Zona Curva

Política

Uma luz para você entender um pouco sobre o imbróglio político em que o país está metido.

Pelo julgamento imediato de Lula

por Guilherme Scalzilli As acusações frágeis e especulativas contra Lula ficaram muito aquém do aporte logístico e dos custos financeiros, pessoais e legais da Lava Jato. Depois de todas as arbitrariedades e devassas, submeter o petista a juízo meramente político é uma constrangedora frustração de expectativas. Embora útil para aliviar a decepção com Sérgio Moro e preparar o ataque a seu alvo principal, a prisão de Eduardo Cunha terá efeitos colaterais. Além de envolver o inventor do golpe e o governo ilegítimo, servirá como padrão comparativo para os delitos atribuídos a Lula, expondo a afoiteza e a leviandade dos indiciamentos. O sumiço de Rodrigo Janot, que garantiu a preservação inicial dos justiceiros, é sintoma da encruzilhada em que a operação agora se encontra. O recuo da caça a Lula ficou impossível, mas seu desgaste institucional beira os limites aceitos pelas cortes superiores, às quais restará a dura tarefa de maquiar o caráter ideológico dos processos. O cenário é desfavorável, portanto, à prisão de Lula. Há o risco de transformá-lo em herói, anunciado nos paralelos com Nelson Mandela, e de embates com a militância que confirmem a escalada repressiva pós-golpe. A supressão dos seus direitos políticos ganhou status prioritário, senão exclusivo, no projeto condenatório. O que Machado de Assis falou do juiz Sérgio Moro Os últimos episódios exibem a Lava Jato em fase crítica, sob questionamentos externos e internos, atuando no limite da legalidade para garimpar novos indícios que alterem o viés tendencioso das denúncias contra Lula. E arrastando o fardo Cunha, com todo o estrago que ele pode causar à moralidade nacional. Por isso, a defesa de Lula deveria exigir, pública e judicialmente, celeridade na tramitação dos processos. Já que a anulação está descartada, o adiamento indefinido só contribui para o desgaste público do réu e para o oportunismo eleitoral da Lava Jato. Quanto mais cedo os casos avançarem, menos previsíveis serão os seus desfechos. Nesse quadro de embate político e narrativo, Lula teria grandes benefícios tomando a atitude corajosa de se apresentar a julgamento e denunciando a tática protelatória da Lava Jato. Colocaria os algozes em posição desconfortável e reativa, tiraria deles o controle das pautas jornalísticas e forçaria um debate indigesto sobre a operação. Na hipótese mais radical, Moro aprisiona Lula, retalia uma demanda legítima, ganha a pecha de incendiário e fabrica um mártir. Na mais amena, comprova a suspeita de manobrar eleitoralmente e assume que não tem elementos para condenar o petista. Em ambas as circunstâncias, Lula se diferencia dos réus ilustres que ficarão associados ao inexorável derretimento da Lava Jato. Publicado originalmente no Blog do Guilherme Scalzilli.

Malufismo jurídico

por Guilherme Scalzilli Às vezes encontro uma curiosa distorção do apanágio malufista “rouba mas faz” (originado em Adhemar de Barros), aplicado a Lula. O malufismo é o último refúgio do petista, e variações equivalentes. A acusação aos apoiadores de Lula remete a certa excrescência pragmática da política populista. Inaugurando obras, o sujeito pode afanar quanto quiser. São todos corruptos de qualquer forma, só importam os resultados práticos etc. O resgate do malufismo é curioso porque demonstra certa inversão nas estratégias narrativas da direita. Agora não se relativiza mais as conquistas sociais dos governos Lula, outrora dissipadas em recortes históricos envolvendo FHC.   Leia também “A quem serve o Judiciário brasileiro?”   O foco passou à maleável questão moral, abandonando fatos (de resto estatisticamente irrefutáveis) que há pouco tinham alguma relevância nos debates políticos. Guinada conservadora típica, de apelo inegável nos botequins virtuais. Mas essa retórica traz em si uma contradição insanável. A ideia de que Lula “roubou” nasce nas “convicções” de Sérgio Moro e Rodrigo Janot. E adotá-las é aceitar os seus métodos. Surge então o raciocínio “Moro e Janot forçam a barra, mas lutam contra a corrupção”. Às vezes agem errado, mas pela causa certa. Um pragmatismo similar ao malufista, portanto, norteia os admiradores da Lava Jato. Desde que petistas sejam presos, dane-se a legalidade. Afinal, isso acontece todos os dias no Judiciário. Garantismo é coisa de burguês. Sintomaticamente, tanto o malufismo da caça a Lula quanto a própria malufização do petista antagonizam com a defesa de direitos constitucionais. Texto originalmente publicado no Blog do Guilherme Scalzilli. Lula também será vítima de “julgamento político”

