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Política

Uma luz para você entender um pouco sobre o imbróglio político em que o país está metido.

Brizola ‘fala’ do pedido de impeachment de Dilma

por Marceu Vieira O cronista digital revisitou o arquivo particular do tempo em que atuava como repórter político, sobretudo no “Jornal do Brasil”, e, levado por uma alucinação, reentrevistou Leonel Brizola (1922-2004), o velho trabalhista gaúcho, governador do Rio Grande do Sul uma vez, do Rio de Janeiro duas. No armário reaberto de sua memória, Brizola disse a ele o que pensa do pedido de impeachment de Dilma, das infelicidades do PT, do protagonismo de Eduardo Cunha, de Michel Temer, de Aécio Neves, do juiz Sérgio Moro, do PMDB, da TV Globo, da imprensa em geral, das manifestações pró e contra o governo, do “Big Brother Brasil”, da seleção do Dunga, da novela das oito e de mais um pouco de um pouco mais.   Governador, o senhor tem acompanhado o atual momento do Brasil? Veja. Devo te dizer que tenho acompanhado com muita preocupação tudo isso que aí está. A rigor, o que se está tentando construir, hoje, no Brasil, é um golpe.   Juristas renomados têm lembrado que o impeachment é previsto na Constituição. Por que, então, seria um golpe? São vozes contaminadas por conveniências de certos grupos políticos. Pergunte a esses juristas em quem eles votaram em 2014. Veja bem. A presidente Dilma foi eleita com 54,5 milhões de votos. Tirá-la do poder só porque não gostam dela, isso não é um golpe? Aí vem a TV Globo com seus porta-vozes e diz: “Ah, não, não é golpe, não, porque o impeachment está previsto na Constituição.” Mas o que há, de fato, contra Dilma? A rigor, francamente, não há nada! Então, tirá-la é golpe.   O senhor continua em combate com a TV Globo, mesmo daí? Não diria isso. Depois da minha morte, eles lá me deram uma trégua. Já haviam me dado antes um pouco. Os velhos e os mortos costumam ser contemplados com esses favores, não é verdade? São os favores da idade e, agora eu sei, também os da morte. Mas compreendo que este momento vivido pela presidente Dilma é muito parecido com aqueles dias de perseguição implacável que sofri deste império Globo. A Globo, honestamente, com todos os seus tentáculos, parece cumprir o último quarto de hora de seu domínio. Daqui onde estou, vejo grandes mudanças à vista. Grandes mudanças. Os impérios, todos eles, nascem, prosperam e fenecem. A História tem muitos exemplos.   O senhor não acha que… Deixe-me concluir. Então, se a Globo diz que não é golpe, só porque ela diz, o povo brasileiro deve acreditar? É como eu sempre disse. Tem rabo de jacaré, tem dente de jacaré, olho de jacaré, cabeça de jacaré, couro de jacaré… mas não é jacaré?! Veja, não conversei com o Roberto Marinho. Porque, também aqui, procuramos nos evitar. É ele lá e eu cá. Mas posso assegurar que nem o Roberto Marinho, nem ele deixaria de classificar este ajuntamento de forças contra um governo democraticamente eleito como uma tentativa de golpe. Digo mais. O Roberto Marinho deve estar descontente com os filhos dele. Como condenar uma pessoa se não há um crime? É como eu vejo.   Qual a sua análise do papel da imprensa neste momento? Tu sabes do apreço que tenho pelos jornalistas. Minhas batalhas sempre se deram em outra esfera, em outro plano. Tu sabes também o quanto a Globo e seus satélites, como o seu jornal e suas rádios, me perseguiram. As rádios, menos, é verdade. Mas estas costas aqui ainda me doem de vez em quando por causa das chibatadas que recebi das Organizações Globo. Sobretudo da TV e do jornal, que cresceram e prosperaram e se tornaram um império na ditadura. A Globo, sobretudo, é filhote da ditadura! Mas, sabes?, nem disso guardo mágoa. O que se vê hoje, creia, é menos cruel do que eu suportei. Tudo que o Leonel Brizola fazia… e… tiscs… até o que o Leonel Brizola não fazia… tudo era motivo de contestação desse império. A meu ver, Perseu…   Marceu, governador… A meu ver, o papel da imprensa é fiscalizar, denunciar. E creia que a História só é escrita porque existem contemporâneos que a relatam. Estes contemporâneos são tu e teus iguais, jornalistas, e eu os respeito. Agora, a manipulação, ou o destaque sem medida e sem propósito que se dá a determinados fatos, isso, francamente, a História trata de dissipar e de dissolver no seu grande caldo. De modo que respeito os jornalistas, mas sempre tive graves ressalvas com seus patrões.   E o papel do juiz Moro? Veja. Este rapaz, o juiz Moro, é um jovem magistrado, voluntarioso, que tem lá suas boas intenções e as suas convicções. Daqui o assisto. Mas, francamente, percebo algum deslumbramento nos seus procedimentos. Não quero desagradá-lo nem desrespeitá-lo. Mas a divulgação da conversa do Lula com a presidente Dilma, olha, francamente, aquilo foi um inominável excesso. Com todo o respeito ao magistrado Moro, foi sim. Lula, em conversas privadas, é desabrido, não resiste a um k-7. A mim mesmo já me disse coisas que eu não ousaria repetir. Mas, honestamente, na minha convicção, divulgar aquela conversa, olha, foi um sinal de perigo para o que ainda pode vir.   Que coisas foram essas que o Lula disse ao senhor em caráter privado? Dirceu, veja, ele jamais me disse nada que fizesse uma vaca dar mais leite no pasto, como se dizia lá no campo, ou um cusco caído de mudança se achar. São coisas que morreram comigo. Não tive tempo de acompanhar aí esse programa da Globo, o “Big Brother”. Mas creio que o juiz Moro cedeu à tentação do “Big Brother” ao expor uma conversa sem consequências da presidente Dilma com o Lula.     O senhor concorda que os pecados do PT comprometeram o governo Dilma? A rigor, o PT, por si só, já é fruto de um pecado. O PT foi gestado na ditadura com a permissão dos militares para diminuir a nossa força. Nós temos essa compreensão. Nós, que estávamos no exílio, deveríamos ser aniquilados. O plano era

