falência financeira do estado. Como sempre, pagam os trabalhadores. Publicado originalmente no Blog Palavras Insurgentes. Greve contra o golpe  

Austericídio e desemprego

por Paulo Kliass *, da Agência Carta Maior O mês de janeiro começa a se despedir, mas não sem perder a oportunidade de oferecer ao conjunto de nossa sociedade uma nova leva dos péssimos números a respeito do desempenho da economia brasileira. Os responsáveis pelo governo bem que tentam ensaiar uma ginástica retórica para tentar justificar o que não conseguem. E dá-lhe blábláblá a respeito da chamada “herança maldita” que teriam recebido dos governos anteriores ou a conhecida derrapada pela direita, esquecendo o momento atual e apontando para esperados cenários futuros de “despiora”. Sim, pois os brasileiros somos mesmo incomparáveis na criação de neologismos para fugir do enfrentamento da realidade concreta em que vivemos. Enfim, no entender de alguns ‘especialistas” deveríamos nos contentar pois se ainda não melhorou, ao menos já teria deixado de piorar. Sic! Nessa inglória tarefa, o Palácio do Planalto e a turma da equipe econômica sempre recebem um empurrãozinho – que não pode ser negligenciado em hipótese alguma! – dos seus comparsas dos grandes meios de comunicação. Afinal, todo mundo havia recebido uma apólice de seguro inquebrantável. De acordo com tal garantia, bastaria derrubar a Dilma e substituir os responsáveis da área econômica por uma equipe técnica e competente. Em resumo, pleiteavam a instalação plena da fina flor do financismo no poder, desta vez sem maiores intermediários. E pronto! A partir de então, a fadinha mágica das expectativas se encarregaria de colocar o país nos eixos. Ocorre que o jogo da política econômica é muito mais complicado do que imaginavam os golpistas de plantão. A opção pela política do austericídio já vinha sendo implementada muito antes da votação definitiva do impeachment. Não nos esqueçamos de que Dilma havia nomeado Joaquim Levy para comandar o Ministério da Fazenda em seu segundo mandato. Ao romper com os compromissos assumidos durante a batalha eleitoral de outubro de 2014, ela caiu na triste ilusão de que poderia convencer a elite empresarial e política de sua nova disposição. Ou seja, a suposição de que poderia fazer o serviço sujo e se manter no poder a qualquer custo. Resultado do austericídio em ação Forçar a barra pela via da manutenção da política monetária arrochada e, simultaneamente, promover uma política de contenção fiscal acentuada só poderia dar no que deu. É o caminho para o suicídio político, social e econômico pela via da austeridade. Taxa de juros nas alturas combinada a cortes orçamentários draconianos empurrou o Brasil na ladeira abaixo da recessão e da estagnação econômicas. Essa, aliás, era a única receita oficial dos neoliberais sedentos por sangue para promover o sacrossanto “equilíbrio”. Seus porta vozes não se cansavam de afirmar, sem o menor pudor nem constrangimento, que o país necessitava reduzir a demanda por todos os meios, pois estaríamos vivendo acima de nossas capacidades. E assim procederam. A redução do ritmo da atividade econômica era uma condição desejada, um objetivo a ser alcançado. Um crime premeditado. A consumação do golpeachment acelerou esse processo, uma vez que a dupla colocada por Temer no comando da economia contava com todo o apoio do establishment empresarial. Assim, foram mais sinceros e autênticos na condução do desastre. O ex-presidente do Bank of Boston e o diretor do Banco Itaú passaram a ditar as regras da política econômica. A obsessão com a obtenção de cortes expressivos nas despesas públicas foi levada ao extremo, ao passo que a suposta “neutralidade técnica” do BC para a política monetária significou a manutenção da SELIC nas alturas. A situação só começou a mudar um pouco a partir da virada do ano, quando até mesmo os dirigentes políticos do campo conservador começaram a sentir a pressão de suas bases por mudança na orientação recessionista. E tem início, a partir de então, um jogo desesperado de caça por boas notícias no front da economia. Tarefa inútil. O jogo já estava em andamento na direção do precipício. A ponte para o futuro transformara-se na pinguela instável da travessia destemperada. Ginástica retórica da grande imprensa. Os garimpeiros de informações alentadoras viram-se obrigados a se contentar com a métrica do “pelo menos deixou de piorar tanto”. Como justificar que a tão prometida mudança nos rumos da economia não deu o ar da graça nem mesmo após a chegada da nova equipe, supostamente tão técnica e competente? A grande imprensa nunca teve tanto trabalho para dourar uma pílula que insiste em revelar o tamanho da desgraça em que estamos afundados. A dívida pública continua batendo todos os recordes; ah, mas diminuiu a percentagem de crescimento do endividamento. A taxa real de juros e os custos ao tomador de empréstimos estouram os limites a cada dia; ah, mas a SELIC foi reduzida. O ritmo da atividade econômica segue sendo negativo em todas as abordagens e setores; ah, mas a cada semana se aposta que “finalmente chegamos ao fundo do poço”. O déficit fiscal para 2016 bateu todos os recordes históricos; ah, mas agora vai melhorar. E por aí vão firmes, sempre na defesa do indefensável. Um dos aspectos mais dramáticos do austericídio em ação é o desemprego. Normalmente tratado pelos economistas de planilha como “apenas” um número a mais, essa postura procura esconder o quadro social e político de famílias inteiras deixadas ao mais puro abandono. Ora, se a recessão é mesmo uma necessidade, a perda dos postos de trabalho e da renda daí derivada não é mais do que mera contingência. Nada tão sério ou preocupante assim, pois as próprias forças do livre mercado encarregar-se-ão de promover a justiça e nos encaminharão ao novo equilíbrio. Os números divulgados há pouco pelo IBGE são alarmantes. O ano de 2016 fechou com um desemprego médio de 11,5%. Isso significa que 12,3 milhões de cidadãos estavam sem posto de trabalho e sem a remuneração associada à atividade laboral. Esse dado escancara a triste realidade de que já são mais de 30 milhões de pessoas atingidas por tal quadro de elevada gravidade. Some-se a tal situação a redução significativa nas verbas públicas destinadas à assistência social, ao auxílio desemprego, à