Nós erramos

por Frei Betto Continuo a fazer coro com o “Fora Temer” e a denunciar, aqui na Europa, onde me encontro a trabalho, a usurpação do vice de Dilma como golpe parlamentar. Porém, as forças políticas progressistas, que deram vitória ao PT em quatro eleições presidenciais, devem fazer autocrítica. Não resta dúvida, exceto para o segmento míope da oposição, que os 13 anos do governo do PT foram os melhores de nossa história republicana. Não para o FMI, que mereceu cartão vermelho; não para os grandes corruptores, atingidos pela autonomia do Ministério Público e da Polícia Federal; nem para os interesses dos EUA, afetados por uma política externa independente; nem para os que defendem o financiamento de campanhas eleitorais por empresas e bancos; nem para os invasores de terras indígenas e quilombolas. Os últimos 13 anos foram melhores para 45 milhões de brasileiros que, beneficiados pelos programas sociais, saíram da miséria; para quem recebe salário mínimo, anualmente corrigido acima da inflação; para os que tiveram acesso à universidade, graças ao sistema de cotas, ao ProUni e ao Fies; para o mercado interno, fortalecido pelo combate à inflação; para milhões de famílias beneficiadas pelo programas Luz para Todos e Minha Casa, Minha Vida; e para todos os pacientes atendidos pelo programa Mais Médicos. No entanto, nós erramos. O golpe foi possível também devido aos nossos erros. Em 13 anos, não promovemos a alfabetização política da população. Não tratamos de organizar as bases populares. Não valorizamos os meios de comunicação que apoiavam o governo nem tomamos iniciativas eficazes para democratizar a mídia. Não adotamos uma política econômica voltada para o mercado interno. Nos momentos de dificuldades, convocamos os incendiários para apagar o fogo, ou seja, economistas neoliberais que pensam pela cabeça dos rentistas. Não realizamos nenhuma reforma estrutural, como a agrária, a tributária e a previdenciária. Hoje, somos vítimas da omissão quanto à reforma política. Em que baú envergonhado guardamos os autores que ensinam a analisar a realidade pela ótica libertadora dos oprimidos? Onde estão os núcleos de base, as comunidades populares, o senso crítico na arte e na fé? Por que abandonamos as periferias, tratamos os movimentos sociais como menos importantes e fechamos as escolas e os centros de formação de militantes? Fomos contaminados pela direita. Aceitamos a adulação de seus empresários; usufruímos de suas mordomias; fizemos do poder um trampolim para a ascensão social. Trocamos um projeto de Brasil por um projeto de poder. Ganhar eleições se tornou mais importante que promover mudanças através da mobilização dos movimentos sociais. Iludidos, acatamos uma concepção burguesa de Estado, como se ele não pudesse ser uma ferramenta em mãos das forças populares, e merecesse sempre ser aparelhado pela elite. Agora chegou a fatura dos erros cometidos. Nas ruas do país, a reação ao golpe não teve força para evitá-lo. Deixemos, porém, o pessimismo para dias melhores. É hora de fazer autocrítica na prática e organizar a esperança. Publicado originalmente no Correio da Cidadania. A resiliência política das bases populares

Cadê os omeletes?

