O monstro Mercado

Mercado vive há décadas nos esgotos de Wall Street. Alimenta-se diariamente de esperança e miséria. Durante um mês por ano, passa férias no parque construído especialmente para seu descanso nas Ilhas Cayman.

Dentro de seu duro coração, há espaço para saudades de aliados de primeira hora como a família Bush e Margaret Thatcher. Época em que ele escalava tranqüilo as torres do WTC e descansava a vista com o skyline da metrópole. “Bons tempos que não voltam mais”, suspira. Rei da metamorfose, Mercado aprendeu a gostar de Obama, Hollande e Merkel.

Por anos, Mercado entoou seu hit Globalização, repetido ad nauseam pelos quatro cantos do planeta. Espécie de world music hipnótica, Globalização controlou o imaginário humano. “Sua pregação integracionista visava seu próprio umbigo”, protesta um de seus mais ferrenhos inimigos, a Liberdade.

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Em 2008, Mercado ficou gravemente doente. Nervoso em seu estado debilitado, vociferava ameaças terroristas. Políticos, economistas e executivos o medicaram com  muito dinheiro público diretamente na veia. Uniformizados de Hugo Boss ficaram exultantes com sua pronta recuperação. Poucos perderam seus empregos e, apenas, um ou outro foi preso. Mercado curou-se e, aos gritos, pulava de galho em galho.

Seu amigo inseparável, Desemprego vampiriza a energia de milhões de jovens, em especial, espanhóis. No passado, Desemprego e Mercado viviam uma relação que era uma montanha russa, hoje, vivem de mãos dadas como verdadeiros amigos de infância.

Há meses, insistentes e ruidosos manifestantes têm atrapalhado seu sono. A insônia de Mercado afeta as bolsas ao redor do mundo. Ao olhar para o horizonte da Big Apple, Mercado sente um vazio no peito, é como se um pedaço de seu corpo tivesse sido arrancado. Mercado teme o futuro. Durante a madrugada, perturbadores pesadelos com milhões nas ruas em protesto o assombram.

Sou blogueiro, jornalista e criador de conteúdo. Pai de Lorena, santista e obcecado por literatura, cinema, música e política.

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