A utopia, a esperança e o jornalismo

por Elaine Tavares Se existe algo que tira totalmente a esperança de alguém é a leitura dos jornais, revistas semanais ou noticiários de TV. Vê-se de tudo, menos jornalismo. Esse é um fazer que se desintegra no universo da propaganda e do incensamento do sistema capitalista de produção. O que fazem os meios de comunicação comerciais é o falseamento da realidade, escondendo-a, ou então a invenção de um presente/futuro a partir da mentira. Quem não se lembra das “armas químicas” do Iraque, que levaram a uma guerra e à destruição completa de um país? Os meios inventam realidades que, depois, se fazem reais de verdade. Por isso não é nada fácil, nos tempos atuais, falar em esperança ou utopia. Diante do niilismo que impera no mundo, fica quase risível insistir em ideias tão dinossáuricas. Mas o ponto de vista deste ensaio é sempre o da realidade da maioria da população e é para ela que nos propomos a fazer jornalismo, o de verdade, o que já é uma utopia em si. Neste sentido, compreendendo que a vida real se tece na trama desses dois fundamentos (utopia e esperança), insistimos nos conceitos, tentando vislumbrar alguma coisa nova, que torne o jornalismo ainda uma atividade possível e necessária. Teixeira Coelho, no seu pequeno livro O que é Utopia começa com uma assertiva que julgamos capital: um dos traços que caracteriza o humano é a esperança. Ele deixa bem claro que ter esperanças não é meramente sonhar, é, isso sim, usar a imaginação utópica. “Ela não é delirante nem fantástica. Parte de fatores subjetivos, mas guia-se por fatores objetivos”. Segundo o autor, a imaginação utópica é um projeto, algo que se lança lá na frente para seguir o rumo de sua construção. Para Coelho, é necessário que se pense de forma muito carinhosa acerca dos mitos que sempre estiveram presente na história humana camuflados de religião, tais como a “terra sem males” e o “paraíso”, pois eles continham, e ainda contém elementos básicos do desejo de uma vida melhor. No plano das ideias, fora do juízo religioso, o autor diz que o primeiro projeto utópico foi A República, de Platão. Na cidade dos homens imaginada pelo filósofo, o fundamento era uma vida ideal. Depois, Thomas More, com sua ilha Utopia, falava de um lugar em que todos trabalhavam para todos e o faziam apenas por seis horas. “Naqueles tempos isso era uma ilusão (o trabalho por seis horas). Hoje é? Isso é imaginação utópica!” Teixeira Coelho também lembra que a utopia nem sempre é uma coisa boa, existem desejos que caminham para o totalitarismo, a barbárie, como o que acontece com o Admirável Mundo Novo ou 1984, na ficção, e o Nazismo e o Stalinismo, na política real.  Por isso, vê a necessidade de impor dois conceitos no gênero utopia, que divide em eutopia (lugar bom) e a distopia (lugar mau). Segundo ele, os primeiros traços da utopia vieram com os movimentos messiânicos que, em nome de Deus, reivindicavam vantagens sociais muito vagas visando garantir apenas o presente. O alemão Ernst Bloch vai relatar uma dessas manifestações da utopia na história do líder religioso e revolucionário alemão Thomas Münzer, mas certamente não concordaria que seus ideais seriam “garantias sociais vagas”. Naqueles dias, no limiar de 1500, Münzer vivia numa sociedade em que os príncipes exigiam dízimos insuportáveis, os camponeses eram barrados nas cidades, havia muita miséria e opressão. Isso provocou nele o desejo de uma sociedade em que o homem não fosse mais lobo do homem. Levou ao impulso de Justiça e à vontade impaciente de entrar no paraíso, provocou a revolução. “A luta não foi só por melhores dias mas para alcançar o fim de todos os dias”, diz Bloch. A luta que estremeceu a Alemanha daqueles dias tinha sua carga de imaginação utópica. Havia o “sonho” de voltar à liberdade do mundo comunista-cristão. Havia um “lá na frente” muito bem delimitado e possível. E mesmo depois de esmagada a revolução e assassinado o seu principal mentor, Münzer, sua negação do real injusto continuou ecoando tão atual quanto em 1500. “Enquanto os sem-nome estiverem perdidos na miséria, não pode haver descanso”, dizia. Bloch lembra que, para Münzer, o homem que chegasse ao fundo do abismo, na mais absoluta descrença e desespero, esse devia subir, tornar-se livre em Cristo, a partir da imaginação utópica. “Só na mais profunda escuridão canta o rouxinol”, vaticinava. E finaliza a história da revolução utópica de Münzer dizendo que ela não foi em vão e que “por cima das ruínas e das esferas culturais arrasadas desse mundo, brilha altaneiro o espírito da indescaraterizável utopia”. Mas se até o tempo de Münzer a utopia era só um lugar mítico, a revolução francesa inaugura outro olhar e passa a ser um lugar no futuro, possível de construído pelo homem. Um lugar novo, filho da revolução. Não mais o “paraíso”, mas um espaço de justiça, como lembra Teixeira Coelho. Séculos mais tarde o programa socialista/comunista radicaliza o conceito e torna o futuro historicamente determinado pela mão dos trabalhadores, que, a partir de um processo o fariam acontecer. Teixeira Coelho acredita que o mundo caminha atualmente para a distopia (lugar ruim) e que a desilusão tende a se instalar. Ele deixa claro que o que está morrendo não é a utopia em si e sim a utopia exclusivamente política. “Mas a imaginação utópica não se limita a isso”, insiste. Vale lembrar que ele escreveu seu livro em 1981, longe das mudanças drásticas que o mundo viveu ao final da década de 80 e daí para frente, mas seu argumento continua válido. Mesmo diante das profecias de fim da história, fim das ideologias etc, há um excedente utópico que está para além da política, capaz de romper as muralhas e abrir caminhos para uma humanidade reconciliada. Aí está a esperança! Pierre Furter, no seu livro Dialética da Esperança, escrito em 1974, traz toda a argumentação do filósofo alemão Ernst Bloch sobre essa palavra tão tripudiada nos tempos pós-modernos: a esperança, que de

