Julinho da Adelaide driblou a censura nos anos 70

Com o sucesso da música Apesar de você, em 1970, as canções de Chico Buarque passaram a sofrer uma espécie de censura prévia. Os integrantes do governo militar não se perdoaram por liberar a música e proibiram sua execução nas rádios. Irritada, a cúpula do regime considerou a letra uma ofensa ao presidente Médici, o evidente você. Acuado, Chico passou a assinar algumas músicas como Julinho da Adelaide.

Julinho/Chico escreveu músicas como Jorge Maravilha, Milagre Brasileiro e Acorda Amor, aprovadas pela censura sem nenhum impedimento. Em Jorge Maravilha, Chico cantava: “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”, o que gerou a especulação de que Amália Lucy, fã declarada dele e filha de outro presidente militar, o general Geisel, tinha sido a homenageada da canção. Chico sempre negou que tenha composto a música para Amália.

8 de abril chico buarque

Para driblar a censura, Chico Buarque virou Julinho da Adelaide (crédito da foto: Club Alfa)

Chico começou a contar para o público em suas apresentações que Julinho da Adelaide era um “compositor de morro carioca que vivia mais nas páginas policiais e que de repente passou para as páginas das crônicas musicais”.

Imagens da ditadura e Apesar de você (considerada pelo governo da época um ataque direto ao presidente Médici):

Será que a filha de Geisel gostou de “Jorge Maravilha”?

Julinho da Adelaide concedeu uma entrevista ao jornalista e escritor Mario Prata, que a publicou no jornal Última Hora. Leia a entrevista completa em que Julinho declarou: “embora eu não seja cantor, um dia eu pretendo gravar um disco. Você vê, gente que não canta bem como o Chico Buarque, o Vinícius de Moraes, o Antonio Carlos Jobim, estão cantando”. Mario Prata comenta a entrevista histórica com Julinho em 1998:

“Julinho, ao contrário do Chico, não era tímido. Mas, como o criador, a criatura também bebia e fumava. Falava pelos cotovelos. Era metido a entender de tudo. Falou até de meningite nessa sua única entrevista a um jornalista brasileiro. Sim, diz a lenda que Julinho, depois, já no ostracismo, teria dado um depoimento ao brasilianista de Berkeley, Matthew Shirts. Mas nunca ninguém teve acesso a esse material. Há também boatos que a Rádio Club de Uchôa, interior de São Paulo, teria uma gravação inédita. Adelaide, pouco antes de morrer, ainda criando palavras cruzadas para o Jornal do Brasil, afirmava que o único depoimento gravado do filho havia sido este, em setembro de 1974, na rua Buri, para o jornal Última Hora.

Para mim, o que ficou, depois de quase 25 anos, foi o privilégio de ver o Chico em um total e super empolgado momento de criação. Até então, o Julinho era apenas um pseudônimo pra driblar a censura. Ali, naquela sala, criou vida. Baixou o santo mesmo. Não tínhamos nem trinta anos, a idade confessa, na época, do Julinho.”

 

O militante Chico Buarque

O trecho acima mostra a combatividade de Chico na época. Francisco Buarque de Hollanda ou Chico Buarque, como é conhecido, talvez, seja o representante-mor de toda uma época da música brasileira. Filho de um grande historiador brasileiro (Sérgio Buarque de Hollanda) e de uma pianista amadora, desde cedo teve o passado, presente e futuro ligados à música como forma de mensagem e ideologia para si e para quem quisesse ouvi-lo. Autor de clássicos odiados pelos homens fardados, Chico era, talvez, o principal combatente com lápis e papel do regime militar.

Além da militância política, a arte e, em particular a música, foi uma grande arma no combate à política repressora do Estado brasileiro. O endurecimento do regime que veio com o Ato Institucional número 5, o AI-5, em dezembro de 1968, levou Chico Buarque a mudar para a Itália, onde chegou a realizar espetáculos com Toquinho. Se tornou amigo do compositor italiano Lucio Dalla, e verteu a música “Gesù Bambino”, de Dalla, para o português em “Minha História” (1970).

Chico compôs outras tantas músicas consideradas verdadeiros hinos de resistência à ditadura militar:

  • “Mulheres de Atenas”: música composta por Chico Buarque e Augusto Boal em 1976 para a peça Mulheres de Atenas de Boal.

  • “Cálice”: composta em parceria com Gilberto Gil em 1973, a música foi censurada e seu título pode ser lido também como Cale-se, clara referência à censura e repressão vivida no país na época.

  • “Vai Passar”: composta por Chico Buarque e Francis Hime em 1979, a música foi o hino da Campanha das Diretas, em 1984.

  • “Meu Caro Amigo”: também composta por Chico em parceria com Francis Hime, é uma carta em forma de música e foi composta para o amigo de Chico, o dramaturgo Augusto Boal, exilado em Lisboa. Nela, Chico retrata a situação em que se encontrava o Brasil.

Miúcha interpreta Milagre Brasileiro de “Julinho da Adelaide”:

Matheus Guimaraes

Se você gosta de cinema, música, pintura e literatura, saberá resumidamente quem sou. Aficionado por Woody Allen e Alfred Hitchcook, Bossa Nova e Samba, Cézanne e Monet, Drummond e Vinicius, estudo como um mero amador as maiores artes que vivem neste mero mundo. Digno de nada, dedico minha vida aos estudos relacionados à Cultura e História mundial, ou seja, sou um terno amante do tempo encoberto.

3 Comentários

  1. Laurenice Noleto Alves diz:

    Ótima matéria! Precisamos divulgá-la mais, para brecar um pouco essa onda de mentiras espalhadas sobre o Chico, dando como se ele tivesse plagiado suas próprias músicas. Coitados dos “coxinhas”, não gostam de ser chamados de ignorantes, mas chamá-los de que então?

  2. Excelente, cara…. não sei se isso é um blogue ou o quê, mas é legal demais!!

  3. Maria Teresa S Rocco diz:

    Muito boa matéria!

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