Em 1970, os Tupamaros de Mujica contra Dan Mitrione, o mestre da tortura

O policial norte-americano e mestre em tortura Dan Mitrione foi enviado pelo governo daquele país ao Brasil e Uruguai para ensinar seu método de tortura que consistia em “provocar dor com precisão no momento preciso e na quantidade precisa para obter o efeito desejado”. Como cobaias em suas sádicas aulas, Mitrione usava presos e mendigos para demonstrar na prática como torturar sem deixar marcas em São Paulo, Montevidéu e Belo Horizonte. Na plateia, policiais e agentes dos regimes opressores da década de 60.

Em uma das cenas do filme Estado de Sítio (1972), do diretor grego Constantin Costa-Gavras e censurado pela ditadura brasileira, que conta a história o rapto de Mitrione pelo grupo Tupamaros, há uma aula de tortura com a bandeira brasileira ao fundo. No início dos anos 80, o filme foi liberado com cortes. Mitrione, com o nome fantasia de Philip Michael Santore, é interpretado pelo ator italiano naturalizado francês Yves Montand.

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Yves Montand como Dan Mitrione e integrante do Tupamaros (de costas) no filme Estado de Sítio

Em 31 de julho de 1970, o grupo armado uruguaio Movimento de Libertação Nacional (MLN) ou Tupamaros, que tinha entre seus dirigentes o ex-presidente Pepe Mujica, raptou Mitrione e outras autoridades. Na ação, o norte-americano foi alvejado com um tiro acidental no ombro e recebeu auxílio dos guerrilheiros no cativeiro. Com o cerco se fechando ao MLN pelo aparelho repressivo montado pelo presidente Jorge Pacheco Areco (1920-1988), os Tupamaros pretendiam trocar Mitrione e os outros raptados por 150 militantes presos.

O golpe militar no Uruguai viria cerca de 3 anos depois da ação dos Tupamaros, com o discurso do presidente Bordaberry, que, em 27 de junho de 1973, com o apoio das Forças Armadas, fechou o Legislativo e implanta uma violenta ditadura. Mujica participou de expropriações e raptos nesse período, em confronto com a polícia, foi ferido e preso, amargando mais de 13 anos na prisão.

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Dan Mitrione (fonte: Opera Mundi)

No filme de Gavras, um dos outros sequestrados é o cônsul Roberto Campos (no filme, se chama Fernando Campos), na verdade, o cônsul sequestrado foi Aloisio Gomide, mas Campos, que chegou a ser alcunhado de Bob Fields, pela sua obediência aos ditames do governo norte-americano, substitui Gomide no filme. É como se Gavras fosse guiado por um desejo oculto de incluir no filme um representante legítimo de lacaio de los gringos que pululavam nos governos do Cone Sul no período.

Gomide passou 205 dias em poder dos Tupamaros. Foi libertado em troca de US$ 250 mil dólares que seriam usados pela guerrilha em novas ações. Como o governo uruguaio recusou-se a libertar os presos, o pedido de resgate foi a saída encontrada para a libertação do diplomata brasileiro. A esposa de Gomide chegou a participar até do programa do Chacrinha para solicitar colaborações para o pagamento aos Tupamaros. Os telespectadores animados com o recém-conquistado tricampeonato de futebol a ajudaram. Na época, a informação era escassa e a imprensa sofria forte censura.

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A ação dos Tupamaros na capa do jornal Folha de S Paulo em 1 de agosto de 1970 (fonte: Arquivo Folha)

O plano dos Tupamaros começou a fazer água no dia 7 de agosto quando a polícia descobriu um de seus esconderijos e prendeu lideranças do grupo, inclusive a principal delas, o político e advogado Raúl Sendic. Após a ação, o MLN deu um ultimato ao governo uruguaio, que simplesmente o ignorou. O filme de Costa-Gavras mostra como até o próprio Mitrione entendeu que, com a recusa do governo uruguaio de negociar e a resistência dos americanos em intervir em prol de seu cidadão, não restava outra saída para os guerrilheiros. Mitrione foi morto aos 50 anos com dois tiros em 9 de agosto de 1970. O caso mostra como o clima da guerra fria e os recorrentes abusos cometidos pelos governos da época impulsionaram o radicalismo e a prática de ações violentas. Em diálogo do filme, guerrilheiro encapuzado mostra o espírito da época:

Guerrilheiro – “Preparar um golpe demora muito tempo?”

