Zona Curva

Política

Uma luz para você entender um pouco sobre o imbróglio político em que o país está metido.

Colômbia e o difícil caminho para a paz

por Elaine Tavares A notícia sobre a saída do Reino Unido da União Europeia foi destaque nos noticiários e ofuscou outra notícia importante na mesma semana: o acordo de paz entre o governo colombiano e as FARC-EP (Forças Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo), fato que para as gentes de Colômbia certamente têm muito mais significado do que a longínqua decisão europeia. Mergulhado em um conflito que, na prática, dura 68 anos, o povo colombiano espera pela paz acreditando que, com isso, possa retomar a vida que de certa forma se rompeu no triste “Bogotazo”, quando – após o assassinato do candidato à presidência Jorge Gaitán – as gentes se levantaram em rebelião. E o que era para ser um protesto que visava a punição dos culpados e a retomada da legalidade acabou se transformando numa espiral de lutas, violências, crimes e terrorismo de Estado. A Colômbia é um país relativamente pequeno com pouco mais de dois mil metros quadrados que abrigam 48 milhões de almas, mas fica numa posição bastante estratégica na geopolítica mundial: na ponta noroeste da América do Sul, com saída para o Pacífico e mar do Caribe, e fronteiras com Brasil, Venezuela, Peru e Equador. Justamente por isso tem como principal aliado os Estados Unidos, o qual já instalou naquelas terras sete bases militares que se configuram em ameaça constante aos países da região. Desde seu nascimento como nação livre, o país tem papel bastante controverso na história latino-americana. Vista como uma região estratégica também por Bolívar, o libertador, foi justamente seu general, Santander, que sonhava em ser presidente da Colômbia, o que traiu todo o sonho de integração que embalava a proposta da Gran Colômbia, apostando na balcanização, a qual gestaria várias nações e vários presidentes.  A partir daí o território colombiano sempre foi um espaço de disputa entre liberais e conservadores. Com o alinhamento do país à Inglaterra e depois aos Estados Unidos, o único destino possível foi a dependência e a subordinação. O ano de 1948, no século XX, marcou outra espiral de turbulências, quando, em abril, foi assassinado Jorge Gaitán, que despontava como uma possibilidade progressista para o país. Sua violenta morte provocou o levante da população – principalmente camponesa – e deu início a formação de grupos armados, dispostos a levar o país para outras paragens, de liberdade e de paz. Naqueles dias os partidos tradicionais resolveram criar uma frente nacional, deixando de fora os principais protagonistas da vida colombiana: o povo em luta. E isso acabou sendo a semente para o nascimento da guerrilha que, com muitos matizes, emergiu. Um dos grupos mais fortes foi o chamado Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARCs) que caminhou com os liberais até 1964 e a partir daí, já bastante inspirados na revolução cubana, assumiu fortemente sua convicção socialista e comunista. A partir dos anos 60 o perfil das FARC e de outros grupos armados se consolida na proposta de criação de um estado socialista, e por toda a América Latina vão nascer outros movimentos guerrilheiros como na Guatemala, na Nicarágua e em El Salvador. As frentes de libertação nacional atuaram de forma profunda na história latino-americana apontando caminhos que não se alinhavam aos desejos do império estadunidense, e por isso, a mão dura dos EUA foi sentida por toda a região. Mesmo onde houve vitória, como na Nicarágua, o ataque dos mercenários a soldo dos Estados Unidos, conseguiu fazer com que a proposta fosse se diluindo até a derrota final. A Colômbia, apesar de todo o apoio militar e estratégico dos Estados Unidos, resistiu bravamente na luta armada. Foram então introduzidos outros elementos para a desarticulação da guerrilha e um dos mais importantes foi o do “combate às drogas”. Como o país não conseguia dar respostas ao povo no que diz respeito aos direitos mais básicos, foi nascendo um poder paralelo criado pelos traficantes de cocaína, que, no começo, apareciam como os “protetores” das gentes, seja na garantia de direitos ou na garantia da vida mesma.  Depois, até mesmo esse setor que funcionava ao estilo “Robin Hood” também foi inoculado com o modo de produção capitalista e a droga passou a ser um poderoso braço comercial, garantindo a riqueza de boa parte da classe dominante. E foi justamente com o argumento de combater o tráfico que o governo local estreitou sua relação com os EUA. A partir daí, a cessão de território para bases militares e os acordos com as Forças Armadas estadunidenses – que incluem até a total anistia a qualquer crime cometido pelos marines no território – só aprofundaram a submissão. Também se fortaleceram grupos paramilitares que fazem o combate aos grupos guerrilheiros, bem como as ações terroristas por parte do próprio Estado. A Colômbia seguiu então mergulhada na violência, com as populações sendo movidas para lá e para cá, em desalojamentos forçados. Ao mesmo tempo, as lutas pontuais como a de estudantes, professores, camponeses, sindicatos foram também criminalizadas e permeadas com a ação dos grupos de assassinos, tanto dos paramilitares como dos exércitos. Todo o tecido social é impregnado pela corrupção e pelos interesses do narcotráfico. Não bastasse isso, a própria guerrilha foi cindida pelo narcotráfico, tornando o território colombiano um espaço complexo e amalgamado pela violência.   A busca pela paz Os anos 90 encontraram a Colômbia tentando buscar saídas para os conflitos. Houve uma nova Constituição no início da década e muitos grupos guerrilheiros se desfizeram. Mas, as FARCs seguiam com seu intento de construir o socialismo e não deixaram as armas. Naqueles dias se fortaleceram as ações de sequestros espetaculares que deixavam o governo em maus lençóis. Novas tentativas de acordo de paz se fizeram no final da década através do presidente Andrés Pastrana, que concebeu o Plano Colômbia em parceria com os Estados Unidos. Mas, como o tal plano nada mais era do que mais um passo de ingerência dos EUA que visava justamente o fim das FARCs, e não havia garantias de destruição dos grupos paramilitares, muito menos do fim da ação terrorista do governo,