Os golpes

por Carlos Fico Se consumado, o impeachment de Dilma Rousseff será um duro golpe na democracia brasileira, inclusive em função da banalização desse instrumento, que, nesse caso, terá sido usado duas vezes no Brasil em pouco menos de 25 anos. “Que país é esse” – para citar frase de tristíssima memória – no qual temos de recorrer ao impeachment com essa frequência? A longa tradição de golpes ‘brancos’ no Brasil Será, também, um tremendo golpe político baseado em injustiça gritante, afinal, até o presente momento, a presidente Dilma Rousseff não foi acusada de envolvimento na Operação Lava Jato e o crime de responsabilidade que se menciona (“pedalada fiscal”) é cometido por virtualmente todos os governantes brasileiros há muito tempo. É essa percepção de injustiça flagrante que leva muitas pessoas a chamar a tentativa de impeachment de “golpe”, seguramente querendo dizer “golpe de Estado”. Não é o caso, mas algumas circunstâncias são de fato agravantes da mencionada injustiça. Por exemplo, diversos parlamentares condutores do processo são suspeitos de crimes diversos, o início do processo foi corrompido por espírito de vingança, a própria motivação do pedido de impeachment não repousava em convicções fortes (o documento inicial é débil). Outros exemplos poderiam ser citados. A palavra de ordem “não vai ter golpe” deu oportunidade aos defensores doimpeachment para que afirmassem o óbvio: ele está inscrito na Constituição. Isso desviou a discussão para o terreno jurídico, que não frutificará. Aliás, ao contrário do que muitos dizem, a caracterização das “pedaladas fiscais” como crime de responsabilidade não é impossível, de modo que a discussão legal no contexto de um processo político é vã. Tudo se resume ao número de votos de que dispõe o governo e à capacidade que tem de postergar a decisão final. Se o Congresso aprovar o impeachment, dificilmente o STF desfará a decisão pois, nesse caso, teríamos crise institucional sem precedentes. A palavra de ordem “não vai ter golpe” também provoca uma contradição, uma desnecessária dificuldade de natureza racional: se o processo deimpeachment é entendido como golpe, a atuação parlamentar que busque impedi-lo não o estaria legitimando? Lembre-se, finalmente – sem querer fazer paralelismos indevidos – de que, pouco antes de 31 de março de 1964, setores da esquerda garantiam que não haveria golpe: “se a direita levantar a cabeça…” Se não estamos vivendo plenamente um golpe de Estado no momento, certamente estamos vendo sinais expressivos de adesão a soluções fáceis e autoritárias, sobretudo essa, do impeachment, para resolver a insatisfação com o governo (que, no presidencialismo, se resolve com a próxima eleição). Muitos outros indícios de autoritarismo têm sido vistos em relação a outros episódios, especialmente no contexto da Operação Lava Jato, como as ações políticas do juiz e dos procuradores e, muito especialmente, na grande imprensa que, por razões óbvias, despreza os detalhes e aposta na catástrofe. Isso sem falar nas manifestações de violência e autoritarismo da própria sociedade. O golpe de Estado de 1964 completa 52 anos hoje. Penso que ele tem grande atualidade. Em 2014, nos 50 anos do golpe, escrevi em livros e repeti em dezenas de palestras que repensar o golpe era importante porque isso nos permitia refletir sobre o persistente autoritarismo brasileiro. Tendo em vista o apoio de setores da sociedade ao golpe de 1964, eu dizia: “a questão que se impõe, para mim, é a seguinte: até que ponto a sociedade brasileira aceitou – ou ainda aceita – fórmulas autoritárias para a resolução de seus conflitos?” Parece-me que a questão continua muito atual e a resposta, infelizmente, óbvia.