por Frei Betto No final da década de 1920, o escritor romeno Panait Istrati visitou a União Soviética. Testemunhou, horrorizado, os expurgos de Stálin. Um dirigente comunista tentou convencê-lo de que era necessário o uso de tanta violência para construir o socialismo: “não se pode fazer omeletes sem quebrar os ovos”. O romeno retrucou: “de acordo. Vejo ovos quebrados. Mas onde estão os omeletes?” Guardadas as proporções, é o que faz o governo Temer. Quebra ovos em quantidade sem a menor perspectiva de oferecer omeletes à maioria da população. Sem dúvida, não faltarão ovos nevados para a minoria abastada que vive de especulação financeira. O que se vê é aumento do desemprego e dos direitos de cidadania. As medidas de austeridade equivalem ao argumento religioso de que estamos todos marcados pelo pecado original. Portanto, de todos é exigido fazer penitência… Menos dos mais ricos. O Estado é, hoje, o novo Moloch, a quem devemos oferecer sacrifícios… Golpe consumado e uma vez empoderados, Temer e seu ministério erguem foices sobre os direitos dos trabalhadores: redução dos investimentos em educação e saúde; mudanças na aposentadoria rural; redução nos direitos previdenciários dos professores; ataque à política do salário mínimo, inclusive a desvinculação do mínimo como piso da Previdência Social. O rombo fiscal já foi ampliado de R$ 97 bilhões (Dilma) para R$ 170 bilhões (Temer). Segundo a insuspeita senadora Kátia Abreu, R$ 50 bilhões apenas para bancar o golpe. Para 2017, preveem-se novo rombo de R$ 139 bilhões e aumento de impostos para mais arrecadações. Não é só no social que os prognósticos são ameaçadores, mas também na estratégia global de retorno à dependência aos EUA e de privatização do pouco que resta do patrimônio brasileiro, de aeroportos ao pré-sal. Em termos de mercado de trabalho, o Brasil apresentava índices positivos até o final do primeiro mandato do governo Dilma. Então, aconteceu uma virada na política econômica sob o pretexto de que o país necessitava de um ajuste fiscal, tendo como consequências um choque monetário com enorme aumento de juros, que passou de 11% para 14%, e uma política irresponsável de preços administrados. Como se o preço da gasolina e da energia não influenciassem todos os demais em uma economia tão indexada como a brasileira. Resultado: dispararam a inflação e o desemprego. O remédio adotado por Dilma na virada do seu primeiro para o segundo mandato foi amargo, e agravou a situação econômica brasileira ao transformá-la em recessão. O baixo crescimento da economia se converteu em profunda depressão, a maior desde a década de 1930. Agora, o governo Temer aprofunda as medidas restritivas iniciadas por Dilma em seu segundo mandato. E o que é grave, sem uma estratégia de longo prazo para o Brasil, dependente apenas de meras táticas fisiológicas para acomodar aliados na máquina estatal e recolher dividendos eleitorais. Publicado originalmente no Correio da Cidadania.

