Huxley em sua última viagem

Sempre me intrigou o que o escritor inglês Aldous Huxley viu do outro lado quando morreu aos 69 anos e chegou do lado de lá chapado de ácido e preparado para uma verdadeira iluminação espiritual. Acamado pelo câncer, sua segunda esposa Laura lia para ele o manual de Timothy Leary baseado no Livro Tibetano dos Mortos, que apronta os moribundos para um proveitoso despertar da alma no post mortem, e injetou duas doses de 100 microgramas de LSD no dia de sua morte.

aldoux huxley morte

Aldous Huxley (fonte: site brainpickings)

Poucas horas antes do falecimento do escritor, o presidente norte-americano John Kennedy acabava de ser assassinado em Dallas naquele 22 de novembro de 1963. Enquanto a equipe médica que cuidava de Huxley chocava-se com o crime em frente à TV na sala da casa do escritor, em Los Angeles, no quarto, Laura incentivava a experiência desejada pelo marido (ela relatou detalhes da morte de Huxley em uma carta) e após aplicar a segunda dose de LSD em um Huxley inconsciente, contou o que disse na beira da cama:

– Vá, vá, você vai, querido; para a frente e para o alto. Você está indo para a frente e para o alto; você está indo na direção da luz. De bom grado e conscientemente você está indo, está indo tão lindamente – está indo na direção da luz. Está indo na direção de um amor maior. Está indo para a frente e para o alto. É tão fácil, tão bonito. Você está indo muito bem, tão fácil. Leve e livre. Para a frente e para o alto. Você está indo na direção do amor de Maria com o meu amor. Você vai na direção de um amor maior do que você já conheceu. Você está indo na direção do melhor, do amor maior, e é fácil, é tão fácil, e você está indo tão lindamente”.

Será que essa preparação mental e espiritual transformou a morte de Huxley em uma experiência diversa da dos outros mortais? A consciência alterada pelo LSD trouxe melhor entendimento do abandono do corpo físico (se é que ele existe)? Os preparativos de Huxley colaboraram para uma melhor compreensão do significado da morte para o espírito (se é que ele existe) de Huxley? Somente algumas perguntas que surgem da experiência do escritor.

Huxley nasceu em uma família de intelectuais. Por parte de mãe, ele era parente do escritor Matthew Arnold (1822-1888), crítico e professor de poesia da Universidade de Oxford. Seu avô, Thomas Henry Huxley (1825-1895), foi um conhecido naturalista e defensor das teorias evolucionistas de Darwin. Seu irmão, Julian Huxley (1887-1975), era biólogo e filósofo.

Um dos trabalhos mais conhecidos de Huxley, o romance distópico Admirável Mundo Novo, foi lançado em 1931 quando o escritor morava na Itália. Ele escreveu outros livros como A Ilha (1962), Contraponto (1928) e As Portas da Percepção (1954).

Neste último, o escritor relata suas experiências com a mescalina, alucinógeno natural extraído do cacto peiote e usado originalmente em ritos indígenas. Em 1956, Huxley complementou seu trabalho com outro ensaio sobre morte e religião, Céu e Inferno. Ambos os textos passaram a ser publicados no mesmo livro a partir de então. Pioneiro, o livro foi considerado um dos precursores da contracultura, que usou drogas alucinógenas para a expansão da consciência anos mais tarde.

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huxley e esposa

Aldous e Laura Huxley

“É para o mundo exterior que abrimos os olhos todas as manhãs, é nele que, de bom ou mau grado, temos de procurar viver. No mundo interior, não há trabalho nem monotonia. Visitamo-lo apenas em sonhos e devaneios, e sua singularidade é tal que nunca encontramos o mesmo mundo em duas ocasiões sucessivas”

(Huxley em As Portas da Percepção)

Huxley passou a viver em Los Angeles em 1937 e se aproximou do Hinduísmo, Budismo, meditação e filosofia oriental, o que passou a influenciar seu trabalho. Sua paixão pelo poeta inglês William Blake (1757-1827) também o inspirou para o início de suas experiências com a mescalina, Blake sempre mesclou espiritualidade com literatura e já aos 9 anos, tinha visões de anjos.

O título de Portas da Percepção foi retirado de trecho de poema de Blake: “se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito”. A banda The Doors sacou seu nome também do poema.

Resumidamente, em “As Portas da Percepção” Aldous Huxley explica como o cérebro filtra o que vemos, fazendo com que deixemos de lado muitas informações e como podemos superar essas limitações em busca de uma vida mais plena. “A função do cérebro e do sistema nervoso é proteger-nos, impedindo que sejamos esmagados e confundidos por essa massa de conhecimentos”, escreveu Huxley em seu livro.

Huxley foi entusiasta do uso responsável do LSD como catalisador dos processos mentais em busca de desenvolvimento humano. Ele começou suas experiências com LSD em 1955. Na época da morte de Huxley, o LSD era legal na Califórnia, três anos depois, passou a ser proibido.

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O escritor Aldous Huxley na década de 30 (fonte: Hulton Archive/Getty Images)

“Parece extremamente improvável que a humanidade, de um modo geral, jamais seja capaz de passar sem Paraísos Artificiais. A maioria dos homens e mulheres leva uma vida tão sofredora em seus pontos baixos e tão monótona em suas eminências, tão pobre e limitada, que os desejos de fuga, os anseios para superar-se, ainda por uns breves momentos, estão e têm estado sempre entre os principais apetites da alma. A arte e a religião, os carnavais e as saturnais, a dança e a apreciação da oratória, tudo isso tem servido, na frase de H. G. Wells, de Portas na Muralha. E na vida individual, para uso cotidiano, sempre houve drogas inebriantes. Todos os sedativos e narcóticos vegetais, todos os eufóricos derivados de plantas, todos os entorpecentes que se extraem os frutos ou raízes, todos, sem exceção, são conhecidos e vêm sendo sistematicamente empregados pelos seres humanos, desde épocas imemoriais”.

(Huxley em As Portas da Percepção)

Assista ao breve vídeo sobre a morte de Huxley:

 

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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3 Comentários

  1. Vou pensar nessa possibilidade com todo carinho.

  2. Tenho buscado na literatura compreensões ao menos simples da existência humana.Algumas sociedades enaltecem algumas práticas que são estranhas á outras, no entanto gosto das percepções filosóficas e existenciais de um escritor não tão conhecido chamado Francis Schaeffer quando fala da linha do desespero no livro A morte da razão.

  3. As portas da percepção/Céu e inferno foi um livro que li com muito prazer (e espanto) e até gostaria de reler, pois a leitura foi nos anos 70, quando a contracultura dominava e a gente lia muito outro autor que lidou com a mescalina, Carlos Castaneda. Muito interessante, este artigo. Mas na minha opinião, qualquer existência pós-morte significará danação. O melhor é pensar que sobrevirá um profundo e total Vazio, única possibilidade de repouso para qualquer fiapo de consciência que nos reste. Porque nossa identidade está mais para Inferno do que para Céu.

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