O jornalismo está vivo e brilha

por Elaine Tavares Antes de qualquer coisa vamos estabelecer um consenso sobre os conceitos. O que é a mídia comercial e o que são as mídias comunitárias, populares e os ativistas digitais. Bom, a mídia comercial reúne os grandes meios de comunicação, empresas privadas que usam o espaço público – com as TVs e Rádios – e empresas privadas que atuam no espaço privado: os jornalões dos grandes centros e os jornais médios e pequenos dos municípios menores. A mídia comunitária e popular é composta por um conjunto bem diverso de meios. Espaços privados de gente que tem uma posição política mais avançada e que organiza blogs e páginas pessoais, espaços públicos comunitários – o caso das rádios e TVs comunitárias – espaços sindicais e do movimento social, espaços de grupos organizados de produção de informação, espaços no éter de pessoas físicas que de forma isolada produzem e distribuem informações. Pois bem, agora vamos ver como esses dois blocos se comportaram durante o processo de discussão do impedimento da presidenta Dilma Rousseff. O primeiro, que é reconhecidamente o braço armado ideológico da classe dominante, fez o que lhe é comum: defender os interesses dessa classe. E quais eram? Criar um consenso nacional sobre a necessidade da saída da Dilma e consolidar a derrubada do PT do governo. Para tanto usaram o tema da corrupção, useiro e vezeiro nos processos de golpe. Como já existe um consenso generalizado na sociedade de repúdio à corrupção, apelar a isso é sempre uma boa estratégia. Então, começaram as reportagens sobre o tema cuja intenção principal era implicar a presidenta. Nenhuma ligação sobre o fato de ter sido esse governo o que deu as condições para que a Polícia Federal pudesse aprofundar as denúncias e chegar aos verdadeiros implicados. Se observarmos com cuidado vamos ver que desde o final das eleições que acabaram conduzindo Dilma ao segundo mandato, já teve início a cruzada anti-PT. O tal do terceiro turno, que nunca se encerrou. Não houve um dia que a mídia comercial não tenha feito alguma matéria que levasse a essa formação de consenso: o PT era ruim para o país. Os casos de corrupção que foram sendo levantados só serviram para consolidar esse mantra. Junte a isso o arrefecimento do “espetáculo do crescimento” e estava formado o caldo perfeito paro que veio a seguir. A queda de braço do governo com Eduardo Cunha, por exemplo, que foi o estopim do golpe, teve um tratamento totalmente manipulado. Em nenhum momento a mídia comercial deixou claro que a presidenta se recusava a blindar o então aliado que estava – ele sim – acusado de corrupção. E foi justamente essa recusa em defender Eduardo na comissão de ética que levou à vingança do mesmo, com o pedido de impedimento de Dilma. Assim, estava virado o jogo e a presidenta foi quem começou a aparecer como corrupta. O bombardeio na mídia comercial para implicar Dilma foi feroz. Quem não se lembra da conversa gravada com Lula, divulgada no Jornal Nacional – e em todos os grandes jornais televisivos – como a prova definitiva da culpa de Dilma? E o que havia na gravação? Nada. Ocorre que ninguém prestou atenção ao conteúdo ou ao contexto da fala. Todo o cenário espetacularizado foi montado para criar uma sensação: a culpa de Dilma. O tom da voz dos apresentadores, os trechos fragmentados incompreensíveis e inconclusivos. Era o carnaval da corrupção. O consenso já estava criado. Ninguém precisava escutar com atenção a conversa para saber que ali estavam as provas. E as gentes foram às ruas pedir o fora Dilma, inclusive usando a última frase da conversa entre ela e Lula, quando o presidente se despede e diz: tchau, querida. Isso acabou virando o mote da campanha do impedimento. Orientadas pelos jornais nacionais as pessoas batiam panelas e saíam às ruas. Muitas sem saber, inclusive, que aquelas gigantescas manifestações estavam sendo organizadas e financiadas pelos mais “importantes” corruptos do país, liderados por Fiesp e outras entidades internacionais, também useiras e vezeiras em financiar golpes de estado. Não foi sem razão que a manifestação do domingo que levou milhões às ruas pedindo a saída da presidenta foi televisionada desde os primeiros momentos, ao vivo, por emissoras que jamais abririam espaço na sua programação para manifestações políticas. Pois essa se fez em tempo real na casa de outros milhões de brasileiros. Já a resposta dos movimentos sociais, dias depois, mereceu algumas notas, senão o silenciamento. Ou seja, a mídia atuava de maneira fundamental na construção de uma ideia, na criação de um consenso. E a mídia alternativa? Qual foi o seu papel? Esses espaços atuaram como sempre fazem no trato com a notícia, buscando trazer as informações dentro do seu contexto para que as pessoas tenham noção da totalidade. Foi assim, nos chamados “blogs sujos” de jornalistas de esquerda ou progressistas, foi assim nas páginas de sindicatos e movimentos sociais e foi assim nos coletivos livres de produção de notícias. A outra versão, os fatos no contexto, as realidades destapadas. Mas, toda essa gente – que desde sempre atuou na contrainformação – contou com uma ajuda inesperada. Os chamados ativistas digitais. Que são pessoas comuns, não necessariamente envolvidas em coletivos ou movimentos, que se agregaram a essa linha de divulgação das informações e passaram a atuar de forma intensa nas redes sociais. Assim, de repente, todo o trabalho realizado por essa mídia alternativa, comunitária e popular, começou a ser viralizado, horizontalmente pelos ativistas. A rede passou a ser um espaço de contrainformação importantíssimo e passou a também mobilizar pessoas para atos de protesto, ou de apoio a Dilma. Aqui é bem importante fazer uma relação com a chamada “primavera árabe”, na qual as mídias sociais foram bastante utilizadas, só de que maneira contrária. As pessoas reproduziam a informação que era criada pelas forças de desestabilização dos governos, financiadas pelas instituições golpistas internacionais. A fabricação do consenso foi de que lá, naqueles países, Argélia, Líbano, Líbia, Síria, estava nascendo uma revolução “popular” contra os regimes

