Nossas veias ainda não cicatrizaram

Perdemos o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Ele morreu hoje pela manhã em hospital de Montevidéu aos 74 anos. Galeano é, junto com o brasileiro Darcy Ribeiro, daqueles poucos intelectuais que nos clareiam o caminho no entendimento de nossas mazelas, latinos do hemisfério sul. Cabe a nós buscarmos as saídas com a ajuda deles. Nesse momento, mais do que nunca.

Inevitável dizer que seu livro mais conhecido, As Veias Abertas da América Latina, escrito por Galeano com apenas 30 anos e publicado em 1971, marcou toda uma geração que lutou contra o arbítrio nos países da América do Sul. O livro foi proibido no país natal do escritor, no Brasil, Argentina e Chile durante os governos ditatoriais.

eduardo galeano morte

O escritor Eduardo Galeano

“Quanto mais cobiçado pelo mercado mundial, maior é a desgraça que um produto traz consigo ao povo latino-americano que, com seu sacrifício, o cria”.

(Trecho de “As Veias Abertas da América Latina”)

O setentão Galeano não perdoava a audácia do ainda jovem Galeano de explicar em apenas 300 páginas de As Veias da América Latina a história de séculos de exploração econômica sofrida por nosotros e nuestros hermanos, principalmente pela Inglaterra e Estados Unidos. Em visita ao Brasil no ano passado, o escritor declarou: “eu não seria capaz de ler o livro de novo. Cairia desmaiado. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é chatíssima” (declaração retirada do site Opera Mundi). O livro foi traduzido para mais de uma dezena de idiomas e vendeu cerca de um milhão de exemplares.

Em 2009, o presidente Hugo Chávez presenteou Barack Obama com um exemplar de As Veias Abertas da América Latina (fonte: Associated Press)

Em 2009, o presidente Hugo Chávez presenteou Barack Obama com um exemplar de As Veias Abertas da América Latina (fonte: Associated Press)

 “A pobreza não está escrita no astros; o subdesenvolvimento não é fruto de um obscuro desígnio de Deus. As classes dominantes põem as barbas de molho, e ao mesmo tempo anunciam o inferno para todos. De certo modo, a direita tem razão quando se identifica com a tranquilidade e a ordem; é a ordem, de fato, da cotidiana humilhação das maiorias”.

(Trecho da introdução de “As Veias Abertas da América Latina”)

A obra de mais de 30 livros de Galeano é diversa e prolixa. Entre eles, O livro dos Abraços (1991), que pode ser definido como histórias curtas e/ou pequenos relatos poéticos; Trilogia Memória do Fogo (publicada entre 1982 e 1986), em que Galeano utiliza a poesia e o conto para narrar a história latino-americana desde o Descobrimento; Dias de Noites de Amor e Guerra, memórias sobre as agruras do período ditatorial no Uruguai e Argentina; e muitos outros.

Eduardo Galeano atuou também como jornalista. Começou jovem nos anos 60 como editor do semanário “Marcha”. Após o golpe uruguaio em junho de 1973, Galeano foi para Argentina e fundou a revista Crise e a dirigiu durante seus primeiros 40 exemplares. A repressão da ditadura argentina o levou ao exílio na Espanha em 1976, só retornando ao Uruguai em 1985.

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Galeano com o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica

Em primeiro de março último, a visita do presidente boliviano Evo Morales lhe deu uma injeção de ânimo em sua luta contra um redivivo câncer de pulmão, que já o tinha hospitalizado em 2007. O escritor admirava Morales, como pode ser visto na entrevista abaixo que deu ao professor Emir Sader:

Poema de Eduardo Galeano abre o disco Multiviral (2014) da banda porto-riquenha Calle 13:

Sou blogueiro e jornalista. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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