O que nos diz a lista da Odebrecht

por Elaine Tavares A guerra de torcidas entre os partidários de Moro e de Lula tem escondido algo muito mais precioso do que os nomes dos que receberam propina da grande empreiteira global, Odebrecht. É nada mais nada menos do que a prova concreta daquilo que podemos chamar de “ditadura do capital”. Um pouco o que o candidato estadunidense Bernie Sanders vem tentando dizer na sua inusitada campanha bem no centro nervoso do sistema. É também a comprovação de algo que até então estava apenas no discurso dos “comunistas” (para o senso comum, qualquer um que critique o sistema), como mais uma de suas loucuras.  Ou seja, a dita democracia burguesa não é democracia. Ela é o espaço no qual reina a bem camuflada ditadura econômica. Sim, eu disse ditadura. Esse “fantasma” que, na boca dos “democratas” só existe nos espaços de seus inimigos. Pois essa bem azeitada ditadura do capital usa os deputados, senadores, prefeitos, governadores, vereadores, em sua maioria quase absoluta, para representar os interesses de grandes grupos econômicos e não os da população que o elege. Nós somos os otários A tão incensada democracia liberal – que o presidente Obama fez questão de dizer em Cuba que é “melhor do que a ditadura de um homem só” – é um grande engodo. Nela, o império é o do dinheiro. Quem tem a “plata” investe em pessoas que vão defender seus interesses como se estivessem defendendo os destinos de toda a nação. Por isso, uma boa estudada na conformação das bancadas legislativas das cidades, dos estados e dos países, e vamos ver que o que ali está em jogo são as necessidades do grande capital, seja ele produtivo ou financeiro. Muito pouco está em pauta o desejo da maioria da população. Não é sem razão que numa cidade como Florianópolis, por exemplo, enquanto milhares de pessoas se manifestam em frente à Câmara de Vereadores contra a proposta de um Plano Diretor que destrói a cidade , a maioria dos legisladores vota às pressas e sem discussão um plano que só será bom para as grande empreiteiras, os bancos e os empresários do turismo. Essa é a lógica. A lista da Odebrecht em suas centenas de nomes não deve ser diferente de outras tantas listas que poderíamos descobrir em outras empreiteiras, ou bancos, ou federações de empresários. Essa gente é quem tem o controle do país, e paga generosamente por isso. Assim, bancadas como a da bala, do boi ou da bíblia, no Congresso Nacional, para além de seus interesses particularistas  – que também existem – escondem também a manipulação da política para favorecer a manutenção do sistema capitalista, concretizado pelas grandes empresas e bancos. Tudo está ligado. Nesse universo perverso salvam-se alguns legisladores que, por suas lutas e por suas ligações viscerais com as comunidades onde vivem, apenas se configuram em exceções à regra. A lista da Odebrecht é só a ponta de um escândalo maior, que é o da farsa da democracia. Ela não existe. É apenas uma palavra, que os governantes usam como arma contra os que decidem organizar a vida de outra forma, e que sejam seus inimigos. Porque pensem bem: que diferença há entre a organização da vida de Israel para o Irã. Ambos os países são teocráticos, governam em nome de uma verdade revelada desde cima, um deus. Mas, Israel é amiga dos EUA, então pode. E Cuba? Como pode um arrogante como Obama ir arrotar na cara dos cubanos que a democracia dele é melhor? Ou que Cuba não tem democracia? Os legisladores cubanos são eleitos em eleições onde a propaganda eleitoral não existe. O candidato tem de ser alguém que atua de verdade na comunidade e, por isso, é conhecido pelas gentes. Ali a ditadura é outra. É a da maioria dos trabalhadores, dos que vivem a vida cotidiana e decidem nela. Já na democracia liberal, do Obama e a nossa, a ditadura é a do capital. São ditaduras diferentes, com objetivos diferentes. Uma visa o bem de todos e outra visa o enriquecimento de alguns. Nós estamos aí no meio desse rolo e cabe a nós decidirmos em qual delas é melhor viver. Há os que ingenuamente acreditam que na ditadura do capital há chances para todos, e que se trabalharem muito, “chegarão lá”. Sim, pode ser que sim. Mas serão poucos, muito poucos. Nesse tipo de sistema – a democracia liberal ou a ditadura do capital – o jogo é entre os “cachorros grandes”, não tenha ilusão. Assim que ao fim e ao cabo, a lista da Odebrecht, que contempla políticos de quase todas as cores – lembrem-se das honrosas exceções – é uma boa oportunidade para que as pessoas saiam do âmbito da consciência ingênua e se deparem com a verdade nua. A de que os que fazem as leis, os que julgam, os que comandam, nada mais são do que mandaletes dos graúdos. E contra eles só tem um jeito: povo crítico, unido e em luta. Publicado originalmente no Blog Palavras Insurgentes.

O que Machado de Assis falou do juiz Sérgio Moro

por Urariano Mota O maior escritor brasileiro, gênio absoluto, não deixaria de falar sobre as aparências de justiça da direita brasileira. Mas o mais impressionante é que ele, Machado de Assis, tenha já falado do juiz Sérgio Moro. Sim, daquele mesmo que faz do Paraná o centro do golpe contra a democracia no Brasil. Acompanhem, porque toda arbitrariedade da hipócrita limpeza da sociedade já foi escrita desde 1882, para tipos e gênero como Sérgio Moro, que são mais antigos do que se imagina. Com a pena da galhofa e a tinta da melancolia do mestre da literatura nacional acompanhem, porque não será difícil ver o que poderá sair desse estranho encontro separado por 134 anos. As linhas e a fala de Machado de Assis sobre Sérgio Moro estão em O Alienista, sobre o qual comento agora, livre da delação premiada. Já no começo, ele escreve: “A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo”. Ora, por motivos ficcionais, o Sua Majestade aí quer dizer complexo mídia e direita brasileira. Itaguaí é o novo nome da justiça federal em Curitiba. E a ciência vem a ser os meios de espionagem e montagem sobre os inimigos que se quer denunciar. Mas não nos percamos, porque Machado de Assis observa:  “Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, – o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada… A saúde da alma é a ocupação mais digna do médico”. É claro que em “patologia cerebral” está uma metáfora para a “corrupção que interessa”. E por médico se deseja falar “juiz federal especializado em Harvard e no Departamento de Estado do governo dos Estados Unidos”, que não formam ninguém sem a inoculação da ideologia capitalista. E por “saúde da alma” entenda-se a limpeza Lava Jato. Mas vamos adiante, porque agora começa a verdadeira antecipação do gênio de Machado. “De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era um povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos”. Observem que assim disposto a pesquisar a corrupção onde interessa, não faltariam mesmo loucos ou corruptos, de toda a família dos deserdados da ética. A Casa Verde, o outro nome antecipatório da cadeia da Polícia Federal em Curitiba, virou uma povoação. Nos cubículos, nas celas já não cabem tantos corruptos, falsos corruptos ou quem o alienista Moro desejar como corrupto. E Machado de Assis esclarece:  “Uma vez desonerado da administração, o alienista procedeu a uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas. Isto feito começou um estudo acurado e contínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências; inquiria na vida dos enfermos, profissão, costumes, circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma descoberta interessante, um fenômeno extraordinário”. Mas não é extraordinário? Está aí o método de investigação do Dr. Moro. Extraordinária é a previsão em mais de 130 anos do bruxo do Brasil. Olhem só se não é verdade: a divisão entre os loucos, os corruptos furiosos e mansos. Para os primeiros, o peso da lei que alcança todo e qualquer delinquente popular. Para os segundos, os mansos, o que vale dizer, para os que colaboram com a delação premiada, a suavidade e o melhor tratamento. Isso feito, passa-se à análise dos dossiês, dos hábitos, simpatias, palavras, gestos e tendências dos escolhidos furiosos, que loucos apoiaram os governos Lula e Dilma. Daí se vai aos antecedentes familiares, à vida pessoal, “a uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado corregedor”. E a cada dia, a cada semana, uma descoberta interessante. O escritor disse tudo ou não? Mas o velho Machado foi mais longe:  “Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais  simples  mentira  do  mundo, ainda  daquelas  que  aproveitam  ao  inventor  ou  divulgador….” O que me dizem? Notam a previsão absoluta do princípio acanalhado da delação premiada? Na delação, ou nos chamados com pompa de “processos investigatórios”, há curso e experiência até mesmo para a mais simples mentira. Mas não nos percamos, porque o melhor virá adiante. Atentem porque assim falou Sérgio Bacamarte, ou melhor, Simão Moro, quero dizer, Simão Sérgio Bacamarte Moro:  “Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus  estudos, era  até  agora  uma  ilha  perdida  no  oceano  da  razão; começo  a  suspeitar  que  é  um  continente”. Isso quer dizer: a corrupção, que no começo deveria ser uma ocorrência isolada, como se fosse uma ilha de pecado em um mar de virtude, vê-se agora que é maior. Ou seja: em um sistema corrupto por essência, gênese, nascimento e destino, Simão Moro Bacamarte ainda vai descobrir o capitalismo, esse verdadeiro continente. Ou como escreveu e antecipou Machado de Assis: “Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:  – Suponho o espírito humano uma vasta concha. O meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia”. Mas onde está a razão, ou a decência, ou a pura honestidade? Devemos dizer, onde se encontra a perolazinha da