A hora de Dilma

por Carlos Fico A gravidade do momento atual impõe a necessidade de solução que represente, para a população, a recriação do sistema político nacional. Isso tem de ser feito sem o recurso a fórmulas que contornem a Constituição, como é tradição da cultura política autoritária brasileira (golpes, contragolpes, emenda parlamentarista, prorrogação de mandatos ou eleições fora do calendário). Nesse sentido, ou ficamos com Temer ou Dilma volta ou Dilma não volta e Temer também cai. No momento em que escrevo, o vice-presidente no exercício da Presidência mostra-se líder desastrado e com os principais chefes de seu partido ameaçados de prisão. Tampouco a ninguém escapa o esforço de alguns setores (mercado financeiro e certo jornalismo à frente) no sentido de produzir “boas notícias” que apenas sublinham pateticamente o desespero dos que se encontram no poder. Esses sintomas da fragilidade de Temer associam-se à legitimidade pelo menos discutível de seu governo, haja vista as irregularidades que cercaram a etapa inicial do processo de impeachment. Dilma não foi afastada por supostamente ter cometido crime de responsabilidade. O esgarçamento paroxístico da política que se verificou (e se verifica) foi motivado por ela própria, pela Operação Lava Jato e pelo esgotamento do modelo político. Não houve golpe. A bandeira “não vai ter golpe” foi inadequada; a persistência dos discursos de denúncia do “golpe” impede ação política consequente. Nada há de semelhante entre 1964 e 2016. A possibilidade do retorno de Dilma Rousseff depende em grande medida da própria presidente afastada: por que os senadores deveriam votar em seu favor? Ela acusa a maioria do Congresso Nacional de golpista. A presidente deveria parar de falar em golpe. Deveria dirigir-se à nação reconhecendo o grave erro que cometeu ao prometer, na campanha eleitoral de 2014, aquilo que não poderia cumprir e, sobretudo, ao tentar fazer no governo o que acusara seu oponente de planejar fazer. Deveria desculpar-se. Deveria explicar porque foi levada a esse erro. Também deveria dizer o que pretende fazer caso o Senado a livre do impeachment. Ela mesma, em junho de 2013, propôs um plebiscito que autorizasse processo constituinte específico para fazer a reforma política. A fórmula é juridicamente problemática, mas pode ser aprimorada por pessoal qualificado. É indispensável que haja reforma política para a melhoria do sistema político brasileiro antes das próximas eleições gerais. Há distorções graves, amplamente diagnosticadas. Dilma deveria, inclusive, apresentar sua proposta de reforma política. A presidente afastada também deveria buscar justificar seu retorno à Presidência da República anunciando previamente programa econômico condizente com as necessidades de ajuste fiscal e, na medida do possível, preservando programas sociais – mas sem promessas demagógicas. Esse é um problema de difícil solução que, por isso mesmo, não pode ser entregue a técnicos supostamente neutros que implementariam soluções “isentas” a partir de diagnóstico tido como indiscutível segundo o qual os gastos decorrentes dos direitos sociais provenientes da Constituição de 1988 não caberiam no orçamento. Do mesmo modo, a superação do impasse econômico não pode ser impedida pelo discurso fácil de parte da esquerda que parece entender o Estado como fonte infinita de recursos. A solução é política e deve ser negociada com a sociedade, claramente, sem subterfúgios. A população merece ser tratada com sinceridade. Está na hora de os políticos brasileiros abandonarem a concepção que marcou a ditadura militar segundo a qual os brasileiros seriam “despreparados”, isto é, incapazes de compreender os problemas e de enfrentar soluções amargas. Também creio que Dilma deveria sinalizar no sentido de romper com o fisiologismo do chamado “presidencialismo de coalizão” anunciando previamente os nomes que comporiam um ministério pequeno, formado por pessoal qualificado. É indispensável reduzir o número de ministérios, reduzir ainda mais o número de cargos comissionados e não repetir a entrega de ministérios com “porteira fechada” a partidos. Atitudes como essas talvez frustrassem parte dos que apoiam Dilma Rousseff, mas eventualmente a aproximariam de muitos que se sentem perplexos com a gravidade da crise e com a ausência de propostas factíveis que tenham em vista o interesse nacional. O debate político está quase inteiramente marcado por clivagens partidaristas simplórias, sobressaindo o azedume das defesas apaixonadas daquilo que é indefensável. Dilma já deu mostras de ser bastante forte. Certamente não é indiferente ao sofrimento, mas consegue se manter impassível em momentos críticos. Deveria reunir suas melhores energias e dizer a que veio. Nessa hora tão grave, ela pode fazer a diferença se tiver coragem de se apresentar diante da nação com propostas claras, factíveis, compreensíveis, verdadeiras. Até porque não tem nada a perder. É atitude muito difícil de sustentar e que facilmente poderia resultar em fracasso, sobretudo em terra na qual a política foi transformada em especialidade de espertalhões notabilizados por levar vantagem em tudo e em habitat de bandidos notórios que se mantêm livres escarnecendo de todos. Mas seria gesto marcado pela dignidade e elevação  – que tanta falta fazem nesse momento. As pautas e os ecos de Junho de 2013