De costas para o futuro

por Frei Betto Ponte para o futuro Temer – Prevê-se que o recuo do PIB brasileiro, este ano, será de 3,2%. O do PIB per capita, 9,1%. Nos países ricos, a média do PIB per capita é, atualmente, de US$ 20 mil. No Brasil era, em junho de 2011, de US$ 13,2 mil. Em junho deste ano, US$ 8,850. Empobrecemos. O PIB teve crescimento médio anual de 2,3% com FHC na presidência; 4%, com Lula; e 1% com Dilma. Menos dinheiro, menos gastos. O consumo familiar caiu 5% no segundo trimestre deste ano, comparado ao do mesmo período de 2015. A taxa de desemprego, hoje em 11,6% (11,8 milhões de desempregados), deve atingir, no primeiro trimestre de 2017, o índice de 12,5% a 13%. No segundo trimestre deste ano, a renda dos trabalhadores caiu 4,2%. É chamada taxa de investimento o que se gasta com máquinas, equipamentos e construção civil. Em 2013, correspondia a 20,9% do PIB. Hoje, é de 16,8%, a menor desde 2003. Em menos de 10 anos será difícil recuperar o índice de 2013. No segundo trimestre desde ano, a recessão brasileira superou a da Rússia e a da Grécia. Tivemos o pior desempenho entre 34 países: menos 3,8%, comparado ao mesmo período de 2015. A Rússia recuou menos 0,6% e, a Grécia, menos 0,1%. O rombo nas contas públicas é grande. Os benefícios previdenciários consomem, hoje, 55% de todos os gastos do governo federal. Alerta o governo Temer que, em 2017, o déficit da Previdência Social será de R$ 181,2 bilhões, o equivalente a 2,7% do PIB. Daí a reforma draconiana que ele propõe. Ora, o senador Paulo Paim (PT-RS) revelou que dados da Associação dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil demonstram que não há déficit, e sim superávit. Em 2010, foi de R$ 53,8 bilhões; 2011, R$ 75,7 bi; 2012, R$ 82,6 bi; 2013, R$ 76,2 bi; e 2014, R$ 54 bi. O dado de 2015 está para sair. Prova disso é que o Congresso derrubou o fator previdenciário. O golpe e a ponte para o passado A segunda maior despesa do governo é com a folha de pagamentos: R$ 169,8 bilhões com o pessoal ativo. De onde esperar, então, a retomada do crescimento da economia brasileira? Não virá pelo consumo, na medida em que crescem o desemprego e a inflação. Nem das exportações, já que a China reduziu drasticamente as importações do Brasil e a Europa está em crise. Segundo o projeto Temer, só resta uma saída: atrair capital estrangeiro. Daí o desmonte da nação, a privatização do patrimônio público, a entrega do pré-sal às grandes multinacionais. No bazar do Brasil à venda estão na fila a Caixa Seguradora; a Loteria Instantânea; a BR Distribuidora; e o Instituto de Resseguros do Brasil. Haveria outra saída? Sim, bastaria o governo fortalecer o combate à corrupção, ao contrabando e à sonegação que, juntos, engolem cerca de R$ 800 bilhões por ano. Hoje, somados, os orçamentos dos dois setores mais vitais para a população, a saúde e a educação, custam R$ 204,2 bilhões. Poderiam ser multiplicados por quatro. Recursos o Brasil tem. Falta é governo comprometido com as prioridades nacionais. Publicado originalmente no Correio da Cidadania. 