Até a ONU alertou, mas a PEC do Fim do Mundo foi aprovada

por Fernando do Valle No final da semana passada, o relator da ONU para extrema pobreza e direitos humanos, Philip Alston, alertou que a PEC 55/241 (ou PEC do Fim do Mundo) era uma medida “radical e sem compaixão que iria atar as mãos dos futuros governantes e teria impactos severos sobre os brasileiros mais vulneráveis, além de constituir uma violação de obrigações internacionais do Brasil”. De nada adiantou, a PEC 55 foi aprovada por 53 votos a 16 na segunda votação do plenário do Senado hoje. Segundo pesquisa Datafolha realizada com 2.828 pessoas entre os dias 7 e 8 de dezembro, 60% dos brasileiros são contrários ao projeto. Apenas 24% se mostraram favoráveis, 4% se disseram indiferentes e 12% não souberam responder. A votação que aprovou a PEC aconteceu na hora do almoço e no final da tarde de hoje milhares de manifestantes foram às ruas em protestos previamente agendados pelas redes sociais. Em Brasília, o vídeo do The Intercept Brasil  mostra que a repressão começou antes de seu início. A polícia atirou bombas de gás lacrimogêneo além de revistar todos os carros que entravam na área cercada da Esplanadas dos Ministérios. Os manifestantes reagiram queimando pneus, inclusive um ônibus foi incendiado. Em São Paulo, a manifestação foi agendada às 17h na Praça do Ciclista no final da avenida Paulista. Por volta das 19h30, manifestantes quebraram a fachada da Fiesp. Assista ao vídeo dos Jornalistas Livres.  Leia texto do professor Pablo Ortellado que aponta como a PEC beneficia os ocupantes do andar de cima da pirâmide social brasileira.  Bombas e mais bombas da polícia na manifestação em Brasília: A PEC 241 é ponte para a dor O Rio Grande, os trabalhadores e o capital