“Quem não conhece o esquema do Aécio?”

por Guilherme Scalzilli As gravações de Sérgio Machado enterram de vez o imaginário honroso e republicano do impeachment. Elas fornecem o retrato perfeito do combate à corrupção que mobiliza o antipetismo e da imoralidade que acompanha o processo golpista. Chega a ser divertida a quantidade de flagrantes insinuando negociatas escusas junto ao STF. Como pode haver tantas pessoas, até de facções opostas, com a mesma pretensão? Nesse ritmo, os anais da Lava Jato correm o risco de reunir mais citações constrangedoras à corte do que ao próprio Lula… O episódio não ameniza o viés tendencioso do procurador-geral Rodrigo Janot. Pelo contrário. Ele precisa explicar, no mínimo, por que escondeu até agora a gravação de Romero Jucá, feita em março. Que outras informações continuam guardadas para não prejudicar o avanço do impeachment? Por outro lado, é necessário muito ceticismo diante das conversas. Se tucanos e líderes do governo interino tivessem motivos para recear a Lava Jato, não haveria impeachment em primeiro lugar. Talvez sequer a Lava Jato. As interpelações de Machado têm algo de teatral, que dificilmente passou despercebido pelos veteranos interlocutores. O vazamento não ocorre por acaso, ou num ímpeto qualquer de transparência. O resgate da imagem dos investigadores e o fortalecimento de certas alas peessedebistas da gestão Michel Temer elucidam os interesses envolvidos. Os métodos utilizados também, inclusive na cobertura midiática. Supondo tratar-se de um conluio entre o PSDB serrista e os procuradores, o sacrifício de Aécio Neves parece tão inevitável quanto uma cartada final contra Lula. Aécio é o bode expiatório perfeito para salvar as aparências imparciais da caça ao petista. Que sempre foi, e continua sendo, o grande objetivo desse espetáculo justiceiro. Tudo é imoral nas gravações, e não apenas seu conteúdo. Publicado originalmente no Blog do Guilherme Scalzilli.

Para trás e para baixo

por Carlos Fico Adhemar de Barros, político paulista tido como corrupto, gostava do lema “Para frente e para o alto!”, que ele supunha expressar decisão e energia, além de indicar posição política de centro, “nem esquerda nem direita”. Ele concorreu à Presidência da República duas vezes, em 1955 e 1960, tendo sido derrotado em ambas, ficando nas duas em terceiro lugar. Na eleição de 1960 propunha uma espécie de racionalidade econômica e empresarial com seu slogan “Será o gerente do Brasil”. Outro lema de campanha dizia “Adhemar realiza”, eco da frase “rouba, mas faz” – que o tornara nacionalmente conhecido. Adhemar, como governador de São Paulo, apoiaria o golpe de 1964, pois tinha esperança de concorrer às eleições presidenciais de 1965, mas o primeiro marechal-presidente do regime militar cassou-lhe o mandato devido ao seu perfil populista e a sua fama de corrupto. Seria possível fazer muitas analogias entre a atual conjuntura política do Brasil e a imagem de político corrupto mas empreendedor de Adhemar. Entretanto, o que me veio à mente foi sua fulminante trajetória de fracasso, em contraste com o arrogante slogan “Para a frente e para o alto!”. Michel Temer não é Adhemar, mas o vice-presidente no exercício da presidência, além de expressar a arrogância dos que pretendem resolver os problemas dizendo “Agora vai!”- é habilidoso em escolher os melhores ingredientes para uma boa receita de fracasso. Não me refiro às muitas trapalhadas do início de seu governo, com as idas e vindas no número de pastas ministeriais; os convites públicos a pessoas que recusavam ministérios; a ausência de mulheres, negros e quadros renovados no primeiro escalão; a escolha do lema positivista para slogan do governo; a linguagem empolada e passadista em época de comunicação fluida; a extinção e recriação de ministério; a promessa não cumprida de formar equipe apenas com “notáveis” e por aí afora. Tudo isso culminou com a esperada mas sempre reveladora constatação de que auxiliar muito próximo considerava o impeachment de Dilma Rousseff uma forma de abrandar a Operação Lava Jato. O mais surpreendente é a disposição de Temer para implementar medidas que buscam não apenas equilibrar o orçamento por meio de ajuste fiscal, mas também que configuram políticas de governo derrotadas na última eleição presidencial e que minaram a popularidade de Dilma Rousseff quando a presidente afastada praticou uma espécie de “estelionato eleitoral” tentando efetivar o que não prometera na campanha. O governo Temer está propondo reformas muito amplas, que ficarão claras para a população nas próximas semanas. Parece a muitos analistas que esse interregno seria uma boa oportunidade para aprovar medidas amargas e impopulares: são as “reformas de que o Brasil tanto necessita”, para usar o mantra que se tornou lugar-comum de muitos comentaristas. Não se discute a necessidade de o Brasil promover reformas que reconfigurem seus sistemas previdenciário ou tributário – sem falar no político. Isso, entretanto, deve ser feito a partir de diagnóstico corajosamente exposto ao escrutínio dos cidadãos brasileiros, por candidatos que tenham propostas que os convençam e engajem. Tais reformas não podem ser enfiadas goela abaixo da sociedade como se fossem consenso técnico de especialistas neutros que, aproveitando esse momento de suspensão ou latência da normalidade política, as aprovariam como medida de salvação nacional. Essa perspectiva, em uma palavra, é autoritária. Ademais, é fadada ao fracasso. Só um governo fortalecido – venha essa força de onde vier, temos infelizmente de admitir – seria capaz de implementar reformas estruturais. Parece evidente que o atual governo não tem essa fortaleza.