Brasil, começar de novo

por Frei Betto No Brasil, agosto é mesmo o mês do desgosto. Em agosto de 1954, Getúlio Vargas, escorraçado do poder por pressão da Aeronáutica, disparou uma bala contra o próprio coração e saiu “da vida para entrar na história”, como registrou na carta-testamento. Em agosto de 1961, Jânio Quadros renunciou à presidência da República na esperança de voltar ao poder nos braços do povo, e de costas para a democracia. Agora, em agosto de 2016, Dilma Rousseff foi afastada da presidência da República por decisão dos 61 senadores que se prestaram a consumar o golpe que permite ao vice, Michel Temer, assumir usurpadoramente o comando do país. Não me espanta a decisão do Senado nem as infundadas alegações de que Dilma teria cometido crime de responsabilidade fiscal. O que me surpreende é a apatia de um povo beneficiado pelos 13 anos de governo do PT. Onde estão os 45 milhões de brasileiros que, graças aos programas sociais, se libertaram da miséria? Onde estão os trabalhadores que, anualmente, tiveram seus salários atualizados acima da inflação? Onde estão os jovens que chegaram ao ensino superior graças ao Enem, ao Fies, ao sistema de cotas? Fora algumas manifestações pontuais nas grandes cidades do país, não houve reação popular ao golpe parlamentar. Como não houve ao golpe militar dos idos de abril de 1964. Nós erramos. Não demos consistência política aos programas sociais. Ensinamos a pescar, não a pensar. Os bens materiais que erradicaram a miséria não vieram acompanhados de bens simbólicos que suprimissem a indigência da consciência. A fome de pão foi saciada, não a de beleza. O PT nasceu com o propósito de “organizar a classe trabalhadora”. Chegou ao poder graças aos movimentos sociais. Mas não soube valorizar o que lhe daria sustentabilidade política. Não houve estratégia para desarticular os atuais protagonistas do golpe. Acreditou nas alianças com os inimigos de classe. Fez demasiadas concessões a quem tinha por objetivo desbancar o PT e retomar o controle da máquina do Estado. Trocou a estratégia por meras conquistas eleitorais. Abriu mão do projeto histórico por meras táticas de acomodação no governo. Manter-se no poder, ainda que à custa de pactos espúrios, ganhou mais importância do que alterar as estruturas arcaicas da sociedade brasileira. Treze anos de governo e nenhuma reforma, nem a agrária, a trabalhista ou a tributária. Hoje, o PT é vítima da omissão de reforma política. Apenas 61 brasileiros anularam os votos de mais de 54 milhões de eleitores! Agora nos resta o desafio de restaurar a democracia no Brasil. Porém, para isso não basta disputar eleições com as forças retrógradas e golpistas. É preciso organizar a esperança. Fortalecer os movimentos sociais. Dar consistência política ao projeto histórico. Reativar a militância. Não se trata apenas de derrubar os golpistas. Mas, sim, de mudar a gramática do poder para a democracia deixar de ser uma falácia que ilude aos que nela não enxergam a ditadura do capital. Publicado originalmente no Correio da Cidadania.