É necessário resistir à Cruzada anticorrupção

por Guilherme Scalzilli Enquanto a esquerda brasileira busca novas agendas e programas, o tema da corrupção vem ganhando protagonismo cada vez maior nos seus debates. Vejo essa tendência com perplexidade e desalento, pois a considero um erro conceitual e estratégico grave, que pode mesmo inviabilizar a sobrevivência do progressismo organizado no país. Chamo doravante de Cruzada o amplo repertório subjetivo que acompanha a pauta anticorrupção nos moldes atuais. O termo abarca tanto o viés místico da plataforma quanto seu imaginário bélico, ambos tendo como principal símbolo a operação Lava Jato, apesar de não restritos a ela. A qualificação busca espelhar também o uso sectário do programa, o hábito de desqualificar seus críticos por suposto apoio a alas “infiéis”. Logo de saída notamos que o espírito da Cruzada guarda uma contradição insanável: precisa ser inflexível na propaganda, mas tolerante na aplicação. Levada a purismos extremos, ela jamais daria conta das minúcias irregulares da vida social, das instituições públicas e do setor corporativo. Por outro lado, admitindo sua inviabilidade prática, perde o sentido isonômico e universalista que a justifica, ou parece justificar. Considerando que as próprias infantarias cruzadas sucumbiriam ao rigorismo total, apela-se para uma relativização seletiva. O alvo então se restringe à demonizada classe política, mais especificamente ao “outro” malfeitor que não desfruta das simpatias ocasionais dos fiscalizadores (partidárias, religiosas, performativas). E é exatamente esse farisaísmo que termina por arruinar os bons propósitos da empreitada. Como na obsoleta “guerra”contra as drogas, o falso “combate” da Cruzada se resume a um ciclo vicioso de fracassos que geram novas medidas de exceção, cujas derrotas servem de pretexto para mais arbítrio. Ora, não faltam leis. Mesmo às vezes desatualizada, a legislação brasileira é suficiente. O verdadeiro problema da corrupção, a impunidade, nasce nas instituições que mais defendem o aperto regulatório e os extremos punitivos. O único resultado prático da radicalização legal é empoderar tais setores, essencialmente antidemocráticos, eles próprios corrompidos, privilegiados e impunes. O esforço para impedir que o decálogo saneador se estendesse ao Judiciário exibiu, mais do que apego à blindagem corporativista, o reconhecimento das prerrogativas arbitrárias em disputa. A Cruzada é, portanto, um construto ideológico. Uma âncora discursiva presa a memórias e práticas sociais incompatíveis com qualquer plataforma libertária. Sua negatividade substancialista mobiliza intolerância, medo, castigo. O aplauso a polícias e justiceiros togados embute uma potência desejosa de “vigiar e punir” (pobre Foucault) que permeia as vias mais arcaicas de opressão. Elas precisam ser extintas, não generalizadas. Mas, convenhamos, os sinais estavam claros já nas manifestações pelo impeachment, com seus grupelhos fascistas, seus policiais-modelo, seus bonecos enforcados, suas apologias militares. E continuam óbvios em grampos ilegais, vazamentos clandestinos, delações manipuladas, denúncias vazias, humilhações de réus, vendetas escusas, todo um rol de “excepcionalidades” inconstitucionais que chocavam os progressistas de antanho. Do ponto de vista estratégico, a pauta da Cruzada não é ruim para a esquerda porque moralista, embora algumas de suas vertentes talvez mereçam o adjetivo. É ruim porque simplória, vetusta, agressiva, com cheiro de elite “cansada”. E porque jamais conseguirá se desvencilhar do ódio pela democracia representativa, do ressentimento contra o eleitor, da mesura à autoridade e do menosprezo por ritos e direitos. Se existe um meio libertário e inclusivo de abordar o imenso problema da corrupção sem instrumentalizá-lo ideologicamente, o trajeto é inverso: valorizar a representação política, a constitucionalidade, a isonomia judicial, a transparência institucional ampla e irrestrita. Principalmente no Poder Judiciário, que, repito, sempre foi a grande fonte da impunidade e agora finge ser vítima dos seus beneficiários. Pesquisas de opinião monotemáticas ou realizadas no calor da polêmica servem para aferir o poder dos cruzados midiáticos, não uma tendência que a sociedade teria se o debate público fosse de fato amplo e informativo. Aliás, mesmo o aval majoritário da população pode ser questionado. Ou será que a desculpa do acolhimento ao anseio popular valeria também para a defesa da pena de morte? Para a criminalização do aborto? Adotar a Cruzada representa um oportunismo contraditório com as críticas desferidas às alianças espúrias do PT. E uma repetição do seu pragmatismo suicida: o fortalecimento de alas retrógradas que não hesitariam em aplicar o legalismo tendencioso à esquerda adesista ou em absorvê-la, gerando facções moderadas nas franjas de uma coligação conservadora hegemônica. Todos apaziguados pela causa comum. Algumas tropas já se voluntariam para o sacrifício. São as seitas do esquerdismo antipetista mais radical, atraídas pela Cruzada apenas porque o PT denuncia seus métodos. Incapazes de superar a mal resolvida crise edipiana com Lula, aninham-se no colo maternal da Justiça, esperando que ela os satisfaça através do sacrifício expiatório do antigo líder. E brandindo a retórica policialesca na falta de outra que a substitua. É óbvio que esse lacerdismo cor-de-rosa está restrito a uma verborrágica porém diminuta minoria, que não se dá sequer ao trabalho de explicar suas contradições sem recorrer ao antipetismo como selo autolegitimador. Observando o campo progressista para além das bolhas digitais, vemos uma ampla constelação de valores, desejos e narrativas que poderiam levar a pauta da corrupção a patamares menos inconsequentes. As promessas redentoras e paradisíacas da Cruzada parecem tentadoras porque a suposta falta de perspectivas (também ela um subproduto da ideologia judicial) empurra a militância para os confortos inerciais do discurso único. Basta que ele seja desarticulado, mostrando a intolerância, a desigualdade e o autoritarismo da sua nudez obscurantista. Aí a esquerda encontrará sua pauta, articulada não em torno da adesão, e sim da resistência. Publicado originalmente no Blog do Guilherme Scalzilli. Vamos falar de corrupção?  

É possível sair da crise?