O sistema financeiro está drenando o Brasil

Segundo o economista Ladislau Dowbor, é fundamental demonstrar como pessoas vêm sendo espoliadas pelo sistema financeiro. “Nunca tivemos uma aula sobre dinheiro”. da Fundação Friedrich Ebert para Agência Carta Maior   Em mais um encontro da série Conjuntura Econômica do Brasil, a Fundação Friedrich Ebert, o Brasil Debate e a Plataforma de Política Social promoveram um debate, na última quarta-feira (2.12), com a presença dos economistas Ladislau Dowbor (PUC-SP) e Fernando Nogueira da Costa (Unicamp). Em discussão, o processo de financeirização da economia brasileira e as ideias centrais do artigo de Dowbor, “Resgatando o potencial financeiro do Brasil”. Publicado pela Fundação Friedrich Ebert, o estudo aponta as distorções do sistema financeiro e demonstra como os abusivos juros bancários, juros dos cartões de crédito e do cheque especial, crediários e alta taxa Selic vêm travando a demanda das famílias, a expansão da atividade empresarial e a capacidade de investimento do Estado em infraestrutura e políticas sociais. A partir de dados, de várias fontes oficiais, Dowbor iniciou sua apresentação explicando como a demanda das famílias vem sendo travada pela intermediação financeira. “Hoje, 46,5% da renda familiar, quase a metade, está comprometida com o pagamento de dívidas; em 2005, o índice era de 19,3%. Como é possível dinamizar a demanda desta forma?”, questionou. Considerando a média ao ano dos juros cobrados sobre a pessoa física, Dowbor explicitou as causas do alto endividamento: “em média, ao ano, são cobrados juros bancários na ordem de 103% para a pessoa física; crediários a 72,33% que dobram o preço do produto e reduzem a capacidade de compra do consumidor; juros exorbitantes na faixa, em média, de 238,67% nos cartões de crédito e a 159,7% no cheque especial”. O vale tudo do sistema financeiro Os juros abusivos também estão travando a expansão das atividades empresarias no país. Dowbor demonstrou que longe dos índices praticados para a pessoa jurídica na zona do euro – a 2,20% ao ano -, a taxa média cobrada no Brasil chega a 50,06% ao ano: 24,16% para capital de giro e 34,80% para desconto de duplicatas. “Tocar uma empresa nessas condições não é viável”, avaliou, destacando que diante de juros altíssimos e da queda da demanda, o empresário prefere aplicar sua receita em títulos da dívida pública, com risco zero e liquidez total. Além disso, as sucessivas altas da taxa Selic elevaram o custo da dívida pública a um patamar de 5% do PIB brasileiro. Segundo o economista, neste ano, cerca de R$ 400 bilhões serão transferidos dos nossos impostos diretamente para os grupos financeiros, representando uma esterilização significativa da capacidade de investimento do governo federal em infraestrutura e políticas sociais do país. “Travadas a demanda, a capacidade de expansão das empresas e de investimentos do poder público, a economia para”, explicou Dowbor. A este quadro, complementou, soma-se uma evasão fiscal na ordem de 8,6% do PIB, mais de R$ 500 bilhões em desvios; além das distorções do sistema tributário brasileiro que levam os mais pobres a pagarem proporcionalmente mais do que os ricos. Por que a economia travou? Dowbor também chamou a atenção para o fato de que mesmo nas compras à vista, com cartão, os bancos se apropriam de 5% na modalidade crédito e 2% na modalidade débito, um valor significativo de recursos destinado aos cofres dos bancos. De uma forma geral, por meio dessa intermediação que afeta a capacidade de consumo, produção e os investimento público, “os recursos que deveriam ser reinvestidos no fomento da economia são desviados para a especulação financeira e escapam, em grande parte, dos impostos”, avaliou. Uma drenagem realizada sob a conivência da imprensa que, a serviço dos intermediadores financeiros, incensa o pânico da inflação na população a cada tentativa de redução dos juros, lembrou Dowbor. “Na TV, eles martelam exatamente o que os intermediários financeiros esperam da inflação”. O economista também destacou que “o Brasil não é uma ilha”, portanto, não sofre isolado, nem sozinho, as consequências das distorções do sistema financeiro internacional. “Entre os 147 grupos que controlem 40% do mundo corporativo do planeta, 75% são instituições financeiras”. Sob a premissa de que não se trata de ser contra os bancos, mas sim de torná-los vetores de desenvolvimento, Dowbor vem defendendo a redução progressiva da taxa Selic para obrigar os bancos a procurarem aplicações alternativas, estimulando as iniciativas de empreendedores e impedindo o escoamento dos recursos públicos. Ele também defende a redução das taxas de juros ao tomador final da rede de bancos públicos, para introduzir mecanismos de mercado no sistema de intermediação financeira.   A brutal concentração financeira “É impossível separar capitalismo de capital financeiro”, afirmou Fernando Nogueira da Costa, já no início da sua apresentação, ao destacar que a alavancagem financeira pode ser utilizada, também, na garantia de políticas sociais a custos mais baixos. Vice-presidente da Caixa Econômica Federal, entre 2003 e 2007, o economista analisou o processo de bancarização – acesso popular a bancos e, portanto, a créditos – dos últimos dezesseis anos no país, alertando para a persistência da concentração financeira. Entre 1999 e 2015, o número de contas bancárias no Brasil passou de 75 milhões para 209 milhões, uma expansão de 179%, permitindo que os ‘sem-contas’ ingressassem no sistema de créditos. No entanto, explicou o economista, essa expansão não significou um enriquecimento financeiro popular. No período, a média por conta bancária passou de R$ 3.288,55 para R$ 8.378,80 em valores nominais. Além disso, das 130 milhões de contas de poupança existentes no Brasil, 74 milhões apresentam, na média, R$ 13,45 centavos. Do outro lado da moeda, ponderou Costa, existem no Brasil 726.725 milionários, 2,5% da população que concentram 42% da riqueza, com ganhos mensais acima de 40 salários mínimos. Dentro desse grupo, estão 57.507 clientes Private Banking que possuem renda per capita média de R$ 12 milhões. “É para esses 5 mil que os ignorantes úteis estão batendo panelas vazias”, ironizou. Apresentando um comparativo sobre poder de salário do trabalhador entre os anos FHC e anos Lula e Dilma, Costa demostrou que no primeiro período, entre 1994 e 2002,