Venezuela, que ditadura?

por Elaine Tavares Ainda durante o governo de Hugo Chávez, a revista Veja, espaço de lixo jornalístico brasileiro escreveu o seguinte texto: “A Venezuela era, até o final do século XX, uma exceção na América Latina. Durante quatro décadas, entre 1958 e 1998, o país foi um exemplo de estabilidade política e de democracia no meio de um continente mergulhado em ditaduras militares. Seu relógio político obedecia a um fuso horário diferente do de seus vizinhos”. Para o escriba anônimo da Veja, depois de 1998 teve início, então, a “ditadura chavista”. Até ali era a paz. Mentira. A Venezuela antes de Chávez era um país dominado por meia dúzia de famílias que enriqueciam por conta do petróleo. A maioria da população vivia na mais extrema miséria. Não havia qualquer preocupação com um desenvolvimento do país, visto que o petróleo, sozinho, dava conta da existência da classe dominante. A industrialização era mínima e a produção agrícola inexistente. Com a ascensão de Hugo Chávez, em 1998, por eleição direta, voto popular, as coisas começaram a mudar. A taxa de desemprego passou de 14% em 1999, ano que Chávez assumiu, para cerca de 8% em 2012, segundo dados do próprio FMI (Fundo Monetário Internacional). O PIB, que em 1998 era de 61 bilhões de dólares passou para 332 bilhões em 2012 e o índice de pobreza que era de 49% da população em 1999, passou para 29%. O país que vivia ajoelhado diante dos Estados Unidos e dos demais países ricos começou a discutir soberania. A renda do petróleo que servia para enriquecer poucos passou a ser usada para benefício da maioria empobrecida. Teve início a prática da democracia participativa, na qual as pessoas organizam a vida e decidem sobre ela nos bairros, nas comunidades, nos espaços institucionais. A democracia viva e não apenas aquela falsa democracia que garante unicamente o direito do voto a cada quatro anos. O governo de Chávez assume também a ideia bolivariana de uma América Latina unida. O mesmo velho bordão que tanto já tinha feito tremer os ricos do início do século 19. A sombra da soberania popular de Simón Rodríguez, da unidade e integração da Pátria Grande de Bolívar, tudo isso fez soar o alarme nos países que dominam a cena capitalista.  Não bastasse essa viragem política ainda havia o investimento num desenvolvimento endógeno, indústria, agricultura, produção de bens e ciência. Vieram as missões populares de educação, de saúde, de moradia, de alimentação, de segurança. As gentes tomando seus destinos na mão, governando junto, intervindo nas políticas. “Heresia, heresia, heresia”, começaram a gritar os donos do poder central. Então, a Venezuela passou a ser enxovalhada e seu presidente mostrado como o diabo em pessoa. “Ditador, ditador, ditador”, esse era o grito de guerra que começava a ecoar capitaneado pelo braço armado da mídia imperial: a CNN, e reproduzido pelas demais filiais ideológicas. A ditadura a qual se referiam era essa. Um governo que ouvia o povo, um governo que levava o povo a participar de todas as instâncias da vida, um governo que distribuía a riqueza do petróleo antes concentrada. Isso é ditadura para os donos do poder. https://www.youtube.com/watch?v=V11pJ8b2KQA Hugo Chávez era homem de grande estatura intelectual e política, tinha um carisma incrível, coisa que acabou matizando o discurso de ódio dos países centrais. O rei da Espanha o mandou calar a boca, e recebeu resposta à altura, os Estados Unidos armaram – junto com a elite local – um golpe, e foram derrotados. A Europa toda compartilhou a gritaria de “ditadura, ditadura”, mas o discurso não colou. O fato é que Chávez se foi e os países centrais respiraram aliviados. Agora tudo poderia voltar a ser o “oásis” descrito pela revista Veja, de paz e tranquilidade para a meia dúzia de famílias que sempre chupou para si a riqueza do país. A população empobrecida seria banida do poder. Não foi assim. O bolivarianismo tinha fincado raízes na população. Quinze anos de alfabetização política, de participação efetiva, de movimento popular não se esfumaçaram com a morte de Chávez. A semente havia germinado. A população elegeu então Nicolás Maduro para dirigir o país. É claro que, não sendo Chávez, Maduro deu seu próprio ritmo ao processo democrático na Venezuela. Não tinha, nem tem, o carisma de Chávez, ou seu conhecimento sobre a política e a economia. Assumiu o governo em meio a um intenso ataque da direita – apoiada desde fora pelos países centrais. A eleição foi questionada o tempo todo e Maduro não teve um momento de paz. Começava um governo sob a sombra de Chávez e com todas as forças contrárias atuando fortemente. Iniciava aí mais um capítulo do crime de lesa humanidade que vem se perpetrando na Venezuela. Sem força política para derrotar Maduro e o bolivarianismo, a direita venezuelana passou a investir na violência sistemática, a ponto de suas lideranças irem para a televisão incitar as pessoas ao crime, ao assassinato, à destruição. Por conta disso Leopoldo Lopez, prefeito de Chacao, foi preso. Foi ele o incentivador da “guarimbas” (barricadas de rua) que resultaram na morte de mais de 40 pessoas. Pois para os EUA e os demais inimigos da Venezuela ele virou um “mártir da democracia”.  A mídia dos países centrais passou a apresentar Lopez como prisioneiro político e desde aí essa é a versão que foi abraçado por todos. A mentira repetida que vira verdade. Nessa semana um desses paus-mandados do império deu entrevista dizendo que a democracia está morta na Venezuela, e foi reproduzido por todos os meios de comunicação comerciais do mundo. A “ditadura” venezuelana que não quer libertar um “pobre rapaz”. Essa é a mentira que circula. A democracia para eles é a que serve aos interesses da minoria rica. O ilustre senhor da ONU não foi aos bairros, como o 23 de Janeiro, por exemplo, que concentra milhares de pessoas, muitas delas armadas, prontas para defender a revolução e os seus ganhos. A mando dos Estados Unidos, seu papel é fazer agitação e propaganda, pintando em cor-de-rosa