Dan Mitrione (vulgo Philip Michael Santore): “Na América Latina, não”.

Guerrilheiro – “Nos Estados Unidos, vocês são mais rápidos, em alguns segundos, assassinam um presidente [John Kennedy foi assassinado em 1963 em Dallas e Abraham Lincoln em 1865] ”.

Os Tupamaros tinham conhecimento das ações criminosas de Mitrione na América do Sul. A trajetória do funcionário do governo dos Estados Unidos, um ítalo-americano que nasceu na Itália em 1920, explicita a interferência do “irmão” do Norte nos assuntos domésticos de seus vizinhos do Sul. Na infância, Dan Mitirone imigrou com sua família para os Estados Unidos, serviu à Marinha durante a Segunda Guerra Mundial e depois começou a trabalhar no departamento de polícia da pequena cidade de Richmond, no estado de Indiana. Em 1955, tornou-se o chefe de polícia local. O FBI o recrutou como agente em 1959, no ano seguinte, ele foi trabalhar na área de assuntos externos do Departamento de Estado.

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De policial de uma pequena cidade a agente internacional do governo norte-americano (fonte: The National Security Archive)

No livro Brasil Nunca Mais, o estudante Afonso Celso Lana Leite, de 25 anos, preso em Minas Gerais e transferido para o Rio, denunciou ao Conselho Militar que o interrogou em 1970, ter sido torturado para uma assistência de oficiais no quartel da PE e na Vila Militar, seu relato:

“no dia 8 de outubro, na Polícia do Exército 1, posto de Segurança Nacional, quando era ministrada uma aula, na presença de mais de cem pessoas, foram trazidos para aquela aula companheiros e, nesta ocasião, passaram filmes de fatos relacionados com torturas e em seguida era confimada com a presença do denunciado, sendo, naquela ocasião também torturados; ocasião esta que coincidente com o seu depoimento; que estas torturas, ou seja, as acima descritas se repetiram na Vila Militar”.

Em 1960, Mitrione já operava como agente em países da América Latina sob os auspícios do Escritório de Desenvolvimento Internacional de Segurança Pública, que mais tarde, mudaria o nome para Agência de Desenvolvimento Internacional, a conhecida AID (em inglês, Agency for International Development). Atuou na República Dominicana, e foi enviado para o Brasil após o golpe de 64.

Na teoria, ensinava “técnicas avançadas de contra-insurgência”, na prática, treinamento anti-guerrilha e tortura. Estima-se que Mitrione treinou centenas de policiais no uso do cassetete elétrico e sobre os lugares mais dolorosos para os choques elétricos, entre outras atrocidades. Além disso, estabeleceu uma rede de espiões em universidades e de identificação de envolvidos em movimentos de oposição através de correspondências e listas de embarque de passageiros para países socialistas.

Após sua morte, Mitrione foi tratado como herói pelo governo Nixon e enterrado com honras militares. O cantor Frank Sinatra e o comediante Jerry Lewis fizeram um espetáculo em Richmond em memória de Mitrione e arrecadaram 20 mil dólares para a família do mestre da tortura. Na prefeitura da pequena cidade, ainda pode ser encontrada uma placa em sua homenagem.

Assista ao filme Estado de Sítio na íntegra:

Fonte usada: Opera Mundi, livro Brasil Nunca Mais e blog Advance Indiana.

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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4 Comentários

  1. Dan Mitrioni chegou a ser nome de rua em Belo Horizonte, depois substituído pelo nome de uma de suas vítimas, que não consigo lembrar.

  2. Na verda
    de o embaixador brasileiro sequestrado e mantido em cativeiro foi Aloysio Gomide que acabou solto depois de uma grande campanha de arrecadação do valor exigido pelos Tupamaros

  3. Sergio Caldieri diz:

    Ótima matéria sobre um grande canalha que o ex-governador e banqueiro Magalhães Pinto solicitou para treinar a polícia estadual de Minas Gerais.

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