por Paulo Kliass* – da Agência Carta Maior Ao longo dos últimos meses os meios de comunicação passaram a utilizar, de forma mais recorrente, uma analogia originária da meteorologia para descrever as difíceis condições por que passa a economia brasileira. Na verdade, o movimento de empréstimo da noção de “tempestade perfeita” para explicar os movimentos no âmbito da economia já vinha sendo experimentado na imprensa em outros países ao longo desse início de milênio. Foi assim no caso da eclosão da crise econômica e financeira em 2008 nos Estados Unidos e sua irradiação para o espaço europeu. A analogia também foi largamente usada no caso mais recente da decisão da Grã Bretanha de sair da União Europeia, o chamado Brexit. De forma geral, a imagem se revela bastante adequada para explicar momentos e conjunturas em que uma série de fatores se combinam para agravar uma tendência já crítica em sua própria essência. O quadro mais recente da economia e da sociedade brasileiras se encaixa quase como uma luva nesse modelo explicativo. Alguns chamam de “crise geral”, outros preferem “crise sistêmica”, outros ainda ficam com a ideia de “combinação de crises”. Mas o fato concreto é que atravessamos um momento de extrema dificuldade, onde a coincidência e a retroalimentação entre os diferentes fatores só fazem aprofundar a gravidade da crise. Primeiros sinais vêm de longe As primeiras sinalizações de “anormalidade” na dinâmica econômica remontam a 2014, quando as notícias da área fiscal já apontavam para problemas no equacionamento das contas públicas tal como vinha sendo feita desde 2003. No entanto, desde lá Dilma havia sido convencida de que a solução para tal descompasso pontual entre receitas e despesas seria um ajuste de viés conservador, com metas de redução de gastos na área social e desonerações tributárias a rodo para o capital sem controle nem contrapartida. Com a política monetária mantendo a SELIC na estratosfera, não havia meio de se promover a recuperação dos investimentos. Com a vitória nas eleições de outubro, por alguns dias se manteve aceso o sonho do coração valente, mas que rapidamente se derreteu no tristemente conhecido episódio do estelionato eleitoral. A presidenta reeleita chama Joaquim Levy para comandar a área econômica e passa chamar de seu o programa de governo da turma que havia sido derrotada nas eleições. O austericídio se consolida como estratégia oficial para superar as dificuldades da economia e com isso os resultados vão no sentido contrário, tal como nove entre dez economistas sinceros havíamos alertado desde o início. Os cortes no orçamento pela lógica da armadilha do superávit primário esmagam qualquer possibilidade de recuperação da atividade econômica. A inflação não cede, a SELIC continua nas alturas, os gastos orçamentários com pagamento de juros da dívida atingem a cifra de R$ 540 bilhões em 12 meses. A compressão das despesas se mantém nas áreas sociais e nos investimentos públicos. A recessão começa a se demonstrar nas estatísticas do IBGE e o desemprego vai campeando por todas as regiões e setores. Uma vez consolidado o golpeachment, a mudança de governo reforça ainda mais o garrote do ajuste conservador, com a entrega do comando da economia de Temer ao candidato preferido de Lula para 2015: Henrique Meirelles. O banco Itaú se vê representado na presidência do Banco Central, na figura de Ilan Goldfajn. A direção geral do ajuste não se altera em termos essenciais. A proposta de corte de gastos gestada ainda sob o comando de Dilma é recuperada e “aperfeiçoada”, transformando-se na versão ainda mais maldosa da ex PEC 241, atual PEC 55. Crise: econômica, política, social, institucional Em paralelo a toda esse festival de incompetências e perversidades das sucessivas equipes econômicas, a crise política vai ganhando contornos igualmente dramáticos. Esse rolo compressor vem ainda da época da aprovação do impeachment, que se efetuou sem que nenhuma prova de crime de responsabilidade tenha sido apresentada. Os exageros jurídicos e policiais envolvidos na Operação Lava Jato contribuem para contaminar a atmosfera de casuísmo das decisões adotadas em todas as esferas e poderes da administração pública. Trata-se da seletividade do Poder Judiciário, do Ministério Público e das próprias forças policiais no trato das manifestações públicas. A crise institucional adquire cores dramáticas. Ela se expressa nas disputas duras entre representantes dos Poderes da República, com interferências quase cotidianas de uns nas esferas de outros. A crise federativa também se agrava a cada instante, com decretação de calamidade financeira em alguns Estados e as dificuldades que serão ainda mais crescentes nos municípios, que estarão sob novo comando a partir do início do ano que vem. Em todas as situações, a crise econômica se confunde e se entrelaça à crise política. O aprofundamento e persistência da conjuntura recessiva se articulam com redução de despesas na área social, acentuando ainda mais a gravidade do quadro geral, com desemprego e aumento da desassistência social. A fadinha mágica das expectativas não cumpre o prometido de que bastaria derrubar Dilma e colocar o financismo em estado puro no comando da economia. Faltou apenas alertar aos mais desavisados que a retomada do crescimento depende muito mais de outros fatores objetivos do que unicamente da subjetividade otimista do “agora vai!” O arco de alianças apoiando o golpe desde o início vai sendo reduzido aos poucos e os sucessivos escândalos de corrupção de personagens nucleares do governo Temer também operam como complicadores para se atingir algum tipo de estabilidade tão desejada pelos putschistas. Os conflitos entre os três Poderes da República vão sendo acentuados e a agenda política encontra dificuldades para evoluir como imaginada pelo Palácio do Planalto. Ao que tudo parece indicar, aos poucos vai caindo a ficha para vários setores empresariais de que houve mesmo estelionato golpeachmental. Prometeram terreno na Lua e não estão conseguindo entregar a mercadoria. O pato da FIESP começa se sentir incomodado. Os manifestantes direitistas de verde amarelo encontram-se igualmente órfãos e procuram esconder as fotos que tiraram sorridentes ao lado de Cunha, Temer, Renan i tutti quanti. Agora apegam-se à figura de um juiz de primeira instância, Sergio Moro,

