Como o general Lott garantiu a posse de JK e Jango em 1955

por Fernando do Valle

Em 1955, o general Henrique Teixeira Lott, infelizmente figura política pouco lembrada da história brasileira, impediu o golpe militar que setores conservadores das Forças Armadas e lideranças da UDN armavam para impedir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek e o vice João Goulart, vencedores da eleição de outubro de 1955.

Os ataques virulentos do udenista Carlos Lacerda contra JK, chamando-o de corrupto e amoral, não impediram a vitória do político mineiro com 36% dos votos sobre seus oponentes: o militar Juarez Távora (UDN/PDC/PSB/PL), com 30%, Ademar de Barros (PSP), com 26%, e o integralista Plínio Salgado (PRP), com 8%, em 3 de outubro de 1955. No seu jornal Tribuna da Imprensa, Carlos Lacerda delirava e mentia descaradamente, criando pânico em setores da classe média antes da eleição. Segundo ele, Jango, com a ajuda do argentino Perón, do PCB e do dinheiro “espúrio” de JK, contrabandeava um arsenal bélico da Argentina para “implantar a ditadura sindicalista” no Brasil.

Em 1º de novembro, quase um mês após a vitória da chapa JK-Jango, o coronel Jurandir Bizarria Mamede, ligado à Escola Superior de Guerra, escolheu o enterro do general Canrobert Pereira da Costa (chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e então presidente do Clube Militar) para defender o golpe militar contra a posse dos eleitos, que se realizaria no início de 1956. O efusivo Mamede discursou contra “a corrupção e a fraude dos oportunistas e totalitários que se arrogam no direito de oprimir a Nação nessa mentira democrática”.

Após o suicídio de Vargas em agosto de 1954, o vice-presidente Café Filho (PSP) havia assumido o cargo e nomeado Lott como ministro da Guerra, que exigiu a punição do coronel Mamede, mas não foi atendido pelo presidente. Nesse ínterim, Café Filho se afasta do cargo por problemas de saúde. Quem assumiu foi o presidente da Câmara, Carlos Luz, do PSD e próximo aos conservadores. Luz foi o presidente com o mandato mais curto da História Brasileira, míseros três dias, entre 8 e 11 de novembro de 1955. No dia 12 de novembro, foi empossado na Presidência da República o primeiro vice-presidente do Senado, Nereu Ramos.

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General Henrique Lott (segundo da direita à esquerda) na posse de Nereu Ramos (primeiro à direita) (fonte: CPDOC/FGV)

Um dia antes da posse de Ramos, o general Lott comandou 25 mil homens, que, em poucas horas, tomaram os pontos estratégicos do Rio, então Distrito Federal. Lott divulgou uma nota direcionada aos comandantes militares exigindo “o retorno da situação aos quadros normais de regime constitucional vigente”. O general garantia a posse de Ramos, que se comprometeu em assegurar a legalidade. No dia 11 de novembro, o Congresso votou o impedimento de Carlos Luz, que acompanhado de Carlos Lacerda, coronel Bizzaria Mamede e parte do Ministério se refugiaram no navio Tamandaré.

A intenção dos golpistas era estabelecer um governo paralelo em São Paulo com o apoio do governador Jânio Quadros, o plano fracassou. Amedrontado, Lacerda tentou fugir do país mesmo com as garantias de sua imunidade parlamentar. Buscou abrigo nas embaixadas de Peru e Cuba, que lhe forneceu asilo político. Antes do embarque para Cuba, ainda sob o jugo de Fulgencio Batista, derrubado em 1959 pela Revolução, o deputado escondeu-se durante três dias em uma caixa-d’água seca.

“O episódio conhecido como “contragolpe” ou “golpe preventivo” foi mais um entre as diversas intervenções militares na vida republicana brasileira… Se o general Lott não podia ser qualificado como um homem de esquerda, até pelo mesmo pelo seu anticomunismo declarado, definia-se como nacionalista e legalista”.

(trecho do livro “João Goulart, uma biografia”, de Jorge Ferreira).