Resista, Dilma

por Ivan Proença O indivíduo e joio Cunha, com o (não) caráter que Deus lhe deu, foi apenas o executor daquilo que seus cúmplices diretos ou indiretos desejavam. Entre esses, os políticos sujos e, pior, jornalistas (articulistas de fundo ou não), matérias assinadas no incorrigível O Globo, ou grande imprensa em geral, revistas não veja, fora de época e isto não é. São muitos e sistemáticos. Não raro, até, ofensas e agressões verbais à Presidenta. Difícil listar a enxurrada. Por exemplo, Nelson Motta, Noblat, Gaspari, Cora, Merval, os neodireitistas Gabeira, Aarão, Ancelmo, e os vitalícios (alguns mais fiéis escrevem também nas revistas dos Clubes Militares, ao lado de eternos apologistas ou defensores do golpe de 64 e das barbaridades cometidas ao longo dos 21 anos). Todos cúmplices sim da miséria política que envolve o impeachment. Não sou PT menos ainda lulista. Ao contrário, entrei, desde a fundação, para o PDT e ocupei cargos no governo Brizola (como faz falta hoje!).  Sempre tive sérias restrições ao PT, inclusive por uma injustificada oposição deles ao PDT e a Brizola (só um exemplo: os ataques aos CIEPS). Mas bem sei que, também, boa parte da elite econômica e da incrível classe média jamais se conformou com o fato de um metalúrgico chegar ao poder e, após, uma guerrilheira ser presidenta. Inconformismo da velha corja da política brasileira desde o segundo governo de Getúlio, a deposição de Jango, o golpe militar e civil que durou 21 anos. Vi, há pouco, a imagem do joio Cunha aclamado por Paulinho (da fraqueza sindical) e por um Bolsonaro. Como pode esse tipo de gente investir despudoradamente contra uma mulher tão digna, séria, limpa? E preparada, sim. Acusam, ainda, a presidenta de não ser boa oradora. E daí? Mussolini, Hitler, Pinochet, Lacerda (até Aécio, o neto) empolgaram e ou empolgam “seus”  públicos com oratória bizantina. Problemas econômicos, em fases, todos sabemos, se devem ao contexto flutuante do capitalismo, e no Brasil são atribuídos, ainda, aos exageros (!) na assistência aos menos favorecidos (através de bolsas, cheques família, minha casa minha vida etc): era só o que faltava para caracterizar tal oposição. Essa gente é que propõe a luta de classes. Corrupção? Claro, um horror, uma vergonha. O PT fez o que — em boa proporção — fazem outros partidos. E foi com muita sede ao pote. Errou e corrompeu. E a figura do dedo-duro (eufemisticamente, hoje, delator premiado) entra em cena e escancara o mar de lama ética e moral. Os transgressores estão sendo justamente punidos, o que não ocorria antes. Paciência, presidenta Dilma. A senhora lutou e arriscou a vida para que essa gente, que pede seu impeachment, possa expressar-se. Orgulho nosso tê-la como governante, por seu passado e sua dignidade. Desanima não. Se a excluírem, é porque não a merecem e não estão à altura de alguém com sua personalidade e sua conduta de vida. Azar o deles. Valeu, embora à distância, conhecê-la. Vida e luta continuam.