Algumas palavras sobre a liberdade

por Elaine Tavares  Nós já vivemos um tempo em que liberdade era só uma palavra escrita num muro, sempre às escondidas, porque dizê-la era perder-se. Hoje, em meio a um governo interino, garantido a partir de um golpe parlamentar/judiciário/midiático voltamos aos tempos duros. Expressar-se virou caso de polícia e até partidos políticos estão ameaçados de cassação. Não um partido qualquer, é claro. A guerra da classe dominante contra o PT parece que vai até as últimas consequências. O pedido de cassação de registro do PT, feito pelo ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, é o exemplo mais acabado do processo de cerceamento das liberdades que estamos vivenciando no Brasil. E no dia 28 de julho, a PM do Rio de Janeiro cercou a sede do Partido Comunista Brasileiro, sob a alegação de que estava “monitorando” as atividades que ali eram realizadas, a saber, um debate sobre segurança pública. Que palavras para descrever isso? Assim que o ataque contra os partidos de esquerda vem sendo sistemático desde o golpe. E ainda há quem diga que não houve o malfadado. Tudo isso já foi vivido antes, na década de 60 do século passado, quando os Atos Institucionais dos governos militares foram cortando a voz e a vida de milhares de brasileiros. Nesses dias de mega festa olímpica também se repetem os atos de censura e cerceamento de liberdade, quando pessoas são impedidas de expressarem seu descontentamento. Uma olhada rápida no que aconteceu durante a Copa do Mundo, quando a então presidente Dilma foi xingada das formas mais violentas, e já se pode ver a diferença. Naqueles dias, as pessoas – vestidas de verde e amarelo – expressaram todo o seu ódio sem qualquer constrangimento. Por que motivo, os descontentes de agora não poderiam expressar? A única explicação possível é essa: a liberdade está sendo “monitorada” e só vale para alguns, de preferência os amigos do rei. É fato que mesmo na democracia liberal burguesa a liberdade também anda enclausurada e é seletiva. Basta ver como o poder age contra os empobrecidos, os negros, as mulheres que lutam, os índios, os trabalhadores que reivindicam. É fato que mesmo durante o governo petista vivenciamos toda a dureza que é ser “de baixo”. Foi assim nos preparativos para a Copa, com comunidades inteiras sendo destruídas, famílias desalojadas, manifestantes reprimidos. Mas, nos dias que correm o jogo de poder entre os de cima esparrama a violência para outras camadas da sociedade, e assim vai fortalecendo o medo, fechando bocas, eliminando os diferentes. Vai ficando pior. Não bastasse isso, os que agora assaltam o poder inculcam a violência e o ressentimento permitindo que seus partidários – e apenas eles  – expressem livremente atitudes violentas e fascistas. Pessoas são agredidas por serem deste ou daquele partido de esquerda, casas religiosas são destruídas por não se enquadrarem na lógica cristã. Vive-se um jogo de vale-tudo, mas só para os amigos. Aos inimigos, a lei. A democracia nunca foi o sistema perfeito, ainda que a democracia participativa tenha avançado muito na construção de outro tipo de sociedade. Mas, enquanto não se vivencia outro sistema – no qual todos tenham voz e vez – não temos o direito de retroceder. Já vai longe o tempo em que um homem ou uma mulher vivenciava as mais terríveis torturas por reivindicar um mundo melhor para viver, por dizer uma palavra crítica, por expor as mazelas do poder. Vai longe e não pode voltar. Essa coisa de democracia e liberdade é sonho, é utopia, mas é também uma construção histórica dos povos em luta. Não vem só pelo desejo ou pela vontade. Tem de ser pavimentada pelo povo em luta. E tem de ser também pensada como comunidade, como nós. Não é só o sentimento individual, é a realidade de um povo inteiro, junto. É doloroso ver tanta gente que conhecemos e temos no nosso seio de amizade ou família, vibrar com a violência que se abate sobre pessoas que tem outra forma de pensar. Dói, mas não deve nos imobilizar. Há que resistir e lutar. O processo de participação da vida da cidade, do estado e do país só vai vingar se a gente compreender o que se esconde por trás dos cenários montados pela mídia e pelos donos do poder. Desvelar a realidade, conhecer a essência dos fenômenos, compreender como se dão as relações no sistema capitalista, isso ajuda. Não se trata de relações entre pessoas, mas sim da relação entre o trabalhador e o patrão, o camponês e o distribuidor, entre políticos e povo. Tirar o véu que encobre essa relações, entender os mecanismos de poder que elas contêm é fundamental  para que possamos definir os rumos que queremos seguir. É certo que muita gente que conhecemos vai querer seguir o viés do autoritarismo, do ódio ao diferente, do medo da mudança. Mas, nosso papel é seguir. Hoje, vimos a polícia abordar, prender e cercear o direito de se expressar nos estádios. Amanhã será dentro dos partidos, dentro das universidades, dentro de casa, nas redes.  É isso que faz um governo totalitário. É essa serpente que estamos vendo crescer e se fortalecer. Já foi assim em Honduras e no Paraguai. Temos escolhas. Ou alimentamos o monstro, ou alimentamos a proposta de uma vida de liberdade. Que vai ser? Publicado originalmente no Blog Palavras Insurgentes. A tradição autoritária brasileira  