A cidadania criminalizada

por Guilherme Scalzilli As figuras antipáticas e impopulares de Anthony Garotinho e Sérgio Cabral embotam os significados de suas prisões. Mas a identidade dos personagens (e até sua inocência) tem pouco a ver com o aspecto mais preocupante dos episódios: o exibicionismo punitivo esvaziado de conteúdos jurídicos ou morais. A banalização do encarceramento, a humilhação pública dos réus, a pantomima da soldadesca, a verborragia agressiva dos procuradores, eis que o teatro “excepcional” da Lava Jato vai sendo naturalizado, virando uma rotina de atitudes extremas desnecessárias. Esse costume só existe graças ao limitado leque partidário da operação. Sua isonomia negativa espelha o recorte originalmente desigual, que também explica a tolerância que a operação desfruta na cúpula do Judiciário. Se tratamentos indignos pudessem atingir lideranças do PSDB, o precedente seria cortado na primeira tentativa. O padrão temerário da Lava Jato evidencia uma peculiar desconfiança nos ritos processuais. As cortes inferiores e as autoridades policiais parecem querer castigar os indiciados antes que se defendam, exorbitando o prejuízo para que ele fique irremediável mesmo no caso de absolvição. Preferem tolher direitos ao risco de impunidade. Há quem considere tais direitos “privilégios”, alegando que fogem às práticas vigentes. Assim opera o que chamei de “malufismo jurídico” (abusa mas prende), um raciocínio de fachada solidária que parte das violações cotidianas sofridas por negros e pobres para chegar à tolerância com as violações praticadas contra ricos e brancos. Em vez de se rechaçar quaisquer formas de injustiça, defende-se generalizá-la. A metáfora bélica do “combate” à corrupção explica o tom raivoso dos seus apologistas. Mas não é outro o espírito do crime organizado, nem o da polícia assassina. Em comum, a ideia de que o exercício pleno da cidadania configura um obstáculo, uma veleidade burguesa ou, pior, um subterfúgio de malfeitores. E a narrativa guerreira é sedutora. A glamourização midiática alimenta a ostentação repressiva gratuita, que alimenta o gozo obsceno com o sofrimento de Garotinho, Cabral e outros réus. O apelo sensacionalista supre a falta de motivos para os requintes autoritários e desmoraliza, ou inibe, eventuais medidas recursivas que venham repará-los. O comando da Lava Jato sempre buscou exatamente isso: saciar a psicose vingativa do público, instrumentalizando o espetáculo do justiciamento precoce em troca de uma popularidade que imponha as “convicções” dos acusadores. Quando fizerem o mesmo com Lula, por exemplo, todos ficarão satisfeitos e conformados. Tipicamente fascista, o punitivismo demagógico não é apenas um sintoma da falência dos valores da democracia representativa. É, acima de tudo, elemento agravador do problema. O apoio da sociedade nunca legitimou fenômenos dessa natureza; pelo contrário, abriu caminho para tragédias históricas. Já devíamos ter aprendido a evitá-las. Texto publicado originalmente no Blog do Guilherme Scalzilli.

Independência ou golpe!

por Marceu Vieira  Como muitos amigos que se posicionaram no Twitter ou no Facebook, ou nas conversas da vida real no botequim, eu também não comemorei nem achei engraçada a cena do Garotinho se debatendo numa maca de hospital público, resistindo a entrar na ambulância rumo ao presídio Bangu 8, enquanto a filha Clarissa, desesperada, gritava: “Meu pai não é bandido! Meu pai não é bandido!” O que eu senti foi tristeza. Senti também, confesso, um certo temor pela normalidade institucional destes trópicos, que andam tão tristes, com o desemprego deixando sem renda e sem sustento quase 13 milhões de famílias. Esta terra adorada, pátria amada, idolatrada, salve, salve, onde ainda me sinto responsável pelo futuro de três filhos e de uma “linda Rosa juvenil”, cujo nascimento está previsto pra 2017. O que será 2017? Garotinho, ao contrário do Cabral Filho, não enriqueceu na política e teve emprego formal antes do seu primeiro mandato como vereador de Campos. Foi preso agora porque distribuiu cheque-cidadão a miseráveis em troca de voto. Mas já poderia ter ido pra cadeia antes. Porque, desde a primeira eleição pra vereador de Campos, quando era radialista, é assim que ele opera. Dava dentaduras e cadeiras de rodas em troca de voto. Quem não sabe disso? Talvez só a Rosa, que ainda não nasceu. Se desde Cabral, não o político, mas o navegante, os valores universais de Justiça fossem tomados à risca no Brasil, é possível que não houvesse cadeia suficiente pra prender tanto político desonesto. Aliás, Cabral nem eleito teria sido – agora não o navegante, mas o político mesmo. Em Brasília, talvez não houvesse tantos camburões pra conduzir do Congresso Nacional até a prisão todos os deputados e senadores com contenciosos na Justiça. Nem vaga de estacionamento bastante haveria no entorno da Câmara e do Senado pra tanta viatura da Polícia Federal. Por que não se prendeu o Garotinho já na sua primeira campanha, se trocar voto por esmola sempre foi a prática de políticos miúdos como ele? Por que não se prendeu antes o graúdo Cabral, se até a vendedora da joalheria onde o empreiteiro Cavendish comprou o anel de R$ 800 mil pra primeira-dama e até os operários que demoliram e reconstruíram o Maracanã, o nosso Maracanã, já sabiam das suas “tenebrosas transações” (com a licença do Chico Buarque)? Por que se demorou tanto pra prender o Eduardo Cunha? Talvez a Dilma não caísse, e o Brasil só estaria ruim, como já estava, e não insondável como agora. Movido por sua pequenez vingativa, e pra satisfazer a histeria de uma elite apodrecida e de uma classe média ressentida e egoísta, um deputado que hoje está preso pelos mais bárbaros crimes de corrupção jogou o Brasil nesta crise – ajudado, claro, pelas fanfarronices de alguns petistas. Ele, o deputado, comandou um processo quase sumário de impeachment e pôs no lugar de uma presidente legitimamente eleita por 54,5 milhões de brasileiros, e até prova em contrário honesta, um vice sem recheio e sem voto e também com muitas explicações a dar à Justiça. Este vice é do partido do deputado preso. É do partido do Cabral. Do partido que, até outro dia, era também o do Garotinho – que, aliás, não faz muito, era amigo de todos eles. Sobretudo, do deputado preso. Este partido, se ainda não é possível ligar o nome à pessoa, é o PMDB – e é nele que, segundo a papelada do próprio juiz Moro, está o ninho principal dos cupins demolidores do Brasil. E, assim, desde Cabral (mais uma vez o navegante, não o político), o país do Garotinho, do Eduardo Cunha, do Temer e do outro Cabral (agora de novo o político, não o descobridor), o país do PMDB, enfim, este país segue movido a golpes – o golpe genocida na identidade indígena, dizimada pelos colonizadores; o golpe na índole africana com a escravidão de sua gente, trazida pra cá acorrentada pra ser olhada até hoje de modo diferente pelos descendentes do branco europeu; o golpe de Pedro I ao dissolver a Assembleia Constituinte em 1824 e outorgar uma Constituição preparada por dez servos das vontades dele; o golpe civil da maioridade incauta de Pedro II, aos 14 de idade, em 1840; o golpe militar do marechal Deodoro, que derrubou o mesmo Pedro II, ali já idoso e democrata, ele, um carioca de nascimento arremessado ao exílio aos 64 anos, em 1889, quando se instalaram no Brasil as ditas e as desditas da república em vigor até hoje. Os golpes contemporâneos, de lá pra cá, estão mais fixados na memória coletiva – e o último, aquele que pra uma metade do Brasil não foi, enquanto pra outra foi, este ainda está em curso e vai nos levar aonde já não sabemos. O surto do Garotinho na ambulância e os gritos desesperados da filha dele não dão a resposta. Os milhões tungados e a falta de reação do Cabral, não o descobridor do Brasil, mas o quebrador do Rio, empanam a vista pro futuro. Dá saudade, se é este mesmo o nome do sentimento, do que teria sido o Brasil sem o golpe original da República contra Pedro II. Dá saudade de sei lá. Dos discursos do Brizola, quem sabe. Da vitória do Lula em 2002. Da esperança que venceria o medo. Dos comícios de antigamente com o velho Prestes na Cinelândia – e antigamente foi outro dia. Faz lembrar um quadro do programa “Tá no ar”, do Marcelo Adnet e do Marcius Melhem, em que o primeiro, caracterizado como Pedro I, cavalgando num descampado, para com seu cavalo ao encontrar o segundo, no papel daquele personagem do comercial dos Postos Ipiranga, e pergunta: – Ô, amigo! Sabe onde eu posso declarar a Independência do Brasil por aqui?! E o personagem do Melhem, depois de uma pausa, responde: – Sei não… Mió cê perguntar ali nas margens do Ipiranga. Publicado originalmente no Blog do Marceu Vieira. Nada como um dia após o outro O Brasil vai vivendo o golpe