O governo tucano de Michel Temer

por Guilherme Scalzilli  É absurda a ideia de que entre os governos Dilma Rousseff e Michel Temer há pouca diferença programática. Basta observar o que os golpistas fizeram com as áreas sociais, culturais e diplomáticas do ministério para se ter noção do retrocesso em andamento. Mas há um diferencial ainda mais evidente: o PSDB. José Serra, Fernando Henrique, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, todas as lideranças do partido foram agraciadas com cargos nos vários escalões da máquina. Desde 2002 não ocorria algo parecido. Supondo inevitável que o PMDB e os partidos nanicos aderissem a qualquer vitorioso em 2014, o que temos é uma versão próxima de um eventual governo Aécio. O golpe inverteu o resultado das eleições. Sem eleições. Aí percebemos por que é falacioso afirmar que o voto em Dilma dá legitimidade aos atos do seu vice. Temer não apenas traiu o projeto administrativo que o elegeu, mas também abraçou um partido adversário na disputa, rejeitado pelas urnas. Por mais que Dilma tenha recuado em suas plataformas, manter peessedebistas fora do Planalto representou uma fidelidade mínima a compromissos de campanha. Esse detalhe estava claro na polarização do segundo turno e, como vemos, tinha enorme importância para os rumos da gestão federal. No empoderamento do PSDB revela-se a essência antidemocrática do impeachment. A entrega de postos estratégicos ao partido viola princípios básicos de representatividade, impondo ao país uma agenda que ele não debateu e muito menos aprovou. A guinada tucana explica a sanha vergonhosa com que os golpistas tomaram de assalto o poder interino. A consumação rápida e implacável da hegemonia do PSDB é uma forma de nocautear a sociedade brasileira antes que ela perceba o tamanho do prejuízo. Publicado originalmente no Blog Guilherme Scalzilli. Ligado no dois de agosto Temer, o presidente-fantasma Elis, o meu coração e a PEC do Temer  

