E se não existissem as aulas de Educação, Moral e Cívica

Nos início dos anos 80, o adolescente classe média que não estava diretamente ligado ao combate ao regime de exceção que os militares nos impuseram por 21 anos, percebia algo errado quando ia assistir ao seu programa favorito e era avisado que o mesmo tinha sido liberado por uma tal de censura federal. Para quem não se lembra:

Noutro dia pela manhã, entre as aulas do colegial, o estudante estranhava os livros recheados de bandeiras, símbolos pátrios e palavras de ordem daquelas duas matérias de nome pomposo: Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira. Ele não sabia que ambas foram impostas por um decreto lei a partir de 1969 em substituição às aulas de Filosofia e Sociologia, consideradas subversivas pelo regime.

Ao assistir ao documentário O dia que durou 21 anos, imagino como teria sido diferente o destino brasileiro sem a censura federal e o OSPB. Como viveríamos hoje se os milhares presentes no histórico comício de Jango na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, que exigiam mudanças na estrutura do Estado brasileiro, tivessem suas demandas atendidas? E, se, a Reforma Agrária tivesse sido feita no início dos anos 60? Com respostas não tão fáceis, recorro à máxima de um folclórico comentarista de futebol que sempre dizia que no esporte bretão o ‘se’ não entra em campo, na política, também não.

Leia mais sobre o Comício de Jango na Central do Brasil

O filme de Camilo Tavares, filho do jornalista Flávio Tavares (um dos 15 presos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick em sequestro de 1969), poderia ser adotado nos colégios para elucidar o adolescente de hoje sobre como se deu o golpe militar de 1964.

O forte envolvimento do governo Lyndon Johnson no golpe militar foi provocado em grande parte ao medo patológico do perigo vermelho por parte do governo dos Estados Unidos e da possibilidade do surgimento de uma revolução semelhante à cubana (1959) na América do Sul. No filme, John Kennedy, que foi assassinado em 22 de novembro de 1963, poucos meses antes do golpe, discursa no sentido de que tudo seria feito para impedir que os aliados do governo norte-americano se aproximassem do comunismo. Detalhe: Jango nunca foi comunista.

Em conversa do embaixador americano Lincoln Gordon, um dos artífices do golpe de 64, e o presidente Kennedy, antecessor de Johnson, Gordon alerta que é melhor dar um basta em Jango já que ele pode ser um novo “ditador populista como Perón”. Os áudios originais das conversas entre a alta cúpula da Casa Branca e, principalmente, Gordon, e os telegramas entre a embaixada ianque e a Casa Branca, presentes no documentário, são testemunhos históricos irrefutáveis da ingerência dos Estados Unidos na política interna brasileira.

Creio que uma de nossas tarefas mais importantes consiste em fortalecer a espinha militar. É preciso deixar claro, porém com discrição, que não somos necessariamente hostis a qualquer tipo de ação militar, contanto que fique claro o motivo. (Lincoln Gordon)

Em 20 de março de 1964, Johson autorizara a formação de uma força naval para intervir no Brasil. A decisão foi tomada em reunião na Casa Branca e contou com a presença de Gordon e a cúpula do Departamento de Defesa.

Assista ao trailer do filme:

O mentiroso discurso pela democracia e liberdade de Kennedy (sensação déjà vu de ter ouvido o mesmo na boca de Bush, pai e filho, Ronald Reagan…) justificou a criação de institutos de pesquisa pelos Estados Unidos como o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) e o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) para o financiamento das campanhas de deputados federais e estaduais e de até 8 candidatos a governador. O professor Peter Kornbluh explica que essa é a política “feijão com arroz da CIA para desestabilizar governos”.

Os vídeos produzidos pelos institutos e exibidos em cinemas e empresas criaram o pânico que levou às senhoras da Tijuca e do Catete a lotar as ruas na Marcha da Família com Deus pela Liberdade em oração contra Jango e Brizola.

Com Kennedy, Gordon conspira contra Jango

Com Kennedy, Lincoln conspira contra Jango

A marcha deu coragem ao general Mourão Filho, que reuniu uma pequena tropa e resolveu antecipar o golpe. O cômico depoimento da filha de Mourão conta que seu pai tomou um pito de Castelo Branco pela pressa. Mourão não esmoreceu e foi entregar o golpe a Costa e Silva, que segundo ela, “estava dormindo, de cuecas”.