Mensalão 2.0

por Guilherme Scalzilli A importância conferida às delações do marqueteiro João Santana e de sua esposa torna ainda mais evidentes e constrangedoras as dificuldades da Lava Jato em realizar seus objetivos políticos. E nada tem de gratuito o retorno, à operação, das táticas consagradas na época da Ação Penal 470. A ideia, em resumo, é usar contra petistas e aliados certas irregularidades que a Justiça e a imprensa toleram há décadas, e continuam tolerando, cinicamente, nos outros partidos. Deu certo na suposta compra de apoio parlamentar que originou os justiciamentos do mensalão. Vem dando certo nas picuinhas contábeis do impeachment golpista. Apesar das somas vultosas, o enrosco dos Santana com a lei chega a soar pueril para quem conhece o meio. Caixa dois é o “trivial com fritas” das eleições nacionais. Sua generalização torna a própria lisura uma sandice estratégica nessa selva pragmática e competitiva, dominada pela permissividade moral. O mesmo diria um jornalista que aceita prestar serviços para seu veículo como “pessoa jurídica”, burlando a legislação previdenciária. Sem meios técnicos nem vontade política para escarafunchar maquiagens contábeis na imensidão disponível, a Justiça Eleitoral exibe uma estranha competência em fiscalizar certas linhas partidárias. E, assim, neste país continental, com eleições a cada dois anos, os únicos marqueteiros presos foram Duda Mendonça e João Santana, exatamente aqueles que trabalharam para petistas. Como ocorreu no dito “mensalão”, os nobres magistrados apenas buscam o recurso mais cômodo e certeiro para atingir seus inimigos circunstanciais. Passado o escândalo, obtidos os efeitos desejados, tudo voltará à promiscuidade normal de sempre. Inclusive no Judiciário. O caixa dois é a munição que Sérgio Moro fornece a Gilmar Mendes para atingir a campanha de Dilma Rousseff na hipótese de o Senado absolvê-la. Espremendo os Santana com suas técnicas policialescas, Moro saberá impedir que o casal aproveite o episódio para escancarar a hipocrisia do novo capítulo dessa farsa moralista. Publicado originalmente no Blog do Guilherme Scalzilli.

Polyana investigadora

por Guilherme Scalzilli Dá para imaginar o escândalo que haveria se o juiz Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato fizessem cursos e reuniões na Rússia ou na Venezuela antes de arrasarem a Petrobras. Gigantes petrolíferos ajudando a destruir a concorrência brasileira? Então. Com os EUA é “cooperação internacional”. Espionagem? Conspiração? Depende da maneira como definimos tais atividades. Ou melhor, do grau de credulidade que abraçamos para embalar nossa ilusão de autonomia e segurança. Quase toda ação escusa tem uma fachada legítima que satisfaz os ingênuos. Claro, soa insensato embaralhar os verdadeiros deslizes éticos de Moro com suspeitas afins. No imaginário diplomático, ele seria um péssimo candidato à cooptação. Além de excessivamente visado, nutre visão messiânica e idealista do seu papel. E tem motivações ideológicas já alinhadas à agenda estadunidense. Ao mesmo tempo, é muita ingenuidade ignorar os elos geopolíticos da desmoralização de algumas das maiores empresas do país, com negócios planetários em áreas estratégicas para as potências financeiras. E é simplesmente estúpido achar que desmontes desse tipo são fenômenos gratuitos no inescrupuloso universo do empresariado transnacional. Podemos até acreditar que a Lava Jato serve “apenas” como instrumento manipulado por interesses poderosos, em troca do seu próprio sucesso no âmbito doméstico. O problema está no pacote de versões oficiais, bem menos convincentes, que dão suporte à hipotética inocência dos nossos berlusconis. Por exemplo, a tese de que o profissionalismo, a força material e o respaldo midiático do movimento pelo impeachment nasceram de ações espontâneas e desarticuladas, embora seus líderes tenham ligações com obscuras companhias norte-americanas. Também a de que o cargo de ministro das Relações Exteriores de José Serra não tem nada a ver com seu projeto que abre o pré-sal à exploração estrangeira. Ou com os policiais federais que vazaram os sigilos da Lava Jato. Será que as teorias conspiratórias nascem da quantidade de coincidências estranhas em torno do mesmo fenômeno, ou do desprezo geral por esses sinais? Precisaríamos mesmo de documentos governamentais para saber que os EUA participaram do golpe militar de 1964? Sem o Wikileaks ninguém imaginaria que a Casa Branca espiona mensagens eletrônicas de governos, empresas e cidadãos? A lista dessas “descobertas” tardias ocuparia compêndios. As nódoas comuns a todos os seus episódios são a covardia da imprensa dita investigativa e o descrédito público dos paranoicos que levantaram as perguntas que ninguém ousava formular Publicado no JusBrasil. 

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