Aqui vale retornar um pouco para narrar acontecimentos que explicam os ânimos exaltados em novembro de 1955. Os antigetulistas opunham-se frontalmente às candidaturas de Juscelino Kubitschek e de João Goulart à presidência e vice-presidência da República, apoiados pelo Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

Parte da pressão de oficiais das Forças Armadas contra JK veio pela escolha do vice, João Goulart. Em 1953, eles já haviam pressionado Getúlio Vargas pela demissão de Jango do ministério do Trabalho pelo seu projeto de aumento do salário mínimo e proximidade com os sindicatos.

Leia texto sobre o mandato de João Goulart como ministro do Trabalho de Getúlio Vargas.

Enquanto isso, Juscelino Kubitschek já se credenciava como forte candidato a presidente, construindo sólida carreira política como deputado federal, prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais. As figuras mais tradicionais do PSD, partido do político mineiro, não apoiaram sua candidatura, mas JK contava com o suporte de setores mais progressistas do partido como o deputado federal por São Paulo, Ulysses Guimarães.

“Para os conservadores, e os udenistas, Juscelino, Jango e Getúlio tinham o mesmo significado. Convocado por Café Filho ao Catete, Juscelino ouviu do presidente a ameaça: ou ele desistia da candidatura ou as Forças Armadas dariam um golpe. Juscelino respondeu: “no dia em que o governador de dez milhões de brasileiros, em ordem com todos os preceitos legais e ainda por cima indicado pelo partido de maior eleitorado político do país, não puder ser candidato, acabou-se a democracia no Brasil”. “Depois não diga que não avisei”, alertou Café Filho.

(trecho do livro “João Goulart, uma biografia”, de Jorge Ferreira)

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Henrique Lott em foto de 1959 (fonte: CPDOC/FGV)

Sem dúvida, JK ficou em dívida com Lott pelo esforço do militar em garantir sua posse e de Jango. O presidente assumiu em 1956 e Lott foi seu ministro da Guerra. Em janeiro de 1959, Lott abandonou a caserna e foi transferido para a reserva remunerada como marechal. A popularidade conquistada em novembro de 1955 garantiu sua nomeação como candidato na eleição de 1960, com Jango como vice.

Como as eleições e presidente e vice eram separadas, o direitista Jânio Quadros venceu a eleição e Jango também, mas essa já é outra história. Henrique Teixeira Lott morreu de infarto, aos 89 anos, em 19 de maio de 1984 e foi enterrado sem honras militares. O governador do Rio de Janeiro à época, Leonel Brizola, decretou luto de três dias no estado. Brizola sempre dizia que a primeira pessoa que visitou após o exílio foi Lott.

Fonte usada: João Goulart, uma biografia, de Jorge Ferreira.

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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3 Comentários

  1. ANTONIO MANOEL SCHELLEKENS DRUMMOND diz:

    CONCORDO POIS DESDE OS 5 ANOS SENTADO BRINCANDO NO CHÃO DA SALA DO CHEFE DA CASA DE CAFÉ FILHO ACOMPANHAVA OS COMENTÁRIOS SOBRE ELE , MESMO QUE AS VEZES AGRESSIVO, DO MONTEIRO DE CASTRO POIS ELE QUE ERA CASADO COM A IRMÃ DO MEU PAI LOURDES DRUMMOND

    • ANTONIO MANOEL SCHELLEKENS DRUMMOND diz:

      EU AINDA ACRESCENTO QUE ENQUANTO CAFÉ FILHO ESTAVA INTERNADO NO HOSPITAL O SEU CHEFE DA CASA CIVIL MEU TIO MONTEIRO DE CASTRO FICOU QUASE QUE ESCONDIDO ACAMPADO NA DESERTA PRAIA DO RECREIO DOS BANDEIRANTES COM MEU PAI E PAULO GOES AINDA JOVEM, MEU AMIGO E DEPOIS TAMBEM MEU PROFESSOR “PAULÃO” DO KARATÊ.

  2. Luiz Felipe da Silva Haddad diz:

    O honrado Marechal Henrique Batista Duffles Teixeira Lott foi um Soldado Absoluto, um militar que honrou sua farda, um democrata e patriota acima de tudo. Lanço aqui minha modesta mas firme homenagem.

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