Segundo presidente do regime militar, Costa e Silva deslumbra-se em cena do filme ao ser recebido na Casa Branca. De certa forma, somos um país mais moderno ao menos pelo fato de não convivermos mais com figuras dantescas como Costa e Silva no coração do poder. Políticos lamentáveis como Jair Bolsonaro e Coronel Telhada infelizmente são eleitos, mas são mantidos bem distantes dos centros decisórios de nossa política.

Hoje, após mais de uma década dos fatos narrados no documentário de Tavares, a história deve ser contada com detalhes às novas gerações para que estudantes não tenham que aprender EMC, somente o E= mc².

(texto atualizado em 31 de março de 2015)

Sou blogueiro, jornalista e criador de conteúdo. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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11 Comentários

  1. A história cada um conta como quer não é verdade? Eu vive parte desta época e nunca vi nenhum problema nas aulas de Moral e Cívica e OSPB. O problema agora é difusão dessas ideias de esquerda que vocês acreditam serem melhores que as de direita. O jogo do poder é sujo não importa o lado. Naquela época tentava-se educar algum valor, hoje em dia o que fazem é uma confusão mental nos nossos estudantes com uma completa inversão de valores.

    • Suzana Luz diz:

      quais valores? os do individualismo, que é o que impera hoje??? Não vistes nenhum problema, naquele tempo, nas aulas, porque, pelo visto, não és uma pessoa que procura saber as verdades, os fatos reais, não questionavas o que estava sendo dado, acreditando que tava td certo, que estavam te passando a verdade sobre a situação daquele tempo. Eu tive aulas de historia, que não aprendi quase nada, pois era só decoreba. depois de adulta, pesquisadora, questionadora e curiosa que sou, vi que muita coisa que me passaram era mentira, ou faltavam muitos dados ou as visoes de um lado só, etc, etc

  2. Anônimo diz:

    Toda ditadura está disfarçada nos propósitos de erradicar os que pensam diferente e podem desestabilizar o status quo dos privilégios de uma grupinho que manieta a verdadeira democracia. O que eles não apuraram foi que a marcha da evolução é natural do homem na terra. Procura-se um meio de validar as diferenças e dar voz a todos que se sentem exilados no próprio rincão.

  3. Publicado originalmente no CMI (Centro de Mídia Independente)

    Matéria boa

    Márcio Barreto 13/04/2013 23:24
    zzzzzzz

    A matéria é boa mas esquece de dizer que os mesmos problemas que nos afligiam a 50 anos, nos afligem agora e precisam ser combatidos mas não com o oportunismo eleitoreiro e os pelegos petistas e sim com a destruição do estado burguês e latifundiário princpalmente os políticos e os militares todos serviçais do imperialismo ianque.As infames matérias escolares falso patrioteiras e ufanistas chamadas OSPB e EMC não passam de doutrinação rasteira como a televisão faz hoje e como sempre digo os inquisidores religiosos faziam no passado e como estes terão o destino de serem varridos da face da Terra, do tempo e da história.

  4. Publicado originalmente no CMI (Centro de Mídia Independente)
    Menos, menos

    Formol 12/04/2013 17:18

    No meu colégio tive essas duas disciplinas, educação moral e cívica e OSPB. Numa aprendi hinos (nacional, independência, bandeira, etc…), datas históricas e seus significados e os símbolos nacionais e seus significados (bandeira, brasão, etc…). A outra (OSPB) era bem mais sacal, mas no final das contas se aprendia o que é pacto federativo, o papel dos governos, o sistema bicameral, a diferença entre o senado e a câmara, a organização do judiciário e outros detalhes da burocracia estatal brasileira.

    Para mim foi tudo muito instrumental, nada de proseletismo político ou patriotada. Isso entre os governos do Geisel e do Figueiredo.

    No final das contas para mim foi excelente. Pelo menos aprendi para quem reclamar do quê. Mas parece que hoje em dia a escola não ensina nem português e matemática direito…

  5. A ditadura acabou? Tem certeza?
    Abraços

  6. Que texto medíocre e alienador. Nas aulas de moral e cívica os jovens aprendiam a ser gente e a amar o país onde vivem, sociologia e filosofia só sofrem lavagem cerebral gramscista por parte de marxistas.

    • Marcio, o estudo de Filosofia e Sociologia colaboram, e muito, para que você não sofra qualquer tipo de lavagem cerebral. Se não gosta de Gramsci, existe uma lista infindável de filósofos, sociólogos e antropólogos para leitura e análise. Agora desconheço a existência de qualquer autor na área de Educação, Moral e Cívica. Abs.

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