A caixa de surpresas de Trump

por Frei Betto Nero pôs fogo em Roma; Hitler na Europa; e pode ser que Trump venha a incendiar o mundo. Não sou fã de Hillary, mas a considerava menos pior. Por conhecer bem os dois candidatos é que quase metade do eleitorado dos EUA se absteve. Como desmiolado, predador sexual, racista e xenóbofo, tudo se pode esperar de um biliardário, dono de cassino, que jamais ocupou qualquer função política. Até que não cumpra suas ameaças de campanha, como a de construir um muro na fronteira de seu país com o México, como se isso fosse evitar a entrada de novos imigrantes. O fato é que os pobres votaram em Trump. Porque Obama não cumpriu quase nenhuma de suas promessas. E por que imigrantes latinos que vivem nos EUA deram preferência a ele? Porque muitos votam de olho no próprio umbigo. Temem que a chegada de novos estrangeiros possa roubar-lhes os postos de trabalho. Em 2017, Trump vai dispor de um orçamento de US$ 583 bilhões para despesas militares. O suficiente para erradicar a fome no mundo e resolver o drama dos refugiados que aportam na Europa. Mas com certeza o novo presidente estadunidense não está preocupado com os males que afetam os pobres do mundo. Como declarou ao vencer, quer dobrar o PIB dos EUA. E, na campanha, incluiu entre seus arroubos xenófobos a promessa de que fará as tropas de seu país abandonarem os conflitos externos. Esta seria uma boa medida. Os EUA possuem uma tropa de 1 milhão e 492 mil homens e mulheres, e mais 1 milhão de reservistas prontos a uma eventual convocação. A soma de seus drones, navios de guerra, porta-aviões, tanques, blindados, canhões e mísseis (7 mil ogivas nucleares) supera o conjunto de arsenais das outras quatro maiores potências militares: China, Reino Unido, França e Rússia. A esperança dos eleitores de Trump é que ele aplique mais recursos no combate ao desemprego, nos serviços de saúde e reaqueça a economia interna. Pode ser que, num gesto de lucidez, ele reduza o orçamento militar para tentar passar à história como o presidente que tirou os EUA da recessão. Hoje, a classe média estadunidense tem renda muito inferior à que tinha na década de 1980. Felizmente, Tio Sam não é dono do mundo. Há um equilíbrio que o obriga a levar em conta a China e a Rússia. Dizem que Trump e Putin se entendem… O fato é que o magnata-presidente já elogiou o controle que Putin tem sobre a Rússia. E deu a entender que os EUA não têm nenhum obrigação de defender incondicionalmente seus aliados na OTAN. O que soa como música aos ouvidos de Putin. Ainda bem que, em meio a tantos interesses em jogo, há quem ainda raciocina, não por interesses, mas a partir de princípios, como o papa Francisco. Ele é, hoje, o único líder mundial capaz de aglutinar homens e mulheres que buscam a paz como fruto da justiça e um mundo menos desigual e injusto. A vitória de Trump me faz lembrar que Hitler também não chegou ao poder por golpe de Estado, como Temer, para citar um exemplo recente. Foi democraticamente eleito pelo povo alemão. E deu no que deu… Enquanto o dinheiro presidir a democracia, esta será, na expressão ianque, apenas um pato manco. Publicado originalmente no Correio da Cidadania. Crianças em jaulas nos Estados Unidos