O golpe e a ponte para o passado

por Elaine Tavares Ponte para o futuro Temer – O golpe judiciário/midiático consolidado nessa quarta-feira, dia 11 de maio, no Brasil, encerra um ciclo na América Latina, que ficou marcado pela presença poderosa e carismática de Hugo Chávez. Liderança inconteste de transformações populares no continente, Chávez alavancou um período histórico para as gentes dessa parte do mundo. Participação protagônica, soberania, cooperação, solidariedade, elementos fundamentais para a organização de outra forma de viver. Não foi sem razão que o combate contra suas ideias foi igualmente poderoso e, passo a passo, consolidou a derrota da ideia generosa da pátria grande, trazida ao sul do mundo outra vez. A primeira fora com Bolívar, também derrotado pela sede de poder particularista de seus generais. O Brasil não chegou a vivenciar grandes transformações como a Venezuela ou a Bolívia, mas entrou no ciclo de ascenso de governos mais progressistas com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva em 2003. Com o governo petista não houve qualquer mudança estrutural, mas os pequenos avanços nas políticas públicas já foram capazes de mudar a cara do país, pelo menos a cara mais empobrecida. Programas de transferência de renda, moradia, saúde, acesso à universidade, tudo isso provocou alterações profundas na vida de milhões de pessoas. Não houve o chamado à participação protagônica como na Venezuela, mas só o fato de ter acabado com a fome crônica de mais de 40 milhões de pessoas e incluído outras tantas na roda do consumo já foi um sucesso estrondoso. O fato é que a classe dominante no Brasil aceitou engolir o “sapo barbudo” até certo ponto. Desde sempre tramou contra qualquer face mais transformadora do governo, que igualmente também aceitou as regras de não avançar muito, visando garantir governabilidade, uma vez que tinha o governo, mas não tinha um congresso fortemente favorável. O jogo político foi sendo jogado nessa correlação de forças. O PT foi abandonando suas velhas bandeiras e entregando os dedos e as mãos para a classe dominante. De certa forma, cavou o golpe que se encerrou no dia 11, até porque, ao longo desses anos de governo não foi capaz de atrair para o seu lado a classe trabalhadora como um todo, acendendo velas para o capital bem mais que para as gentes. O golpe A trama do golpe começou ainda no processo eleitoral do qual Dilma saiu vitoriosa. Como boa parte dos países que haviam entrado no ciclo “progressista” já estava dando sinais de esgotamento, era hora de, no Brasil, a direita de novo retomar as rédeas de maneira direta. E a aposta foi em Aécio Neves. Não funcionou. Dilma venceu as eleições e desde aí começou o sistemático ataque para derrubá-la. Todas as armas ditas legais foram usadas, não deu certo. Restava então a boa e velha tática do golpe, coisa que é “useira e vezeira” de acontecer no Brasil. Para quem não se lembra é sempre bom recordar que a independência do país foi conquistada assim: uma pequena quartelada montada por Pedro Primeiro, enganando o povo sobre estar “se libertando de Portugal”. Depois, foi a vez de outro golpe para empurrar a República, com uma reticente liderança militar, Marechal Deodoro da Fonseca. De um dia para o outro, as forças dominantes se ajeitavam e impediam as revoltas com acordos espúrios feitos a portas fechadas. Mais recentemente, em 1964, foi a vez dos tanques empurrarem para baixo da terra o sonho de um país de justiça para os trabalhadores do campo e da cidade. As reformas de base, que eram só pequenas reformas, já eram vistas como um “perigo comunista” e foram solapadas pelas botas e pelos fuzis. De novo a elite criando um consenso na sociedade sobre os males “comunistas” sem que as gentes sequer soubessem o quanto de beleza e generosidade esse sistema de organização da vida contém. Agora, em 2016, depois de já ter acompanhado os golpes judiciários/legislativos dados em Honduras e no Paraguai, a classe dominante brasileira, de olho nas riquezas intermináveis dessa terra, apostaram na mesma técnica. Uma acusação sem fundamento e um julgamento no qual o que conta é única e exclusivamente o desejo de retirar do poder a presidenta. Em Honduras a acusação foi de que Zelaya estava indo contra a Constituição por chamar um plebiscito, no qual a população pudesse decidir sobre os destinos do país. Foi deposto por isso. Seu crime: querer dar poder ao povo. Fernando Lugo no Paraguai, foi acusado de ser o responsável por um massacre de camponeses no interior do país. Ora, Lugo estava enfrentando os fazendeiros, querendo fazer uma reforma, pequena, no setor agrário. Foi deposto por isso numa acusação sem fundamento. Dilma sofre o mesmo processo no Brasil. Acusada de usar o recurso das pedaladas fiscais, coisa que todos os governantes fazem, ela foi afastada do governo para que a classe dominante pudesse tornar real sua ponte para o passado. Não que o governo petista tenha conseguido gerar brilhantes futuros para a nação brasileira, mas certamente, como já foi dito, foi o que mais tornou possível uma participação – ainda que mínima – dos empobrecidos no projeto de nação. É fato que a inclusão dos mais pobres foi dentro da lógica do consumo capitalista, mas o fato de alguém simplesmente comer, num contexto de fome crônica, não pode ser considerado menor. Enfim, todas as críticas ao governo de Lula e Dilma podem ser feitas e já o foram ao longo desses anos. Mas, o que não se pode ocultar é que o que aconteceu nesse dia 11 foi um golpe. De outro tipo, de outra cor, de outra estirpe, mas um golpe. Agora, o passado Finalizado o processo golpista com o afastamento da presidenta, o país deverá viver um ciclo de violento retrocesso e tudo isso está documentado na proposta chamada de “ponte para o futuro”, divulgada por Temer, o ilegítimo. Não bastasse a conformação do ministério, completamente alinhada aos ditames neoliberais, as propostas são claramente um retorno aos tempos nos quais o Brasil se subordinava completamente aos interesses do grande capital.

