Malufismo jurídico

por Guilherme Scalzilli

 Às vezes encontro uma curiosa distorção do apanágio malufista “rouba mas faz” (originado em Adhemar de Barros), aplicado a Lula. O malufismo é o último refúgio do petista, e variações equivalentes.

A acusação aos apoiadores de Lula remete a certa excrescência pragmática da política populista. Inaugurando obras, o sujeito pode afanar quanto quiser. São todos corruptos de qualquer forma, só importam os resultados práticos etc.

O resgate do malufismo é curioso porque demonstra certa inversão nas estratégias narrativas da direita. Agora não se relativiza mais as conquistas sociais dos governos Lula, outrora dissipadas em recortes históricos envolvendo FHC.

lula paulo maluf

O foco passou à maleável questão moral, abandonando fatos (de resto estatisticamente irrefutáveis) que há pouco tinham alguma relevância nos debates políticos. Guinada conservadora típica, de apelo inegável nos botequins virtuais.

Mas essa retórica traz em si uma contradição insanável.

A ideia de que Lula “roubou” nasce nas “convicções” de Sérgio Moro e Rodrigo Janot. E adotá-las é aceitar os seus métodos. Surge então o raciocínio “Moro e Janot forçam a barra, mas lutam contra a corrupção”. Às vezes agem errado, mas pela causa certa.

Um pragmatismo similar ao malufista, portanto, norteia os admiradores da Lava Jato. Desde que petistas sejam presos, dane-se a legalidade. Afinal, isso acontece todos os dias no Judiciário. Garantismo é coisa de burguês.

Sintomaticamente, tanto o malufismo da caça a Lula quanto a própria malufização do petista antagonizam com a defesa de direitos constitucionais.

Texto originalmente publicado no Blog do Guilherme Scalzilli.

Historiador e escritor, mestre em Divulgação Científica e Cultural. Articulista da a revista Caros Amigos por dez anos (2001-2011). Colabora regularmente com o Le Monde Diplomatique, o Observatório da Imprensa e outros veículos.

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