As escolas, os estudantes e a flor

por Elaine Tavares Uma das táticas infalíveis do processo de produção de consenso é a repetição contínua e sistemática de mentiras. São tantas vezes ditas que viram verdades. Nelas, também é bastante comum as coisas trocarem de lugar. A vítima vira o vilão. É batata! Assim tem sido com os estudantes que ocupam escolas. De repente, aqueles garotos e garotas, que se aborreciam nas salas de aula, decidiram tomar o presente à unha. E diante de uma proposta que os governantes chamaram de “reestruturação” resolveram se levantar. A gurizada não é burra. Logo se deu conta que a reestruturação queria dizer destruição. Na época, o governo paulista, de Geraldo Alkmin (PSDB) decidiu fechar escolas onde achava que não eram “rentáveis”. Como se uma escola tivesse de ser lucrativa. A gurizada teria de sair do seu bairro, viajar quilômetros para chegar noutra escola, com salas de aula ainda mais cheias, com professores massacrados e mal pagos. Então, não houve dúvidas. Começaram a ocupar suas escolas para impedir que fossem fechadas. Que crime é esse? Um guri, uma guria, fincar pé na sua escola, porque que quer aprender, conhecer, se instruir, isso é irregular? As ocupações em São Paulo, em Goiás, no Rio Grande do Sul, em Minas, mostraram que algo estava acontecendo, e que era grave. Naqueles dias, o assunto foi parar na mídia e até certo ponto os estudantes foram respeitados na sua luta. Depois, quando o processo se espalhou, a classe dominante viu que era preciso parar com a “brincadeira”. Veio então a ordem para desocupar com a força policial. E todo o Brasil acompanhou a retirada da gurizada, com a velha violência de sempre. A coisa parecia superada. Com a consolidação do golpe parlamentar, as forças conservadoras, que já arreganhavam os dentes desde 2013, assomaram, ganharam musculatura, se fortaleceram e começaram a impor suas pautas ao país. Veio então a reforma do ensino médio, assim, por decreto, sem sequer passar pelo legislativo. Acabava com a obrigatoriedade do ensino de matérias universalistas, fundamentais para a formação de um pensamento crítico: sociologia, filosofia, artes. Nada disso na escola pública. Essas cadeiras que fazem pensar só nas escolas privadas, onde se forma a classe dominante. De novo o velho refrão: “Pobre tem de ficar no seu lugar”. Ana Julia Ribeiro, estudante secundarista, em discurso no dia 26 de outubro na Assembleia Legislativa do Paraná: Então, a gurizada se levantou outra vez. E os secundaristas voltaram à tática de ocupar escolas. Porque ali é o lugar onde passam grande parte do seu tempo, no mais das vezes, tentando, com muito esforço, manter a cabeça de fora do poço de mediocridade e superficialidade que o ensino formal no geral propicia. Poucos professores conseguem garantir uma aula crítica, cheia de motivação. Afinal, a maioria deles precisa correr de uma escola a outra, dando dezenas de aulas, para garantir um salário mais ou menos capaz de suprir suas necessidades vitais. Ainda assim, por conta da bravura e do compromisso político com os alunos, boa parte dos educadores supera as dificuldades e rema contra todas as forças do atraso. Os alunos sabem disso. Reconhecem os que lutam. Não é sem razão que quando tem greve, apoiam e lutam junto. E os alunos apoiam as greves, quando as aulas param, porque sabem que param para que possam continuar. Para que possam melhorar. E quando a mídia e os governos gritam que os professores são vagabundos porque saíram da escola, porque pararam as aulas, os alunos sabem que não é assim. Porque estão ali, cotidianamente, vendo o esforço que fazem para garantir um ensino de qualidade na escola pública. Por isso que agora, quando esse ensino sofre outro ataque – além da já tradicional exploração do professor – os estudantes insistem em se manter na escola. Dentro dela. Para que essa escola siga aberta, para que continue resistindo no mar das dificuldades, preparando as cabeças para o enfrentamento da vida. O levante dos secundaristas brasileiros na defesa da educação é de uma riqueza sem par. Não é uma luta pontual. É constituída pela universalidade do problema educativo. Questiona tudo: as leis, os cortes de verba, o sumiço das matérias de humanidades e a própria forma de ensinar. Há uma coisa incrível aí nessas ocupações que vai contra tudo o que se diz do jovem do século XXI. “Só querem fumar maconha e ficar na internet”, insistem em dizer os governantes sem moral e ética. Pois o concreto da luta desmente cabalmente essa falsa informação. Os secundaristas querem a escola, querem estudar, e querem que tudo isso aconteça de uma forma diferente da educação bancária reservada para os pobres. Os secundaristas estão abrindo portas e janelas, deixando entrar o ar do novo século. Eles ensinam sobre essa nova escola, que tem de ser livre, participativa, motivadora, humana, cooperativa, solidária. Quem tem olhos para ver, que veja. O fato é que os levantes dos estudantes, independentemente do que venha acontecer, com toda a truculência que está deflagrada, já venceu. Ele é igual a flor do poema de Drummond: “Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu. Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor”. Podem vir as bombas, os cassetetes, os fuzis, as prisões. Pode vir o que for. Já era. Nasceu, e é uma flor. Ainda que tudo se acabe, ainda que as escolas sejam retomadas e invadidas pelos ladrões de futuro, pelos vilões do amor, a lição já terá sido aprendida. Os estudantes mostram, com essas ocupações, que a escola pode ser boa, bonita e capaz de formar seres cheios de beleza e conhecimento transformador. Não tem retorno. O estopim foi aceso e não há como parar. O projeto de escola de hoje para frente tem de ser outro. E vai ser, a despeito

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