Secundaristas inventam uma nova escola

por Elaine Tavares Pouca coisa tem sido divulgada dessa encantadora revolução educacional que vem se verificando em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás, onde estudantes estão ocupando as escolas em luta contra as propostas de fechamento, roubos de merenda e por condições melhores de funcionamento. Como sempre acontece, o que é uma batalha particular, acaba crescendo e escapando dos objetivos primeiros. Hoje, os secundaristas desses estados – experimentados no embate com o governo – começam a perceber que há algo muito errado na forma como a educação é apresentada e oferecida. Outro dia, numa rede social, li o depoimento de um professor sobre um garoto chamado Matheus. Ele dizia que Matheus era um “problema” na escola e que todos os seus colegas falavam dele como uma espécie de caso perdido. Não estudava, não se comportava, não queria saber das aulas. Pois com a ocupação, eles passaram a conhecer um outro guri, que participava, que vinha para a escola fora do horário, que limpava, que cozinhava, que encontrava naquele espaço ocupado uma razão para viver. Ou seja, a escola de antes não podia ser amada. Essa, ocupada, em luta, sim. Matheus mostra uma verdade radical: a escola é ruim. O jeito como ela se estrutura não fomenta desejos e amores. Mas, uma escola ocupada, conduzida pelos estudantes, ela suscita paixão. Há debates, polêmicas, cantoria, risos, trabalho, alegria, discussão, embates. Uma escola assim a gurizada defende, ama e abraça. Uma escola na qual as relações são afetivas, humanas, e o conhecimento não é fragmentado, as possibilidades do conhecimento são infinitas, apaixonantes. E os jovens querem mudar a escola, e o estão fazendo. Em São Paulo, por exemplo, onde ocorreu o roubo da merenda escolar, o processo vai se radicalizando ainda mais. Nessa semana os estudantes ocuparam a Assembleia Legislativa de São Paulo exigindo investigação e punição dos ladrões da merenda. Há uma CPI em andamento, mas tudo segue muito lento e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, se faz de mosca morta, sendo ele um dos principais acusados. No Rio de Janeiro já são mais de 60 escolas ocupadas, com os estudantes exigindo melhorias na estrutura e no formato da educação. Todo o aparato repressivo tem sido utilizado pelos governos para quebrar a força dos secundaristas. Tudo em vão. A cada ação da polícia, mais cresce o movimento. É como uma onda que vai tomando corpo, disposta a formar um tsunami. Na mídia comercial pouco se fala dessa transformação radical que está sendo feita cotidianamente pelos estudantes. Uma ou outra matéria fragmentada, obviamente mostrando a gurizada como baderneira e irresponsável. Cria um consenso no qual a luta aparece como bravata de uns poucos “desocupados”. Mas, enquanto os cães de guarda do poder vomitam discursos de ódio, esses jovens secundaristas estão amalgamando uma nova forma de viver a educação. Se o governo corta a luz, eles acendem velas, se o governo corta a água, os parentes e amigos levam os baldes cheios, se o governo manda a polícia eles enfrentam e resistem. É uma coisa linda o que está acontecendo. Um movimento de amor, de ternura, de compromisso, construído por uma juventude frequentemente acusada de “alienada”, “fútil”, “vazia”. Acampados, entrincheirados, acomunados, eles vão abrindo caminhos que haverão de se descortinar em maravilhas. É preciso que o Brasil olhe com muito cuidado para essas carinhas sorridentes que aparecem do outro lado das grades dos portões escolares. Porque eles estão escrevendo a história. Nenhuma dessas escolas ocupadas pelos estudantes sairá ilesa desse processo. As coisas irão mudar radicalmente. Pode até ser que não agora, mas fatalmente acontecerá. Porque é assim que se produz a caminhada humana. Ações singulares ou particulares que, num repente, tomam a dimensão universal. As escolas terão de mudar, porque a gurizada quer estudar, quer conhecer, quer compreender o mundo. E a luta que hoje estão fazendo fatalmente terá frutos. Essa batalha bonita vai também mudar as pessoas. E não só os estudantes. Mudarão os pais, os tios, os avós, os parentes todos, os amigos. Cada guri, cada guria que tenha vivido essa experiência saberá que as coisas na escola podem ser bonitas, instigantes, surpreendentes, apaixonantes, e isso vai transformar o cotidiano. Talvez a mudança não aconteça, assim, de inopino, hoje, na semana que vem. Mas, a história nos mostra: ela virá. A pedagogia das ocupações está forjando uma nova escola, uma nova educação. Dá para sentir as paredes ruindo. E esses meninos e meninas que resistem nas escolas são os artífices de tudo isso. Que a história dê a eles o lugar que merecem! Ao abraçarem suas escolas com tamanha paixão, eles fazem uma declaração de amor universal e mudam o mundo inteiro. Com eles, caminhamos! Publicado originalmente no Blog Palavras Insurgentes.

O vice, o presidente da Câmara e o PMDB

por Carlos Fico Todos sabemos que a ditadura militar começou com o golpe de Estado de 1964. O que poucos comentam é que ela também se encerrou com manobra golpista consentida: Tancredo Neves, presidente civil escolhido pelo Colégio Eleitoral para suceder o último general-presidente, foi internado na véspera da posse, dia 14 de março de 1985. Na sala de espera do hospital, reuniram-se as principais lideranças da República discutindo quem deveria tomar posse. Terminado o mandato do general, e não tendo o novo presidente tomado posse, cabia ao presidente da Câmara dos Deputados assumir a Presidência. A discussão ia nesse sentido quando chegou o general Leônidas Pires Gonçalves, nomeado por Tancredo ministro do Exército. Ele decidiu a questão: quem devia assumir era o vice-presidente, disse. José Sarney ainda não era vice, mas Leônidas era general. O presidente da Câmara era Ulysses Guimarães, do PMDB, que aceitou a imposição do general para não colocar em risco a transição para a democracia. Sarney “estava” no PMDB, mas, até pouco tempo atrás, havia presidido a ARENA, partido de sustentação do regime militar, que, após a reforma partidária de 1979, adotou o nome de PDS. Em 1984, após a derrota da campanha das “Diretas Já!”, Sarney havia tentado contornar a candidatura de Paulo Maluf à Presidência da República pelo PDS propondo prévias partidárias, mas foi derrotado, criou a dissidência “Frente Liberal” e apoiou Tancredo lançando-se candidato a vice e ingressando no PMDB. Foi desse modo que o antigo chefe do partido de sustentação do regime militar se tornou o primeiro presidente civil da democracia. O antigo MDB havia tido atuação bastante destacada na assim chamada “resistência democrática” contra o regime militar, sobretudo após o fracasso da luta armada (cujo auge se deu entre 1969 e 1972). Em 1973, era um partido em decadência: caíra dos 21 senadores e 140 deputados, que contava em 1966, para 7 e 87, respectivamente. Alguns integrantes falavam até em “autodissolução”. Mas nesse ano Ulysses Guimarães lançou sua “anticandidatura” à Presidência da República. Sabendo que não seria eleito, conseguiu, entretanto, mobilizar o partido e, em 1974, o MDB teve bom desempenho na eleição para o Congresso Nacional. Em 1982, o PMDB conquistaria governos estaduais importantes (SP e MG). O MDB/PMDB sempre foi um partido heterogêneo, verdadeira “frente”, por ser procedente do bipartidarismo artificial imposto pela ditadura, mas o forte fisiologismo pragmático que o caracteriza talvez tenha sua origem no governo do vice Sarney, marcado pela chamada “engenharia política” de Tancredo Neves – espécie de presidencialismo de coalizão avant la lettre – e pelo grande “estelionato eleitoral” de 1986. De fato, Sarney havia lançado o Plano Cruzado para combater a inflação em fevereiro de 1986. Depois de algum tempo, todos perceberam que o plano fracassaria e indicaram a necessidade de medidas impopulares, que Sarney e o PMDB negaram até as eleições de novembro daquele ano. Vieram as eleições, o PMDB foi amplamente vitorioso na onda otimista do Cruzado. Dias depois, as medidas foram anunciadas, inclusive o fim do congelamento de preços. A inflação voltou, mas o PMDB se tornara o maior partido da história do país. O presidente da Câmara passaria a ser o homem mais influente da República, com ascendência inclusive sobre o presidente.