Fernando Morais: O dia da infâmia

  por Fernando Morais *  – da Agência Carta Maior Dilma não será processada por ter roubado, mentido, acobertado ou ameaçado. Será processada por manter em dia pagamentos sociais como o Bolsa Família. Minha geração testemunhou o que eu acreditava ter sido o episódio mais infame da história do Congresso. Na madrugada de 2 de abril de 1964, o senador Auro de Moura Andrade declarou vaga a Presidência da República, sob o falso pretexto de que João Goulart teria deixado o país, consumando o golpe que nos levou a 21 anos de ditadura. Indignado, o polido deputado Tancredo Neves surpreendeu o plenário aos gritos de “Canalha! Canalha!”. No crepúsculo deste 2 de dezembro, um patético descendente dos golpistas de 64 deu início ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. A natureza do golpe é a mesma, embora os interesses, no caso os do deputado Eduardo Cunha, sejam ainda mais torpes. E no mesmo plenário onde antes o avô enfrentara o usurpador, o senador Aécio Neves celebrou com os golpistas este segundo Dia da Infâmia. Jamais imaginei que pudéssemos chegar à lama em que o gangsterismo de uns e o oportunismo de outros mergulharam o país. O Brasil passou um ano emparedado entre a chantagem de Eduardo Cunha – que abusa do cargo para escapar ao julgamento de seus delitos – e a hipocrisia da oposição, que vem namorando o golpe desde que perdeu as eleições presidenciais para o PT, pela quarta vez consecutiva. Pediram uma ridícula recontagem de votos; entraram com ações para anular a eleição; ocuparam os meios de comunicação para divulgar delações inexistentes; compraram pareceres no balcão de juristas de ocasião e, escondidos atrás de siglas desconhecidas, botaram seus exércitos nas ruas, sempre magnificados nas contas da imprensa. Nada conseguiram, a não ser tumultuar a vida política e agravar irresponsavelmente a situação da economia, sabotando o país com suas pautas-bomba. Nada conseguiram por duas singelas razões: Dilma é uma mulher honesta e o povo sabe que, mesmo com todos os problemas, a oposição foi incapaz de apresentar um projeto de país alternativo aos avanços dos governos Lula e Dilma. Aos inconformados com as urnas restou o comparsa que eles plantaram na presidência da Câmara – como se sabe, o PSDB, o DEM e o PPS votaram em Eduardo Cunha contra o candidato do PT, Arlindo Chinaglia. Dono de “capivara” policial mais extensa que a biografia, Cunha disparou a arma colocada em suas mãos por Hélio Bicudo. O triste de tudo isso é saber que o ódio de Bicudo ao PT não vem de divergências políticas e ideológicas, mas por ter-lhe escapado das mãos uma sinecura – ou, como ele declarou aos jornais, “um alto cargo, provavelmente fora do país”. Dilma não será processada por ter roubado, desviado, mentido, acobertado ou ameaçado. Será processada porque tomou decisões para manter em dia pagamentos de compromissos sociais, como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. O TCU viu crimes nessas decisões, embora não os visse em atos semelhantes de outros governos. Mas é o relator das contas do governo, o ministro Augusto Nardes, e não Dilma, que é investigado na Operação Zelotes, junto com o sobrinho. E é o presidente do TCU, Aroldo Cedraz, e não Dilma, que é citado na Lava Jato, junto com o filho. Todos suspeitos de tráfico de influência. Provoca náusea, mas não surpreende. “Claras las cosas, oscuro el chocolate”, dizem os portenhos. Agora a linha divisória está clara. Vamos ver quem está do lado da lei, do Estado democrático de Direito, da democracia e do respeito ao voto do povo. E veremos quem se alia ao oportunismo, ao gangsterismo, ao vale-tudo pelo poder. Não tenho dúvidas: a presidente Dilma sairá maior dessa guerra, mais uma entre tantas que enfrentou, sem jamais ter se ajoelhado diante de seus algozes. * FERNANDO MORAIS, 69, é jornalista e escritor. É autor, entre outros, dos livros “Chatô, o Rei do Brasil” e “Olga” Pubicado originalmente na Agência Carta Maior.

