Os povos “chicos”

Sim, eu tive a sorte de nascer na fronteira. Argentina e Uruguai, também mátrias. Desde bebezinho ouvindo a língua espanhola e as histórias da gente da Banda Oriental. Não podia ser outra coisa pra uma mulher nascida nas terras brasileiras, mas eivada de latinidade. E foi por essa minha especificidade regional que conheci, muito cedo, a poesia de Hamlet Lima Quintana, um argentino fabuloso que fez parte do chamado movimento Nuevo Cancionero, vigoroso criadouro de poesia no campo da música.

Dentro do meu coração eu tenho a mais absoluta certeza de que foi uma de suas canções que me empurrou para ser quem eu sou. Era uma dessas cálidas noites da fronteira, numa primavera fugaz. Lá estava eu, sozinha, de olhos grudados na LT 85, Canal 12, Posadas, uma emissora argentina cujo sinal pegava muito bem em São Borja, quando escutei, na voz da sempre emocionante Mercedes Sosa, uma das mais incríveis canções de Lima Quintana: Los pueblos de gesto antiguo.

7 de agosto pueblito elaine tavares foto 1

Lembro como se fora hoje o impacto daquela canção sobre mim. Naqueles dias já tinha um especial fascínio pelos povos antigos dessa estonteante América do Sul, germinado pelas leituras que eu vorazmente fazia nos livros comprados, aos borbotões, por meu pai. Então, aquela poesia ofereceu o caminho: “allá me voy a vivir”… Já não poderia haver dúvidas.

Quintana foi um desses poetas que buscou fazer música militante, capaz de ser entendida pelas gentes na sua mais intensa profundidade. Mercedes deu vida a muitas delas. Essa, particularmente, fala dos povoados pequenos onde as pessoas ainda são capazes de gestos poéticos de profunda ternura, gente que se dá as mãos para vencer as dificuldades e as batalhas cotidianas. Essa coisa típica dos “pueblos chicos”, onde todos se conhecem e buscam a mesma direção. Hoje, vivendo no Campeche, sei o que é isso. E caminhando por essa Abya Ayala (América Latina), essa terra feita de esplendor, sinto que pude realizar o que, naqueles dias, era um sonho: “Me iré por aquel camino que lleva al pueblo, que crece entre la ternura que da el maíz. Me iré con la lucha a cuestas y el alma abierta, allá me voy a vivir. Con toda la fuerza antigua de mi raíz”.

Não foi sem razão que andei por aí, buscando as histórias velhas, dos povos antigos, dos nosso esquecidos heróis e heroínas do cotidiano, esses que verdadeiramente fazem a história. Tupac Katari, Bartolina Sisa, Zumbi, Dandara, Micaela, Juana Azurduy, Manoelita Saenz, Tupac Amaru, Gauicaipuru, Vaimaca, Sepé, tantos outros, tantas outras.

E hoje, quando escuto aquela voz potente de La Negra, ainda transbordo de pura emoção. Porque um dia encontrei essa poesia no caminho e fiz dela a razão de viver.

“Me gustan los pueblos chicos de gesto antiguo

Son gente que da la mano y saluda al sol

Que sabe ganar la vida y ganar la muerte

Allá me voy a vivir

Con gente que planta un árbol y enciende amor.

 

Me iré por aquel camino que lleva al pueblo

Que crece entre la ternura que da el maíz

Me iré con la lucha a cuestas y el alma abierta

Allá me voy a vivir

Con toda la fuerza antigua de mi raíz.

 

La gente estará cantando la vida nueva

Que esta creciendo en los pueblos chicos

Los pueblos de gesto antiguo

Con gente que da la mano.

 

Me voy a cantar con ellos hasta que el alba

Rocié el campo de aroma puro.

Sencillo como la lluvia

Profundo como la paz.

 

Los pueblos de gesto antiguo se dan la mano

Los pueblos se dan la mano para vencer

Los pueblos que van creciendo como los vientos

Allá me voy a vivir

 

En ese pueblo tan chico que va a nacer”.

Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos, inaugurando o esperado pachakuti.

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