Carta para os jovens neste domingo

por Urariano Mota Em outubro de 2010, na eleição do primeiro mandato de Dilma, escrevi: O sentimento interno era de quarta-feira cinzenta, embora o sol no jardim, no céu azul, fizesse e faça um absurdo contraste entre a paisagem física e o que vem dentro do peito.  Com tanto canto de pássaro, com tantos sininhos que passam a anunciar sorvete, pra quê sofrer, ou como lembrava Vinícius, “pra quê sofrer / Se há sempre um novo amor / Em cada novo amanhecer”? Nem precisava dizer, mas sou obrigado, porque ao escrever tenho que ser claro, mais límpido e vivo que o sol agora na rua: estava triste, sem explicação ou norte para o comportamento eleitoral de parte dos jovens no último domingo. Chateado, para dizer o mínimo, porque esperava uma votação majoritária, eloquente, expressiva, para Dilma. Para quem já foi professor de jovens, e de muitos deles ou quase todos de área de risco, porque todo jovem sempre está em área de risco, material ou de angústia… Se me entendem, para quem tem filhos na idade dos 20, ou que acompanha os conflitos a ponto de explosão dos filhos de amigos que não adotaram a tática da conformação… Se me entendem, foi como uma traição dentro de casa, dentro do coração, para um bem muito precioso, tão ou mais importante que a vida. O dado objetivo, exterior, de cumprimento de dever eleitoral, cheio de pesquisas e números não nos atinge. Mas as pessoas em quem mais acreditamos, os que vêm depois de nós neste barco e jornada, sim.       “Eu não quero ver você cuspindo ódio /  Eu não quero ver você fumando ópio, pra sarar a dor / Eu não quero ver você chorar veneno…” Zeca Baleiro nos chegava porque naquele domingo o ouvimos muito, quase como uma premonição do que viria. “O melhor futuro este hoje escuro”, ouvíamos, apesar da onda do mar a bater no arrecife, no sol da tardinha. Já na jovem caixa do supermercado, já nas notícias dos filhos nas salas de aula, vinham notícias de que Dilma não era majoritária. Por quê? Assim foi em 2010. E a candidata Dilma foi eleita para seu primeiro mandato. Por sorte ou necessidade, nesta hora difícil de 2016, recebo uma mensagem de uma jovem estudante, que me pergunta: “Você acredita que o impedimento da presidenta vai realmente acontecer?” Então eu lhe respondi: “É a situação mais grave que o Brasil já passou depois da ditadura. Reúnem-se contra o voto popular a grande imprensa, empresários, o legislativo e largos setores do judiciário. Mas é um absurdo absoluto. Projetam retirar do poder uma presidenta que não é desonesta, que não rouba nem cometeu crime. Eu não sei se o impeachment passa. Mas sei que vai nos encontrar com o moral e a moral altos. Esta profunda crise tem, pelo menos, uma coisa boa: desperta a consciência política nos jovens, acorda as forças dos mais velhos, que andavam meio enferrujados. Estamos todos com a mesma idade”. E respondo enfim de outra maneira, com as linhas que escrevi esta manhã para um romance inédito. Ele fala da juventude dos anos da ditadura, que resiste nos velhos militantes. Vocês bem imaginam o quanto tem sido difícil a concentração quando tudo e todos nos exigem e reclamam para a luta lá fora. Ainda assim, pude escrever hoje: Nós não nos predizíamos uma idade madura, com os cabelos brancos. Essa possibilidade era uma impossibilidade. Só agora descubro por que o nosso peito estoura de alegria, quando o meu amigo abre os braços tentando abraçar o oceano: – Somos jovens.  E começamos a rir, como se ríssemos de um absurdo, porque aos 20 ou 21 anos não podíamos ser outra coisa, a não ser jovens. Esse era o nosso pretexto de rir. Mas ríamos de fato era com a hora que foge, que partia de nós como um trem-fantasma a penetrar no escuro. Assim foi, hoje. Então eu termino agora, à margem do romance, entrando na vida real e angustiante destes dias: que venha o próximo domingo. Haja o que houver, estaremos renovados. Com a juventude mais longa do coletivo que somos.

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