Delcídio é um elo da corrupção histórica na Petrobras

A mídia recortou os minutos convenientes da gravação e desprezou os trechos nos quais a quadrilha relembra a roubalheira deles no governo FHC por Jefferson Miola da Agência Carta Maior As gravações das conversas entre o Senador Delcídio do Amaral, Bernardo Cerveró [filho do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró] e Edson Ribeiro [advogado do ex-diretor], são reveladoras do quão entranhável é a corrupção no estamento da política e dos negócios. Se aquelas conversas fossem divulgadas sem a identificação dos interlocutores, ninguém hesitaria em reconhecer se tratar de um bando de bandidos reunidos para arquitetar crimes. Este fato é, em si mesmo, estarrecedor e escandaloso. A cassação do mandato de senador e a expulsão de Delcídio do PT serão os desdobramentos naturais. “Matar mulher é feminicídio; matar presidente é magnicídio; matar criança é infanticídio; matar de vergonha é Delcídio” (postagem no twitter). Tão escabroso quanto este fato, entretanto, é a seletividade do condomínio policial-jurídico-midiático de oposição, que recortou os minutos convenientes da 1 hora e 35 minutos da gravação  e desprezou os trechos nos quais a quadrilha relembra a podridão e a roubalheira deles na Petrobrás ainda no governo FHC. Eles fizeram menção, por exemplo, à dinheirama depositada em bancos suíços originada de propina que receberam da empresa Alstom em 2001 e 2002, quando Delcídio era diretor da Petrobrás e Cerveró seu gerente. E também revelaram o nome do personagem que há décadas usa o lobista Fernando Baiano como preposto: o espanhol Gregório Preciado, que é casado com uma prima do senador tucano José Serra. Qual o procedimento policial e judicial instalado para investigar estes dois aspectos reveladores da gênese da corrupção na Petrobrás? Resposta: – nenhum! Houve cobertura midiática demonstrando jornalisticamente as conexões e os tentáculos tucanos na corrupção na Petrobrás? Resposta: nenhuma! A seletividade do condomínio policial-jurídico-midiático de oposição tem sido uma norma de conduta. Os responsáveis pela Lava Jato na Polícia Federal, no Ministério Público e no Judiciário simplesmente desconsideram testemunhos, indícios e provas que implicam políticos ligados ao PSDB e, além de não investigarem, arquivam as denúncias. E a mídia oposicionista completa o serviço, acobertando a verdade inteira. Foi assim com Pedro Barusco, o ex-gerente que confessou ter começado sua prática delituosa na Petrobrás na década de 1990, durante o governo FHC. Diante da confissão deste funcionário corrupto que devolveu 100 milhões de dólares roubados em 20 anos, qual a apuração da Lava Jato sobre o período FHC? Resposta: – nenhuma! Por uma estranha discricionariedade, o inquérito contra o senador tucano Anastasia foi arquivado, e a investigação sobre os 10 milhões de reais transferidos pelas empresas implicadas na Lava Jato ao PSDB na gestão do ex-presidente do Partido, Sérgio Guerra [já falecido], nunca prosperou. Qual a reação midiática a isso? Resposta: – nenhuma! O chamado “mensalão” foi implacavelmente julgado para justiçar o período dos governos do PT. Entretanto, como está a investigação do “mensalão” mineiro, inventado pelo tucanato muitos anos antes? Resposta: – paralisada, podendo prescrever, e os envolvidos estão “todos soltos”. A realidade não permite ilusões ou fanatismos alienantes: o Brasil está enfrentando uma das maiores crises morais e políticas da sua história. A corrupção é um fator desencadeante da corrosão moral que aflige o país. O mais importante, porém, é que pela primeira vez tudo está sendo investigado sem interferências do governo. Esta conquista civilizatória do Brasil, de identificar e castigar a corrupção, poderá ser anulada por manobras maniqueístas do condomínio policial-jurídico-midiático de oposição, que recorta e seleciona a narrativa a ser construída, que visa preservar o PSDB e aniquilar o PT. Isso é contraproducente, porque dos mais de 100 indiciados na Lava Jato até agora, apenas 4 são identificados com o PT, e a imensa maioria pertence a outros partidos políticos. Delcídio é um elo da corrupção histórica na Petrobrás; ele é o elo entre o presente e o passado; o elo corrupto entre o período FHC e o período Lula. Se, em razão disso, a Lava Jato não averiguar a raiz da corrupção na empresa, será uma agressão à justiça e à democracia. Mais além da Lava Jato, é necessário um esforço de recomposição ética no Brasil, porque a corrupção está disseminada inclusive em práticas “legais”, ainda que imorais, em várias esferas da atividade pública nos três Poderes. Só moralismo não resolve. Menos ainda o falso e seletivo moralismo. É necessário encarar esta crise de frente. O Brasil está num “mandrake político”, porque nenhuma força política se mostra crível como alternativa na crise. O país está à beira do abismo político e moral que ameaça produzir um forte estrago à economia nacional. Este momento de impasse é, também, um momento de rediscussão de um novo ordenamento jurídico-institucional. A atual lógica, em especial quanto ao sistema político, é uma das causas da transição inconclusa da ditadura para um Estado de bem-estar social. O PMDB, Partido individualmente minoritário, domina a ciência de navegar neste sistema obsoleto e fisiológico, é um dos principais fatores do atraso e do retrocesso. É urgente, por isso, se buscar o apoio da sociedade brasileira para a convocação de uma Assembleia Constituinte autônoma e específica, que discuta um novo ordenamento jurídico-institucional, começando pela reforma política e pela democratização profunda do Estado. Texto publicado originalmente na Agência Carta Maior.

#Ocupaescola: A lição da juventude paulista

por Elaine Tavares #Ocupaescola – Paulo Freire já dizia: o mestre é aquele que, de repente, aprende. E é esse homem lindo que me vem à mente ao acompanhar as notícias das escolas ocupadas em São Paulo. Quando a máquina de ideologia – que são os meios de comunicação – transmitem, à exaustão, informações sobre o colapso da educação, sobre a violência nas escolas, alardeando que os jovens não querem nada com nada, vem essa gurizada a mostrar que isso não é verdade. Eis aí um fato que precisa ser compreendido na sua mais ampla dimensão. Por que raios essa gurizada está ocupando as escolas, contra a proposta de fechamento e reestruturação do governo paulista? O que nos dizem esses guris e gurias, abraçando e protegendo velhos prédios carcomidos pela incompetência governamental? Que estupenda lição oferecem esses jovens aos “especialistas” que arrotam verdades sobre eles? Marx já nos alertou desde há séculos que é preciso auscultar a realidade e que é da história mesma que brotam as ideias que, então, passam a comandar a vida. Então é hora de olhar a vida. Não existe colapso na educação, o que existe é a deliberada ação de não oferecer aos alunos do primeiro e segundo graus um ensino de qualidade. E como se faz isso? Simples. Começa-se pelo abandono das estruturas. As escolas vão se desmilinguindo, ficando feias, com tudo caindo. Não há cores, não há flores, não há beleza, os ambientes vão se parecendo com prisões. Depois, paga-se mal aos professores e eles precisam se virar nos trinta, dando quinhentas aulas para conseguir uma renda capaz de sustentá-los com um mínimo de dignidade. E o que pode ensinar um professor esgotado, cansado, estressado? Por fim, cria-se um plano de educação que não respeita os anseios das gentes, construído em salas fechadas, por especialistas ou tecnocratas que não conhecem a vida real, abarrotado de preconceitos e verdades cristalizadas. Então, juntando tudo isso, as escolas vão ficando cada dia mais tristes, parecendo um depósito de gente, um lugar onde o riso é punido, a brincadeira é vista como um problema, e a afetividade passa longe. Não é possível criar um ambiente amoroso – como queria Paulo Freire – se não são dadas as condições materiais para isso.  Lembrem, a realidade vem primeiro que a ideia. Aí vem o governo paulista  – e não é só ele, em Santa Catarina também – falar em reestruturação, que nada mais é do que adequar o sistema de ensino aos interesses econômicos. Fechar escolas para baixar custos, baseado em números, estatísticas, planilhas. Pouco importa se o fechamento vai tirar o guri e a guria do seu bairro, ou vai desfazer um vínculo afetivo. Dane-se isso. Dane-se Paulo Freire, “aquele comunista”. Pois quando o estado – baseado na algaravia conservadora de que a juventude não está nem aí para nada – decide mexer nesse já miserável quadro do ensino público, vem a realidade e o confronta. Os jovens pegam suas tralhas, seus cadernos surrados, seus telefones espertos comprados nos camelôs, colchões velhos, seu entusiasmo, seus sonhos, e ocupam a escola. Diante da polícia, das armas, das botinas, dos cassetetes eles colocam seus corpos ainda em formação, frágeis, mas resolutos. Aquele lugar em escombros ainda é o único espaço que eles encontram para minimamente burlar o perverso sistema que só os quer minimamente capazes para fazer girar a máquina. Os secundas de São Paulo protegem a escola com seus corpos. Pode haver lição maior? Eles dizem não ao projeto de desmonte, ao descaso, ao desamor, ao golpe do capital. Eles apontam um horizonte de belezas. Sabem que aquilo que ali está – a escola, o programa – ainda não é suficiente, têm consciência do que está por trás do desmonte, do fechamento, dos baixos salários dos professores, e exigem mudanças. A escola que eles estão defendendo é o espaço do saber, o saber que é sabor, gosto bom. A escola de Simón Rodríguez, de Paulo Freire, de José Martí. A escola que forma para a vida, que promove a solidariedade, o afeto, a cooperação. Uma escola que é real, mas que não existe ainda por conta da habilidade de quem governa. Porque uma escola assim é sementeira de transformação. O que os governos não sabem é que essa escola que eles plasmam com seus planos de ensino engessados e baixos salários – ineficiente, escura, conservadora – não é o único espaço por onde transita a criança e o adolescente. Eles caminham pelo bairro, andam de ônibus, enfrentam a violência, a miséria, a falta de interesse dos adultos. Eles são capazes de fazer as ligações e compreender o mundo que se mostra cotidianamente. E, assim, podem transcender às marteladas ideológicas da mídia, dos governos, dos adultos empedrados e conservadores. A pedagogia das ocupações em São Paulo é libertária e transformadora. Essa escola que os secundas estão construindo com seus corpos, suas danças, canções e sorrisos é a escola necessária. Mas, não esperemos que os governos os compreendam e os aceitem. O estado vai combater essa escola e esses jovens até o mais amargo fim, assim como combate e pune os professores que se insurgem contra a lógica bancária e mercantilista da educação. É uma queda de braço. É a luta de classe. E, aconteça o que acontecer, essa gurizada já venceu. Porque essa experiência pedagógica vivida, esse fazer o próprio caminho não será esquecido por milhares de jovens. Isso viverá para sempre forjando espírito e corpo para novas batalhas, para além da escola. O humano sempre escapa à escravidão. Essa é uma lição que os dominadores parecem não entender. Os quilombos são parte constitutiva do que somos, e seguirão existindo. Terras livres, de negros, de crianças, de mulheres, de índios, de velhos, de todos aqueles que, incapazes de aceitar o garrote, se levantam e andam. As escolas ocupadas de São Paulo fervem de vida, de luta, de alegria, de amor. Isso é educação! Texto publicado originalmente no Blog Palavras Insurgentes.

A intolerância

por Antonio Lassance A intolerância é a imbecilidade à procura de uma multidão. É o espetáculo da estupidez com entrada franca, mas todos pagam caro ao final, quando as portas são fechadas, uma após outra. A intolerância é o ofício de trucidar inocentes.  Por isso o ódio é um requisito – veneno trazido em embalagem de remédio. O ódio justifica culpar, perseguir, condenar e executar pessoas que não merecem ser tratadas como pessoas, nem mesmo como adversários, e sim como inimigos. A intolerância é uma seita cultuada e inculta. Com ideias em falta, os xingamentos sobram. A narrativa dos intolerantes não é a de contar histórias, mas a de encontrar culpados. O discurso dos intolerantes não é a conversa e a argumentação, é a ofensa. Os intolerantes não são burros. Quem dera fossem. Burros são criaturas simpáticas, pacíficas, úteis, laboriosas, respeitadoras. Sequer fazem asneiras, ao contrário do que se lhes atribui. Burros relincham, mas não gritam nem ofendem. Burros cometem erros, mas, nunca, injustiças. A intolerância é um Mar Morto salgado até trincar. É um monumento granítico impermeável ao bom senso. É a corrupção da alma – por isso, a corrupção é seu assunto predileto. A intolerância é obscena, pois desconfia que tudo é uma vergonha. A perseguição seletiva apresenta-se como seu principal espetáculo, protagonizado por heróis da repressão. Os intolerantes fazem sucesso e são notícia, quando não são eles próprios âncoras de programas ou donos dos meios de comunicação – assim se faz da intolerância um modelo de comportamento e um mercado lucrativo. A intolerância precisa de Estado – do Estado de exceção, do estado de indigência do espírito humano, do estado de mal-estar social. A intolerância é a inversão de valores básicos, como o respeito ao outro, ao diferente, a ponto de o poeta Goethe nos alertar do risco de quando tolerar é que se torna injurioso. Ser diferente é tido como ameaça coletiva. Quando se completa a banalização do mal, é sinal de que a intolerância alcançou seu ápice enquanto instrumento de manipulação na luta pelo poder. A intolerância é um prato de pus oferecido como iguaria. Alguns apreciam. Outros engolem a contragosto. Os que a recusam com coragem e altivez fazem a humanidade ser mais digna desse nome. Publicado originalmente na Agência Carta Maior.

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